A Páscoa quase foi adiada por causa da peste

Tomado de remorso depois de saber que Jesus Cristo seria condenado à morte, Judas Iscariotes voltou ao Templo para devolver […]

Sem o beijo de Judas, Jesus não teria sido sacrificado. Sem crucificação haveria salvação? l Ilustração: Mariosan

Tomado de remorso depois de saber que Jesus Cristo seria condenado à morte, Judas Iscariotes voltou ao Templo para devolver as 30 moedas de prata que havia recebido em troca do beijo. Pequei, traindo sangue inocente, gritou. Problema seu, responderam os sacerdotes, mais interessados em demonstrar mansa lealdade ao Império e ativo compromisso com a Pax Romana. Não queriam ser confundidos com esses rebeldes que sempre aparecem em Jerusalém na semana da Páscoa. Transtornado, Judas atirou as moedas contra os maiorais do Sinédrio e saiu em desabalada carreira em direção à sua casa.

Os sacerdotes recolheram o dinheiro, deixando de guardá-lo na caixa de ofertas, por ser preço de sangue. Deliberaram comprar com ele o Campo do Poteiro, ou Campo de Sangue, assim chamado pela cor da argila, onde planejavam construir um cemitério para os forasteiros.

Ao chegar em casa, relata o Evangelho de Nicodemos, Judas perguntou à mulher onde tinha guardado a corda. A mulher estava sapecando um frango depenado que tinha acabado de destroncar. Homem, o que que você vai fazer com essa corda? Vou me enforcar, pois traí e entreguei o Mestre aos sacerdotes e anciãos. Ele será condenado à morte, mas, segundo a profecia, ressuscitará no terceiro dia. Ai de nós! A mulher deu uma risada. Não seja bobo, marido, é mais fácil este galo cocoricar do que o seu mestre ressuscitar depois de três dias! Mal acabou de falar, o bicho se levantou em cima das brasas, bateu as asas e cantou três vezes. Apavorado, Judas pegou a corda e sumiu no mundo.

Crucifica-o!

A essa altura, Pôncio Pilatos recebia Jesus, o olho roxo, manietado, das mãos da turba enfurecida. Crucifica-o! Ele prega o calote contra o Imperador! Diz que é o Messias! Proclama ser o rei dos judeus! Indiferente aos berros, Pilatos interroga o acusado. Você é o rei dos judeus? É você que está dizendo, responde o Nazareno.

præfectus dirige-se à multidão. Não vejo crime algum nesse pobre diabo! Vaias. Mais vaias. Muitas vozes insistem que o Nazareno tem pregado a sedição em toda a Judeia e na Galileia. Ele é galileu? Com esse detalhe Pilatos resolve fazer política, encaminhando o acusado a um adversário de longa data, Herodes Antipas, o governador da Galileia, de passagem por Jerusalém.

Assim que os guardas levam o prisioneiro, junto com uma carta cheia de salamaleques e um parecer declarando que o caso era da jurisdição do preclaro, augusto e sereníssimo governador da Galileia, um estafeta chega à casa de Pilatos trazendo um pergaminho lacrado com o selo de Augusto, Imperator Cæsar Divi Filius. É uma convocação urgentíssima. O governador deve partir imediatamente para Roma, com a roupa do corpo, como se diz. Gravíssimo assunto de Estado. Pilatos obedece a ordem sem piscar, depois de jogar duas mudas de túnica na mochila e oscular a esposa, dando-lhe um carinhoso beliscão na calipígea. Não sei quando volto, caríssima! O Augusto tem manias que até hoje não entendo. Com os olhos embevecidos de vaca morta, Pilatos dá um tchau, já sentindo saudades. Admirabile femina! Desce as escadarias suspirando, cada vez mais desconfiado de que ela está se convertendo à causa dos comunistas primitivos. Imagine, hoje mesmo disse que tinha sonhado com esse estranho profeta de Nazaré!

