Pandemia, dialética e luta política

Na vida e na política – a distinção é meramente didática uma vez que a política é parte da vida em sociedade, independente da vontade e da opinião de quem quer que seja – a gente vivencia mudanças impostas pelo movimento real, pela dialética, que proporciona movimento e transformação, resultantes das contradições entre forças opostas unidas no mesmo fenômeno.

E quem não entende que a natureza, a vida e as relações humanas – logo, a vida política também – são essencialmente dialéticas, por um lado, sofre mais do que deveria, surpreendido (a) por mudanças profundas, às  vezes bruscas, rápidas, na realidade, nas relações humanas, no comportamento individual e coletivo e, claro, de novo, na política. Por outro, ao seguirem não entendendo a dialética da vida, tentam reafirmar conceitos e práticas que geram ainda mais incompreensões, frustrações e erros crassos diante de problemas às vezes simples. Quando os problemas são mais complexos então, vira um “Deus nos acuda”! A interpretação mecânica, moralista, que enxerga a vida e as pessoas como portadoras do “bem e mal” absolutos e que mudanças bruscas, mesmo que parciais, não acontecem, atrapalham profundamente a boa interpretação do mundo real. Indivíduos pensando assim é ruim. Forças políticas assim pensando, é derrota garantida!

As contradições que regem as relações, têm ritmos díspares, nunca se movimentam de acordo com a nossa exclusiva vontade, mas é fundamental perceber como as mudanças resultantes dessas contradições – a disputa de ideias, as lutas entre setores sociais, a luta contra as forças da natureza, a luta entre forças políticas, etc – aproximam (ou afastam!) a dinâmica da vida da nossa vontade e da nossa ação, individual e coletiva. E as relações sociais e a relação humana com a natureza são essencialmente o resultado da nossa ação, dos nossos atos, das nossas opções, tenhamos ou não consciência disso. Como ensina o materialismo histórico e dialético, nada do que está aí é pura obra do acaso, mas sim da ação humana em cada tempo histórico. Mesmo que não tenhamos controle absoluto sobre os resultados da nossa ação, inclusive porque, aí sim, também, entra em jogo o acaso, com mais, ou com menos força.

Essa abstração acima é necessária para dar dois exemplos sobre como a dialética promove transformações, mudanças, na dinâmica da realidade. Mudanças nunca são totais, plenas, por um motivo fácil de entender: mudanças resultam da luta entre o velho e o novo, da luta entre forças opostas, e elas vão se dando conforme as força do novo e do velho. O novo tenta se impor e o velho tenta manter suas posições, numa espécie de cabo de guerra, ora indo mais para um lado, ora mais para o outro. Vamos aos dois exemplos, ambos resultantes da pandemia do coronavírus.

A pandemia em curso está obrigando expoentes do neoliberalismo a reverem suas concepções privatistas, fiscalistas, centradas apenas no papel – para eles – exclusivo da superioridade da economia privada, naquilo o que eles chamam de “eficiência absoluta do privado sobre o estatal”. Confundem, inclusive, economia privada com liberdade e democracia e a economia estatal com ditadura, ineficiência, corrupção e “socialismo”.

Hoje, por conta da pandemia, analistas, economistas, jornalistas e empresários, até há algumas semanas completamente ultraliberais, que espancavam todos os dias a presença do Estado na economia e na regulação da vida social – especialmente as relações trabalhistas – acusando tal presença como algo que trazia para a sociedade prejuízo, corrupção, ineficiência e – oh, Senhor! – a “escravidão coletiva do comunismo”, se veem obrigados a mudar de posição para defender que o Estado deve agir de modo intenso para evitar a catástrofe absoluta!

Figuras que primavam pela defesa intransigente do controle rígido dos gastos públicos – mesmo que isso implicasse em condenação à morte lenta de dezenas de milhões de pessoas desprovidas de tudo na “democrática e eficiente” economia capitalista, hoje vivem “aos gritos”, em quase desespero, pela ação do Estado para evitar o pior, mandando coisas como “Teto de Gastos”, “Lei de Responsabilidade Fiscal” e “Endividamento Público” para o espaço. Gente como Mônica de Bolle, Armínio Fraga, Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardenbergh, Trump, Boris Johnson, Macron, Angela Merkel, para ficar nos mais evidentes daqui e de fora, defendem e aplicam intervenções profundas do Estado sobre a sociedade para salvar o que for possível de um sistema que entrou em colapso e está na UTI respirando por aparelhos, no caso, o capitalismo neoliberal.

