Coronavirus – novo desafio para o SUS

O Sistema Único de Saúde já demonstrou ser capaz de dar conta de situações semelhantes desde que não faltem recursos e estrutura.

(Foto: Agência Brasil)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a epidemia do novo nCoV- 2019 como emergência em saúde pública de interesse internacional. O motivo foi a expansão rápida dos casos de 500 para 8 mil e óbitos de 17 para 170 em uma semana. Outras emergências em saúde pública decretadas na última década foram: H1N1, iniciada no México em 2009; Ebola, na África em 2014 e 2019; Pólio em 2014 e Zika, no Brasil em 2016. Essas emergências ocorrem quando existe um potencial de disseminação global e risco de a epidemia atingir países com sistemas de saúde mais frágeis. O principal ponto positivo é a possibilidade de uma resposta governamental compartilhada em todo o mundo e a principal desvantagem é causar pânico nas populações. 

O coronavírus é de uma família de vírus de animais e poucos infectam humanos, incluindo o nCoV- 2019. Duas grandes epidemias de coronavírus já foram registradas no mundo: a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) – que se propagou na China, em 2002 e MERS (sigla em inglês da Síndrome Respiratória do Oriente Médio), em 2012. Ambas foram contidas e a letalidade foi em torno de 10%, superior a observada agora que é de 2%. Os casos mais graves de nCoV- 2019 ocorrem em idosos e pessoas com outras doenças como diabetes e imunodeficiências. A China mostra ao mundo uma resposta rápida elogiada pela OMS. Cidades com milhões de habitantes são colocadas em quarentena e a construção de hospitais em poucos dias são algumas dessas ações.

A expansão das áreas urbanas para o habitat de animais e as péssimas condições de vida de grande parte destas populações estão colocando cada vez mais os humanos em contato com animais e não é à toa que a maioria das novas doenças descritas são zoonoses. Os microrganismos que infectam animais são transmitidos para o homem que não tem nenhuma imunidade para estes novos patógenos.

As infecções pelos coronavírus e os vírus Influenza (A, incluindo H1N1 e B) apresentam semelhanças no quadro clínico e transmissão. O quadro é de febre, tosse e dores no corpo e podem ser leves ou graves quando pneumonia e insuficiência respiratória se apresentam. A transmissão é por contato direto ou indireto com secreções respiratórias de pessoas doentes. Com o nCoV- 2019 se fala em transmissão mesmo por pessoas ainda assintomáticas. A prevenção se dá com higienização das mãos com água e sabão ou álcool gel, cobertura da boca e nariz ao tossir, evitar aglomerações e contatos com pessoas doentes. Apenas no caso da Influenza existe vacina.

 Até o momento nenhum caso foi confirmado no Brasil e graças a sensibilidade do nosso sistema de Vigilância Epidemiológica foram detectados 14 suspeitos ainda em avaliação. Existe uma mobilização nas áreas de vigilância epidemiológica e assistenciais para garantir integração entre ações de prevenção e assistência. Existem hospitais de referência em todo o Brasil e na Bahia o ICOM (Instituto Couto Maia) é a principal referência. São inúmeras reuniões e videoconferências para garantir a construção e divulgação de protocolos atualizados. Isso só é possível porque temos um sistema de saúde universal. 

O SUS já foi testado na epidemia de Zika vírus e se mostrou competente para identificar os primeiros casos no mundo e garantir uma rede de assistência e reabilitação para casos complexos de microcefalia e Síndrome de Guillain Barré, além de implementar medidas de prevenção. Essas ações ocorreram mesmo no sertão nordestino. Neste momento o SUS está novamente sendo testado. Esperamos que o crônico déficit de financiamento e o atual contingenciamento de recursos não reduza a possibilidade de respostas a mais este desafio na saúde pública.

Médica infectologista

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