O humor do Barão de Itararé como antídoto contra a barra pesada
Após a derrota da Revolta de 1935, Apparício Torelly, vulgo Barão de Itararé, foi preso no navio-presídio Pedro I, ancorado na Baía de Guanabara. Muitos militantes de esquerda, mesmo não vinculados diretamente à revolta, foram detidos. Em algumas noites, policiais invadiam as celas e surravam os prisioneiros. Em uma delas, Apparício gritou: “Viva a Revolução!”, os meganhas partiram pra cima dele que completou:” … de 30!”. O riso dos prisioneiros desmontou a agressividade dos agentes.
Publicado 26/08/2016 16:35

Popular nos bares e redações do Rio de Janeiro, o Barão aliviava a dura rotina da prisão com piadas e sacanagens. Divertido mesmo foi o depoimento para um improvisado tribunal, na verdade um teatro em forma de tribunal que o presidente Getúlio Vargas inventou para justificar as prisões. Aí vai um trecho do depoimento do Barão, retirado da ótima biografia Entre sem Bater, a vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé, escrita por Cláudio Figueiredo:
– Ora, doutor, o senhor então atravessa o Atlântico numa lancha a motor, especialmente para me ouvir, e não sabe o meu nome?
– Bom, isso aqui é só uma formalidade.
– Mas eu estou completamente informal, nem procurei me vestir. Como é que o senhor me vem como formalidades?
O juiz virou-se para o escrivão e disse: “Apparício Torelly.”
– Ah, o senhor está vendo como sabia meu nome! E mesmo assim estava me perguntando? Eu sou um homem sério; não faça isso comigo.
– Sua idade?
– Esse é outro problema… Não sou criança, nasci há muito tempo… Vou lhe dizer uma coisa: estou numa situação de tamanha pressão mental e nervosa que não me lembro de coisas que aconteceram ontem. E o senhor quer que eu me lembre de quando nasci. Isso é uma coisa de que não tenho a menor noção no momento.
Ele se virou para o escrivão e disse: “Quarenta anos presumíveis”.
– Presumíveis está muito bem. Aliás, há agora uma teoria em voga que diz que a vida começa aos quarenta. De modo que aceito o palpite.
– A que o senhor atribui sua prisão?
– Ora, doutor, eu julgava que o senhor é que vinha me dizer o motivo da minha prisão. Estava esperando que o senhor viesse me dizer: o senhor está preso por isso, por aquilo e assim por diante. Então, com toda dignidade, eu iria me levantar e contestar, com grande veemência, desmanchar esse castelo de cartas, essa acusação contra uma pessoa séria…
Apesar de a sessão ter seu acesso restrito, ao erguer os olhos o Barão percebeu com satisfação que sua performance contava com uma plateia”.
E assim prosseguiu o depoimento do Barão.

Barão de Itararé de pé e de barba na Casa de Detenção em 1936
Falando em panelas, muitas décadas antes dos sons das panelas indignadas de certa classe média, o Barão, em premonição vanguardista, escreveu breve diálogo com as panelas, a sátira era direcionada a escritores empolados que ouviam a natureza, o coração, essas coisas supostamente superiores. Apparício ouvia as caçarolas:
Ficaste louco… E eu vos direi, no entanto, que muitas vezes paro, boquiaberto,
Para escutá-las pálido de espanto.
Direis agora: – Mas meu louco amigo,
Que poderão dizer umas panelas?
O que é que dizem quando estão contigo
E que sentido têm frases delas?
E direi mais: – Isso quanto ao sentido,
Só quem tem fome pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender panelas”.
Apparício liderou um protesto que ficou conhecido como a “passeata da rolha” que reuniu centenas de estudantes com rolhas nas bocas em filas de dois para não burlar a proibição de Medeiros. Na frente, Apparício também de rolha na boca em exaltado discurso mudo em cima de uma carroça puxada por um burro. A população divertia-se e cada vez mais porto-alegrenses juntavam-se a inusitada manifestação. Ele foi preso com outros dois estudantes e solto horas depois.
Cinco anos depois, na chamada Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul, adeptos de Borges enfrentaram os seguidores de Assis Brasil, os maragatos como Apparício, em um violento conflito com fuzilamentos de prisioneiros, estupros e incêndios.
Frase do Barão: “Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará tão cretino como o pai”.
Apparício desiste da medicina ao se incomodar com a avidez pelo vil metal entre os médicos e não perdoava o Bastão de Asclépio, tradicional símbolo da medicina que contém uma cobra, que segundo ele definia o espírito da medicina: “se cura, cobra; se mata, cobra”.
Ainda estudante, o agitador político Apparício foi preso algumas vezes e era conhecido do delegado Louzadinha que ao vê-lo carregado pelos policiais na delegacia, resmungou: “eu não disse que não queria vê-lo nunca mais!?” Ele retrucou:” foi o que eu tentei explicar o tempo todo a estes senhores, Doutor Louzada, mas eles não me ouviam”.
Aliás Apparício frequentou prisões ao longo de sua vida, mesmo após adentrar a nobreza por conta própria quando já vivia no Rio de Janeiro. Em 5 de dezembro de 1930, após a vitória dos revolucionários, as páginas do jornal A Manhã, criado por ele aos 31 anos, concediam a honraria nobiliárquica ao seu diretor: “considerando que, no fundo, a República é uma monarquia disfarçada, [o presidente Getúlio Dor Neles Vargas] resolve conceder ao nosso querido diretor o título de Barão de Itararé, podendo fazer dele o uso que lhe convier”.
Comunista, o Barão não se contentava com a aristocracia e fundou também a União das Repúblicas Socialistas da América do Sul, as Ursas, repúblicas governadas por um monarca, Sua Majestade Itararé I, o Brando.
Frase do Barão: “Negociata é um excelente negócio para o qual não fomos convidados”.
Em 1925, cinco anos antes de adentrar o baronato, Apparício Torelly desembarcou no Rio aos 30 anos e entrou com a cara e a coragem na redação de A Noite, de Irineu Marinho, pai de Roberto. Após uma rápida conversa, Irineu prometeu um trabalho com um bom salário para Apparício e pediu para que ele retornasse na segunda, quando retornou, o jornalista gaúcho leu o comunicado na porta sobre a morte de Irineu, ele ainda trabalhou por lá, mas por um curto período. Em um bar, encontrou um amigo jornalista que o apresentou a Mário Rodrigues, pai do dramaturgo Nelson Rodrigues, e foi trabalhar no jornal de Mário, A Manhã.
Nos anos 30, os integralistas, versão tupiniquim dos fascistas europeus com seu uniforme verde e seus gritos de Anauê, eram um dos alvos preferidos do Barão de Itararé. Por pouco, certa vez confessou o Barão, não se entregou aos delírios dessa turma ao acreditar que o lema dos integralistas era “Adeus, Pátria e Família!”