Slogan bolsonarista de “melhor Enem” desmoronou em 75 dias

“Tivemos o pior Enem desde que o exame passou a ser utilizado para ingresso no ensino superior”, rebate Iago Montalvão, da UNE

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, pode ser convocado pelo Senado

Foi na manhã de 4 de novembro passado, uma segunda-feira, que Abraham Weintraub tentou cravar, pela primeira vez, um slogan ufanista para a edição de 2019 do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Passadas poucas horas do primeiro domingo de provas, o ministro da Educação do governo Bolsonaro não continha a empáfia: “O Enem transcorreu de uma forma quase perfeita. Considero que foi o melhor Enem de todos os tempos em termos de números”, declarou Weintraub em uma entrevista chapa-branca à Jovem Pan.

No domingo seguinte, 10 de novembro, tão logo se encerrou o segundo e último dia de aplicação do exame, a prepotência do governo se intensificou – e os elogios exaltados ao Enem 2019 foram além de números. “Tivemos – acho que agora dá para afirmar – o melhor Enem de todos os tempos, tanto em execução, operação, logística, como também em termos de formulação”.

Afinal, o slogan se justifica e o Enem foi mesmo o melhor da história?

“Na verdade, foi o contrário. Tivemos o pior Enem desde que o exame passou a ser utilizado para ingresso no ensino superior”, rebate Iago Montalvão, presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes). “Erros sempre houve – mas nunca dessa magnitude. Além disso, quando houve erros nas edições anteriores, foram solucionados sem enormes prejuízos.”

Os erros, a rigor, começaram antes mesmo da realização das provas. Em abril de 2019, um anúncio já punha em xeque o primeiro Enem sob o governo Bolsonaro: a gráfica RR Donnelley – que respondia pela complexa impressão do exame desde 2009 – foi à falência. Em seu lugar, a Valid Soluções S.A. foi contratada por R$ 151,7 milhões, sem licitação.

Outro impasse sem precedentes foi a instabilidade político-administrativa no Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Nos primeiros 11 meses de governo Bolsonaro, a autarquia do MEC, responsável pela realização do Enem, chegou a ter nada menos que quatro presidentes – Maria Inês Fini, Marcus Vinicius Rodrigues, Elmer Coelho Vicenzi e Alexandre Lopes. A cada troca no comando do Inep, diversas medidas foram retardadas ou revogadas.

Em novembro, a crise teve vez no primeiro dia do Enem 2019. O Ministério da Educação (MEC) anunciou, com uma hora de antecedência, que os portões dos locais de prova já estavam abertos. A informação foi logo corrigida, e o MEC falou em “falha operacional nos sistemas de dispositivos eletrônicos”. Um pouco mais tarde, quando alunos ainda faziam o exame, imagens de três provas foram vazadas nas redes sociais. Weintraub isentou a gráfica e o ministério, atribuindo o crime a um aplicador do exame.

Apesar da quantidade de contratempos iniciais, o ministro da Educação insistiu no mote de “melhor de Enem de todos os tempos”. Mas o slogan megalomaníaco de Weintraub – que procurava associar uma suposta excelência do Enem 2019 à ascensão de Bolsonaro à Presidência – não resistiu por muito tempo.

No começo de 2020, centenas de candidatos ao Enem denunciaram nas redes que seus gabaritos estavam errados. Mesmo com a pressão das entidades estudantis, o MEC negou, inicialmente, a troca de notas. Mas, no sábado 18 de janeiro, um Weintraub visivelmente constrangido admitiu o erro. Para minimizar o estrago, alegou que apenas 0,1% dos alunos do Enem foram afetados e, ainda assim, só no primeiro dia de prova. Os dois dados se revelaram falsos – a “crise dos gabaritos” tinha uma dimensão muito superior. E mais: a gráfica contratada sem licitação pelo MEC era, sim, corresponsável.

Quando um repórter questionou se Weintraub mantinha a narrativa do “melhor Enem de todos os tempos”, o ministro voltou a relativizar as falhas, mas não sustentou o slogan. A farsa do “melhor Enem” – mais uma fake news bolsonarista – desmoronou em 75 dias.

“É até uma piada de mau gosto afirmar isso (que foi o “melhor Enem”) quando temos milhares de jovens penalizadas pelos erros de correção”, diz Luiza Bezerra, secretária nacional de Juventude da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil). Para Luiza, a democratização do Enem no governo Lula “garantiu o ingresso de milhões de jovens ao ensino superior brasileiro”. Em contrapartida, “a falta de profissionalismo do governo Bolsonaro ameaça o futuro da juventude – ameaça a esperança desses jovens de se qualificar e, assim, buscar uma inserção profissional mais digna.”

Mais de 200 mil candidatos ao Enem 2019 prestaram queixas ao MEC. Em vários estados, o MPF (Ministério Público Federal) recebeu representações de estudantes. Como a nota no exame é pré-requisito para o SiSU (Sistema de Seleção Unificada) e o Programa Universidade Para Todos (ProUni), entidades estudantis exigiram que as inscrições para esses programas fossem temporariamente suspensas – até que o MEC resolva todos os problemas com o Enem.

Segundo a UNE, 16 universidades e institutos federais também adiaram o processo seletivo, obrigando milhares de vestibulandos a mudarem sua programação. A Justiça, por fim, suspendeu a divulgação do resultado do SiSU, prevista para esta terça-feira (28) – o que levou o MEC, por tabela, a também adiar o início das inscrições para o ProUni.

“Erros nas notas, mudanças estranhas no sistema do SiSU, falta de comunicação e transparência e uma enorme arrogância do MEC – todos esses elementos levaram a um verdadeiro desastre, que podemos vincular à incompetência ou irresponsabilidade do MEC”, afirma Iago. Na opinião do presidente da UNE, as “manobras” no Enem podem ter sido “propositais”, com o objetivo de “desgastar programas que foram um avanço diante dos modelos antigos de vestibular e contribuem para a melhoria da democratização do acesso à universidade”.

Quem também põe sob suspeita a lisura do Enem 2019 é Gilson Reis, coordenador-geral da Contee (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino). “O Enem, para além de ser importantíssimo para os estudantes brasileiros, envolve muito dinheiro, muitos interesses econômicos. Desde antes de assumir, Bolsonaro criticava o Exame e sua realização”, afirma Gilson. “Terá havido sabotagem? Quem é favorecido com essas trapalhadas?”

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