Gilberto Carvalho: É preciso alinhar o discurso a bandeiras do futuro

Na opinião do petista, a esquerda, “em profunda crise”, precisa se reinventar

A esquerda não morreu, mas “está numa profunda crise” e precisa se reinventar – a começar pelo PT. A opinião é do filósofo e ex-ministro Gilberto Carvalho, um dos fundadores do partido. “Na altura de seus 40 anos, o PT precisa ter a mesma ousadia e criatividade que teve nos anos 1980”, afirma Carvalho, que foi chefe do Gabinete da Presidência no governo Lula (2003-2010) e ministro da Secretaria-Geral da Presidência no primeiro governo Dilma Rousseff (2011-2014).

Em entrevista à revista Época, Carvalho defendeu a formação de uma frente ampla contra a gestão Jair Bolsonaro e sua vocação autoritária. Mas admite que, para derrotar o bolsonarismo, não basta evocar apenas as vitrines do governo Lula. “O recurso ao passado demonstra que é possível fazer diferente”, diz. “Mas não é suficiente. Esse discurso tem de estar alinhado a bandeiras do futuro, da esperança.”

Época: A esquerda no Brasil morreu? Por quê?

Gilberto Carvalho: Não acho. Prefiro dizer que a esquerda está numa profunda crise. E essa crise é própria dos momentos de transição que ocorrem na sociedade. Há dados objetivos que mostram que a sociedade brasileira sofreu uma profunda mudança em seu aspecto econômico nos últimos anos. A elite dominante produziu uma revolução tecnológica no sistema produtivo, não tem mais o grande conglomerado operário. A estrutura da relação capital-trabalho sofreu uma profunda mudança e isso impactou em nossa força de fazer política. A esquerda precisa se reinventar. Na altura de seus 40 anos, o PT precisa ter a mesma ousadia e criatividade que teve nos anos 1980 para continuar a ter influência no país. A sociedade mudou e nós não estamos dando o mesmo padrão de resposta.

Época: Governadores de esquerda aprovaram reformas da Previdência nos estados. Comandado pelo PT, o Ceará entrou no programa federal de escolas cívico-militares. A Bahia tem um projeto semelhante. Isso não confunde a população?

GC: Confunde. A relação com nossos governadores e prefeitos nem sempre é fácil, porque o partido aponta uma direção e a dura realidade impõe a eles um pragmatismo. Sobretudo de governos estaduais – que dependem em grande parte do governo federal. Há uma tensão real entre nós e algumas práticas de nossos governadores. Isso tem sido debatido. Temos de relevar, mas apontar essa contradição.

Época: O que, em sua avaliação, permitiu que a direita produzisse uma figura com capacidade de articular uma base popular?

GC: Não dá para olhar o Brasil sem olhar o mundo. Há uma onda conservadora que varre vários países e está presente na cultura mundial. E não podemos deixar de lembrar que o fascismo se assenta sobre descontentamento, miséria e frustração de expectativas não realizadas. A Alemanha fascista cresce diante da miséria elegendo um inimigo. Aqui no Brasil, ao mesmo tempo que o liberalismo tira direitos, ironicamente cresceu o risco de uma adesão às chamadas soluções fáceis. Esse crescimento também tem a ver com métodos criminosos da mentira, por meio das redes sociais, e com uma onda religiosa neopentecostal que contribui para esse tipo de postura.

Época: O discurso do PT na eleição de 2018 tinha como foco o resgate dos anos Lula no poder. Esse discurso tem chance de encontrar ressonância? Lula terá protagonismo eleitoral?

GC: O recurso ao passado demonstra que é possível fazer diferente, como nós fizemos, construindo uma rede de proteção social que praticamente eliminou a miséria no país. Mas não é suficiente. Esse discurso tem de estar alinhado a bandeiras do futuro, da esperança. Se não conseguirmos passar para as pessoas a ideia de que elas podem confiar em nós, não teremos sucesso. Por exemplo, a volta do pleno emprego nos termos antigos não é mais possível. Temos de repensar formas novas que deem resposta ao cara que está no Uber.

Época: Como vê a ideia de construção de uma ampla frente, que una da esquerda à centro-direita, para combater as iniciativas antidemocráticas de Bolsonaro?

GC: Vejo com natural simpatia. É fundamental que a gente supere nossas diferenças e saiba dos riscos que estamos correndo no país neste momento. Ao mesmo tempo, temos de saber dar nome aos bois. Não se trata apenas do combate moral – mas também da questão econômica, porque uma coisa está ligada à outra. Esse fascismo é ligado a um padrão de modelo econômico. O fascismo não está só nas bobagens que o Bolsonaro fala, mas sobretudo nas medidas antipopulares que estão sendo aprovadas no Congresso, na destruição do Estado brasileiro, das políticas sociais. A aliança tem de ser ampla, mas com quem aceite essa conversa.

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