Um show 

Nisso (acompanho aqui a narrativa de Lucas), Herodes Antipas recebe Jesus com uma alegria surpreendente. Há tempos queria conhecê-lo em pessoa. Quem sabe o maluco executasse alguns de seus “sinais” num show privado? Quem sabe transformasse dois barris de água em terroir de Marsala? Vai que… alguns quilos de estanho em ouro! Jesus se cala. Cabisbaixo, suporta as indecentes propostas do governador e a gritaria dos homens do Templo. Herodes reage com desprezo. Manda cobri-lo com um de seus mantos debruados, entrega-lhe uma cana soltando o pendão como se fosse um cetro, e o chama de “meu rei”. Logo o jogo o enfastia e ele manda devolver o acusado às mani pulite de Pilatos, exonerando o Nazareno das acusações.

Quando voltam à mansão de Pilatos com o prisioneiro, os guardas ficam sabendo que o governador tinha acabado de sair em missão secreta, desconhecendo que a essa altura ele já devia ter zarpado do porto de Jafa em direção ao porto de Óstia. Os pretorianos passam alguns minutos sem saber o que fazer. A turba continua os protestos. Para evitar o linchamento do cliente, o capitão decide recolher Jesus à cadeia, na mesma cela em que se encontra um miliciano chamado Barrabás. O jeito, pondera, é aguardar a volta do governador.

Mais rápida que a tartaruga de Zenão, pois na época não havia ainda o rastilho de pólvora, a notícia se espalha e alcança Judas no exato momento em que ele se prepara para saltar de cima de um toco com a corda em volta do gorgomilho, a outra ponta amarrada no galho de uma frondosa olaia (pata-de-vaca, Cercis silquastrum). Judas respira fundo, aspirando um fiapo de esperança. Afrouxa o nó e sai correndo em direção ao xilindró. Estava disposto a libertar o Mestre para se livrar das chamas da Geena, o lixão de Jerusalém onde se queimavam corpos de animais e gente indigna em fogo alimentado por enxofre. Por macabra analogia, Jesus havia apelidado o Inferno com esse nome, Geena (Geh Ben-Hinom), Vale do Filho de Hinom.

No percurso até o presídio, Judas convoca meia dúzia de simpatizantes de Cristo. Ali chegando vê que a missão não será fácil. Nota que as hordas do Templo cercam o edifício e, junto com elas, muitos de seus companheiros acompanham o coro. Crucifica-o! Crucifica-o! Soltem Barrabás!

Profecia adiada

Atônito, aproxima-se de Tomé, um dos Doze, que se assusta ao vê-lo. Um fantasma? Tomé toca-lhe os braços, o rosto, dá-lhe um soquinho na barriga e um piparote no nariz. Como então, você não se enforcou? A profecia gorou? Aos trancos, Judas resume suas últimas horas e quer saber o que está acontecendo. Por que tantos dos nossos aderiram ao partido da Paixão? Por que desejam pregá-lo na cruz?

Com espanto ouve a explicação de Tomé. Eles querem a consumação das Escrituras! Sabe aquele sujeito que decepou a orelha do secretário do Sumo Sacerdote com a espada? Ele contou pra todo mundo a bronca de Jesus mandando que abaixasse a espada e dizendo que, se quisesse, poderia pedir ao Pai o envio de doze legiões de anjos para libertá-lo. Mas se agisse assim, rematou o Mestre, como é que as Escrituras se cumpririam?

Judas ficou pálido. Compreendeu que o seu próprio destino tinha sido apenas adiado. Entendeu que o seu fim estava próximo de qualquer maneira, conforme havia profetizado Jeremias nos mínimos detalhes, incluindo as moedas de prata e a compra do Campo do Poteiro. Judas lamentou que fosse apenas um joguete nas mãos do Pai na cena da traição no jardim de Getsêmani. Confuso, logo ficou envergonhado, e pediu perdão por esses mesquinhos pensamentos de vítima. Aos poucos, recuperou a autoestima, acrescida de uma boa dose de orgulho. Não era ele um dos discípulos favoritos do Mestre? Era! Não terá sido por essa razão que o Pai e o Filho, sintonizados, o escolheram para a missão de trair o Filho do Homem com um gesto de amor, o beijo? ¡Ni puta duda! Sem o beijo, anote aí, Tomé, não haveria a Paixão! Sem a Paixão, as profecias não seriam e não serão cumpridas! Sem o sangue da Paixão não haveria nem haverá Salvação!

