Um canto que lava a alma
Postei, há algum tempo no Facebook, o texto abaixo com um trecho de um bendito cantado por D. Jesuína Pereira Magalhães, de Igaporã, Bahia, nascida em 1915.
Por Marco Haurélio
Publicado 03/05/2013 17:53

Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do seu bento filho.
Maria lavava,
José estendia,
O menino chorava
Do fri que sentia.
As duas quadras fazem parte de um conto que a informante chamou O Menino Governador do Mundo e se insere no conjunto de narrativas apócrifas enfocando a fuga da sagrada família para o Egito. Obviamente, o interlúdio poético é uma contaminação do texto em prosa, que lhe serve de moldura.
Meu amigo José Joaquim Dias Marques, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira (CEAO), da Universidade do Algarve, Faro, Portugal, generosamente, enviou-me a versão abaixo, que compartilho com os leitores deste espaço:
Segundo explicou a informante, este texto era cantado durante a recitação do terço, provavelmente numa das pausas que marcam a separação entre os vários mistérios. Esta versão tem de especialmente interessante as séries de quadras paralelísticas. Foi recolhida por uma aluna minha.
À beira do rio
Lavando os paninhos
Do seu bendito filho.
A Virgem lavava,
S. José estendia
E o menino chorava
Do frio que fazia.
Calai, meu menino,
Calai, meu amor,
Que essas tuas chagas
Me partem com dor.
Os filhos dos homens
Em bons travesseiros;
Meu Deus, meu menino
Em cama de madeiros!
Os filhos dos homens
Em berço dourado;
Meu Deus, meu menino,
Em palhas deitado!
Olhais para o céu,
Verás estar Maria,
Com tanta alegria.
Verás estar José,
Cercado de anjos,
E Maria ao pé.
Olhais para o céu,
Verás uma cruz,
Cercada de rosas,
E o Menino Jesus.
A cantora e compositora paraibana Socorro Lira, uma das mais belas vozes da música brasileira, interpreta o bendito, que é também acalanto, Senhora Santana, gravado no álbum Intersecção: a Linha e o Ponto, que repete alguns versos das versões acima reproduzidas.
Ao redor do mundo,
Aonde ela passava,
deixava uma fonte
Quando os anjos passam,
Bebem água dela.
Oh que água tão doce,
Oh Senhora tão bela!
Encontrei Maria
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do seu bento filho.
Maria lavava,
José estendia.
O menino chorava
Do fri que sentia
Os filhos dos homens
Em berço dourado,
E tu, meu menino,
em palhas deitado.
Calai, meu menino,
Calai, meu amor,
Que a faca que corta
Não dá tai sem dor.
Com Socorro Lira
Fonte: Cordel Atemporal