Em outro campo, mas ainda sob a égide do pandemônio causado pela epidemia, notórios bandidos privatistas, recebedores de polpudas somas de doações legais ou ilegais de grupos privados para serem eleitos e destruírem a economia pública estatal,  se veem obrigados a mudarem ideias e ações estando à frente de governos, setores de governo ou nos parlamentos, desenvolvendo ações contrárias ao que sempre defenderam. Gente como o ministro Mandetta – bandido golpista a serviço dos planos de saúde privados – Doria, Witzel, Rodrigo Maia, Ronaldo Caiado, dentre outros (as). Mandetta, por exemplo, não tira mais o colete do SUS. Os governadores implementam forte ação do Estado na vida coletiva e individual e exigem que o governo federal adote medidas econômicas de salvação nacional.

Voltemos às contradições, à dialética e à luta política.  Não são todos os jornalistas, economistas, empresários e governantes que fizeram essa conversão brusca – temporária e tática, por óbvio! – voltando seus olhos, emoções, defesa e ações político-administrativas nessa acentuação do papel do Estado na economia e na regulação da vida coletiva. Especialmente no Brasil, a partir do presidente da República e seu nefasto secto de nazifascistas irracionais, antipovo e lambedores de botas ianques, propagadores de ódio, fake news e fé tacanha junto às massas populares, ainda é forte a presença do ultraliberalismo e da destruição das rédeas, leis, serviços e programas sociais que minimizam a exploração brutal do capitalismo sobre a força-de-trabalho. Ainda é forte a presença e ação dos que defendem o fim da democracia de tipo burguesa- limitada e limitante para a emancipação popular – retrocedendo o país a uma ditadura brutal, antipovo, antinacional e a serviço exclusivo dos interesses da velha classe dominante associada ao imperialismo.

Ora, qual é o papel que as forças políticas organizadas, movimentos sociais e indivíduos que lutam contra o neoliberalismo, o capitalismo financeirizado e ultra excludente, o fascismo e o irracionalismo obscurantista que ainda são fortes e ocupam importantes fatias de Poder, devem ter diante desses setores – de economistas a empresários, de jornalistas a governantes – que se descolam – mesmo que temporariamente – das suas posições anteriores e partem para a defesa de ideias e ações que se aproximam mais do que defendemos? Rejeitamos, repudiamos ou buscamos traze-los para ainda mais perto do que defendemos? Chutamos tais mudanças que enfraquecem o campo do nosso principal inimigo ou buscamos intensificar essas mudanças reforçando o nosso próprio campo? Esfregamos nas suas fuças o tempo todo como os desprezamos pelo o que fizeram até pouco tempo atrás ou utilizamos suas novas ideias e práticas como provas de que estávamos corretos e que aqueles que mantém suas nefastas concepções e práticas precisam ser rejeitados?

Na luta política, alianças formais ou informais nascem e morrem conforme as necessidades que a dinâmica da vida e a correlação de forças impõem. Fazer alianças ou rejeitar fazer são opções que podem acelerar o ganho de força ou manter o próprio isolamento, fortalecendo assim o inimigo principal. Porque é preciso ter claro qual é o inimigo principal é buscar agregar contra ele, sempre que possível, “amigos” de curto, médio e longo prazos, conforme as circunstâncias. Não se trata de ter ilusões ou simplesmente esquecer o papel que os “neo-convertidos” ao antiliberalismo que devastou direitos e vidas tiveram no passado recente. Mas trata-se, isso sim, de estimular o papel positivo que podem jogar, no presente, para o reforço da nossa luta.

Esquecer as lições da dialética sobre contradições, movimento e transformações, transformação de quantidade em qualidade, desconsiderar que mesmo em períodos de mudanças profundas não se eliminam as influências do velho durante o desenvolvimento do novo, sendo inclusive necessário utilizar elementos do velho para potencializar o novo, é um erro brutal para forças políticas que se julgam portadoras, porta-vozes das mudanças.

Negar alianças que enfraquecem o inimigo em nome de uma suposta “pureza de princípios”, é esquecer e rejeitar como a vida realmente acontece. Inclusive como as guerras, revoltas, revoluções, mudanças de sistemas, em suma, a História, se desenvolvem e se resolvem. Fico aqui pensando, com meus botões, como teria sido a História, se Lênin e os Bolcheviques não lutassem ao lado do Governo Provisório de Kerensky contra o golpe militar do general Kornilov em julho de 1917, ou como seria a China, hoje, caso Mao Tse Tung e o PCCH se recusassem a lutar contra os invasores japoneses juntando forças com os nacionalistas de Xian Kay-Shek entre 37 e 39.

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2 comentários para "Pandemia, dialética e luta política"

  1. GeraldoJr disse:

    Concordo com os argumentos do Professor Altair. Este é um momento de provamos que aprendemos e praticamos a melhor teoria politica e econômica possível. Capaz de nos orientar e aos outros pela.saída da crise e em busca do bem comum.

  2. GeraldoJr disse:

    Concordo com os argumentos do Professor Altair. Este é um momento de provarmos que aprendemos e praticamos a melhor teoria politica e econômica possível. Capaz de nos orientar e aos outros pela.saída da crise e em busca do bem comum.

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