Contrito, Judas aceitou com todas as forças dos ossos e da alma o seu papel. Nobre papel! O Iscariotes deu-se conta de que não era, afinal, um simples joguete. Em verdade, em verdade vos digo, era um instrumento do Pai! A traição é a chave de toda a cristologia, afinal de contas.

Barrabás!

Mesmo conformado, e absolutamente convencido de que tinha executado com o beijo uma missão de transcendental relevância, Judas armou-se de coragem, tomou fôlego e a plenos pulmões começou a conclamar todos os que se julgavam justos para lutar pela libertação do Mestre.

Como iriam se cumprir de qualquer forma as profecias, Judas esperava com essa nova performance limpar o nome, receoso de que os futuros cronistas só se lembrassem da cena do beijo no jardim. Calculou que assim seria porque nenhum cristão havia testemunhado a sua conversa com os sacerdotes do Templo, quando se discutiu a diferença conceitual entre os messias da tradição judaica e o novo messias cristão.

Atentos aos seus apelos, logo se formaram dois grupos na multidão. Um pedia o sacrifício de Jesus e a libertação de Barrabás, conforme facultava a norma da tradição pascal. O outro grupo, menos numeroso, clamava pela liberdade do Nazareno. Gente, escute! O Mestre não quer ser rei dos judeus coisa nenhuma. O reino dele não é deste mundo! Jesus é inocente! Judas gritou essas verdades até ficar rouco, afônico, exausto.

Tomé o afastou para um canto, deu-lhe água e o consolou. Judas lhe contou que havia se metido numa trama de mal-entendidos. Temendo que o Mestre se envolvesse em confusão e fosse perseguido pela guarda romana, como sempre aconteceu com outros  profetas durante as festas da Páscoa, e com mais medo ainda de sobrar pra sua turma, disse que tinha resolvido entregá-lo aos sacerdotes e anciãos. Por quê? Cogitou que logo o liberariam, quando percebessem que Jesus não era um rebelde mas um místico cordial, um pacifista, que pregava não a revolução anticolonial mas a intervenção do Pai na terra para a instauração do reino dos Céus.

(Meio século depois essa expectativa não realizada seria chamada de “Apocalipse” pelos fundadores da Igreja, como informa o historiador Bart D. Ehrman, fonte principal deste trecho da minha Crônica & Aguda. Cristo foi, portanto, um pregador apocalíptico como, antes dele, João Batista.)

Sim, disse Judas, eu os informei de que Jesus admitiu ser o Messias, mas somente interna corporis, para nós, os Doze. Expliquei que ele nunca se proclamou assim em público, coisa que todos os candidatos a messias costumam fazer. Os sacerdotes, querido Tomé, tomaram a minha palavra muito ao pé da letra. Entenderam o termo “messias” no sentido tradicional, “o ungido de Deus” disposto a retomar dos romanos o governo da Palestina para o povo de Israel. E eu, um idiota, não consegui convencê-los de que a gente usa a palavra “messias” (Christos, em grego) no sentido de ungido de Deus destinado a governar o reino dos Céus que se aproxima!

Sinto muito, Judas! Perdeu, playboy, agora é tarde! Consummatum est! Palavras de Tomé.

Pergaminhos 

Enquanto se desenrolava o cabo de guerra na porta da cadeia de Jerusalém, o sumo sacerdote Caifás reunia o Conselho no Sinédrio para encontrar uma solução para o impasse, palavra latina que significa beco sem saída. Como que por milagre (e pelo menos dois evangelhos apócrifos a consideram exatamente assim), a solução apareceu mais cedo do que se esperava. Um escriba do Templo, que há anos tinha trabalhado como copista na mansão de Pilatos, havia surrupiado, por curiosidade literária, uma coleção de manuscritos do governador, guardando-a durante anos. No meio da discussão ele se lembrou dos pergaminhos e foi buscá-los.

Entre a coleção havia alguns projetos e plantas de construção de aquedutos e cloacas nas cidades administradas por Roma. Um dos rolos fazia referência à peste que há mais de 400 anos havia assolado a cidade de Atenas (talvez um surto de febre tifoide, transmitida pela bactéria Salmonella typhi, como se descobrirá no século XXI), vencida com muito esforço e método segundo o plano traçado e executado por Péricles. Um dos parágrafos, sublinhado pelo esperto escriba do Templo, dava conta de que a prática dos atenienses de lavar as mãos com sabão parece ter sido fundamental para a erradicação da epidemia. Ora, nos tempos de Pôncio Pilatos, a expressão “lavar as mãos” significava tomar uma decisão de maneira dúbia, aparentemente descompromissada, para mitigar ou enfatizar a responsabilidade de quem tomasse a iniciativa conforme as consequências. Pronto, estava ali naquele trecho do manuscrito a garantia da condenação do Nazareno!

A condenação 

Se a sentença se anunciou bruta, mais que depressa a mão cega de Caifás deu início à execução. Sem titúbeo nem piedade no coração, o Sumo Sacerdote catou o pergaminho e correu até a cadeia de Jerusalém, onde os ânimos continuavam atiçados. Trepando na varanda de uma casa defronte ao presídio, ele pediu silêncio, abraçado ao documento como um troféu olímpico. Com a voz tonitruante, proclamou:

Filhos, filhas, ouçam bem! O nosso governador Pôncio Pilatos precisou se ausentar de Jerusalém por ordem de Augusto e só deve retornar em duas ou três semanas. Como todos sabem, ele tentou, sem sucesso, declinar a competência do julgamento de Jesus de Nazaré, réu confesso de heresia, sedição e lesa-majestade, ao governador da Galileia, Herodes Antipas. Aquela autoridade preferiu abrir mão de suas prerrogativas de juiz natural, devolvendo o feito ao nosso governador. Até há pouco, achávamos que o julgamento do rebelde impenitente estivesse suspenso. Trago a vocês um evanguelion, uma boa nova! Antes de embarcar em Jafa – e isso também era segredo até agora –, o governador redigiu a sentença contra o Nazareno, condenando-o, como esperávamos que o fizesse, à pena de morte, a ser executada na cruz. O veredito acaba de chegar às nossas mãos, trazido pelo bigueiro que conduziu o governador até o porto. Justiça se fez e justiça se fará imediatamente, com a execução da pena infamante no madeiro! E digo-lhes mais: a peça condenatória foi redigida com rigor e estilo. Tem grande qualidade literária. Credo, quer dizer, estou certo de que o nosso governador será lembrado sæcula sæculorum por ter evitado uma catástrofe civilizatória em nossa comunidade e em nosso país.

Vou ler o trechos mais relevantes da sentença de condenação, saltando os arrazoados para não cansar ninguém com o juridiquês. Filhas, filhos, ouçam bem o que Pilatos dixit!

… Tendo chegado a nós a notícia de que uma peste se espraia pelos céus e águas da pátria, conspurcando o corpo e o espírito do povo, tenho que tomar providências, algumas duras, outras brandas, todas sobremaneira eficazes…

… O sacrifício do cordeiro (aqui Caifás trocou a palavra “rebanho” por “cordeiro”) se mostra premente, inafastável. De suas entranhas a pestilência ameaça derrubar o Exército, o Tesouro e o Povo, e devastar o Império…

… Não posso vacilar. Diante dos apelos dos sacerdotes (aqui houve a troca da palavra “tribunos” por “sacerdotes”), corto o mal ainda na raiz…

… Lavo as minhas mãos do sangue desse inocente (“desse inocente” no lugar de “desses infectados”)…

Caifás abriu então um parêntese exegético. Disse que Pilatos se referiu àquele homem da Galileia que se diz “o cordeiro de Deus” e que se proclama “inocente”. E deu por concluso o discurso com uma última proclamação. Eis aí a decisão do nosso governador. Vamos exigir aos pretorianos que a executem sem delongas. Que crucifiquem o condenado! E que libertem Barrabás, premiado pela exclusão pascal. Que os guardas façam isso já! Dum loquimur, ætas fugit! (Enquanto falamos, o tempo foge!)

Vísceras 

A maior parte da multidão se alvoroça, a parte minoritária cai em desolado silêncio. Judas tenta com gestos desesperados pedir um aparte. Exige conferir a autenticidade do pergaminho e a assinatura de Pilatos. Caifás finge não ouvir. Pensando melhor, chama o elemento para lhe mostrar o chamegão do governador no pé do pergaminho, tendo o cuidado de cobrir a parte superior do documento com as referências à peste, a Péricles e a Atenas.

Enquanto a turba força as portas do cárcere para dali resgatar os dois prisioneiros, e mais os dois ladrões que serão também crucificados por economia processual, um homem de capuz se aproxima sorrateiramente de Judas e o esfaqueia no abdome, sumindo na multidão sem deixar vestígio. Três estocadas. As vísceras se espalham pelo chão. Judas tenta gritar. Tomé não pode fazer mais nada. Do atentado resultaram as narrativas divergentes sobre o suposto suicídio do presumível traidor (Mateus 27:5 contra Atos 1:18).

Os acontecimentos seguintes, que na sexta-feira incluíram a Via Crúcis, a crucificação, o rasgão da cortina no Templo, a ventania, a sede do crucificado mitigada com vinagre, o golpe de lança no coração, a deposição do corpo e o enterro, e que, no domingo, referiram a remoção da pedra do túmulo e a ressurreição, todos eles transcorreram conforme os Evangelhos canônicos e apócrifos, relatos literários tão dramáticos quanto os eventos narrados na Ilíada, na Odisseia, na Eneida, no Rei Lear e nos Sertões.

Quase adiados pela fortuita convocação imperial de Pôncio Pilatos, é curioso que esses derradeiros episódios tenham se realizado nas datas profetizadas, dando origem à Páscoa dos cristãos. Mais curioso ainda é o fato de nos dias correntes os seguidores do Messias estarem divididos entre as seitas que festejam mais a Morte do que a Vida, e as que preferem celebrar a Ressurreição.

No Palatino 

Dias depois da Paixão, estando em Roma sem noção do que havia se passado em Jerusalém, Pôncio Pilatos acordou de manhã no seu amplo cubiculum no Palácio Augustano do Monte Palatino. Fez as abluções de costume, serviu-se do café da manhã (ientaculum) que lhe trouxeram e se vestiu com uma das túnicas ainda amarrotadas na viagem. Estava pronto para se reunir com a comitiva de três servidores do Império lotados na Helvécia, representantes, conforme lhe informou o secretário ad hoc, do Ordo Imperi Sanitarius, præcipua Imperii agentura quæ valetudinem, salutem et curam sanitatis gentium curat contra morbos epidemiasue, Genavæ urbe Helevetiæ situs. Quer dizer, da Organização Imperial da Saúde, agência especializada na saúde, cuidados sanitários e segurança contra doenças e epidemias, com sede na cidade de Genebra, na Helvécia.

O secretário explicou a Pilatos que a sua convocação para essa audiência havia se dado pelo mérito de seus conhecimentos sanitários, em que se destacam a experiência na construção de sistemas de água potável e cloacas de Jerusalém e outras cidades da Palestina. O que mais chamou a atenção dos helvéticos, no entanto, foram os seus hábitos de higiene, em especial a obsessão de lavar as mãos. É que, desde os tempos de Péricles, renomados esculápios têm comprovado a eficácia dessa prática na manutenção da saúde e higidez dos cidadãos. Como disseram os helvéticos, o hábito só não se universalizou ainda porque muita gente acha que a prática é coisa feita, prática de incantationem (bruxaria).

Pilatos ficou vermelho ao ouvir os elogios e não, como alguém pode supor, por causa do reflexo dos raios de sol da hora quarta da matina sobre a sua capa carmesim. Cumprimentou os membros da comissão sanitária e deles ouviu o objetivo da missão. Estavam ali para convidá-lo a integrar o CIMCMT, o Comitê Imperial Máximo para o Combate ao Morbo Transalpino. Mais precisamente, para participar da guerra contra a terrível peste que estava grassando na província transalpina, denominada “varíola” por causa das pelotinhas purulentas que pipocam na pele dos infectados. Oriunda provavelmente do Egito, essa é a razão pela qual muitos a estavam chamando de “peste do Cairo” ou “praga nilótica”, termos obviamente preconceituosos e contraproducentes no âmbito das relações diplomáticas.

Em síntese, os representantes do OIS disseram o seguinte a Pilatos: Variola morbus contagiosus hominis et animalium fuit. Fons est virus quod præcipuæ per aerem transmittitur. A doença contagia homens e animais, transmitida por algum veneno, principalmente pelo ar. Tempestas incubationalis a quinque ad septemdecim. A incubação leva de cinco a sete dias. Variola hominis aut variola vera magnæ contagionis nota est, ab alta temperatura, dolore capitis, dolore ossis sacri regionis et nausea oritur. A varíola humana ou varíola verdadeira é altamente contagiosa, provocando febre, dor de cabeça, dores na região do osso sacro e náuseas. Diei tertii fine impetigo apparet. Morbus per 35-45 dies tenet. As erupções da pele surgem no final do terceiro dia. E a doença dura de 35 a 45 dias. Est etiam variola nigra vel variola hæmorrhagica cum eruptionibus sanguinis et magnæ mortalitatem. Há também a espécie da varíola negra ou varíola hemorrágica com erupções de sangue e grande mortalidade.

Pilatos ouviu calado. Deu um profundo suspiro. Estatelou os olhos sobre os helvéticos, como se desconfiado. Pediu uma bacia d’água ao secretário, que a trouxe incontinenti com uma toalha de linho, fecit in Ægypti. Lavou e enxugou as mãos. Espalmando o queixo de talhe grego para demonstrar circunspeção, solicitou mais detalhes a respeito da epidemia. Como e quando a doença chegou à Helvécia? Qual é a velocidade da propagação? Já atingiu todas as regiões da Gália Transalpina? Quais são os alvos preferenciais, mulheres ou homens, velhos ou jovens? As vacas se contagiam? Os helvéticos fervem o leite que bebem? Os queijos apresentaram mais furos depois da crise sanitária? Os doentes têm sido segregados? Que medicamentos estão sendo usados no tratamento? Pasta de enxofre com óleo de fígado de esturjão? Chá de sabugueiro e tisana de salgueiro-chorão? Vinho fervido com mastruz?

A primeira sessão da audiência durou até a hora sexta (meio-dia), com pausa para o prandium. Retomados, os trabalhos continuaram até a prima vigilia, quando Pilatos se retirou para se preparar para a cena com Augusto, quando comunicaria ao imperador o primeiro relatório sobre a calamidade transalpina.

As notas taquigráficas do colloquium com os representantes do OIS e do provável engajamento de Pilatos no combate à peste da Helvécia se perderam. De todo o episódio restaram as brevíssimas menções registradas pelo médico e filósofo Galeno de Pérgamo (129-217) no seu compêndio sobre a Peste Antonina ou Praga de Galeno, que devastou o Império Romano entre os anos 165 A. D. e 180 A. D. e vitimou os imperadores Lúcio Vero e Marco Aurélio.

Fonte: Brasiliários

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