Projeto “antipânico” proíbe divulgação isolada de vítimas de pandemia

Número deverá ser acompanhado de dados relativos a outras doenças, para efeito de comparação. PL se alinha a sabotagem de Bolsonaro ao isolamento social

Quando o eletrocardiograma não identifica atividade elétrica no coração.

O Projeto de Lei 2662/20 estabelece que, durante pandemias, a divulgação de números oficiais de vítimas da doença em questão, tanto pela administração pública quanto pela imprensa, não será feita isoladamente, mas acompanhada do número de vítimas das outras quatro maiores causas de mortes com meios de contágio e propagação similares, para efeito de comparação.

O projeto de lei se junta a outros que visam esconder, confundir ou minimizar a divulgação da epidemia de covid-19, para que a população perca o medo e saia do isolamento social recomendado por autoridades médicas do mundo todo. A atitude de minimização da doença tem sido uma prática do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) que recebe apoio, principalmente, de seus aliados do centrão, como a deputada do PSL-MG, Alê Silva. Com a medida, ela espera evitar “distorções” acerca das informações sobre a pandemia e o pânico na população.

Comissão geral para discutir sobre as circunstâncias e responsabilidades do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijó, em Brumadinho, MG. Dep. Alê Silva (PSL - MG)

A deputada alinhada com a sabotagem de Bolsonaro ao isolamento social

“A iniciativa terá um efeito educativo. Por exemplo, na atual crise de Covid-19, somos bombardeados com números de vítimas e projeções futuras. Os efeitos disso são o surgimento de um sentimento de pânico e o direcionamento do foco de ação governamental e também pessoal apenas para a pandemia, desconsiderando outras doenças tão ou mais letais”, considera. “As pessoas continuam morrendo de dengue e muitas outras causas.”

Alê Silva ressalta que não pretende minimizar a pandemia nem desestimular a sociedade a manter a vigilância, mas apenas mostrar que é preciso enfrentar a Covid-19 juntamente com outras enfermidades que também tiram vidas. “Todas as vidas são igualmente importantes e devem ser protegidas. Uma vida perdida por Covid-19 tem o mesmo peso de uma vida perdida precocemente por quaisquer outros motivos”, justifica, como se esta atitude tivesse neutralidade no momento de crise sanitária.

O que a deputada procura ignorar em seu projeto, é que uma pandemia dessa proporção mata um número absurdo de pessoas todo dia, podendo se multiplicar exponencialmente se não for controlada. O número de mortes anunciadas todos os dias pelo Ministério da Saúde, vem mediado por uma série de medidas emergenciais, quarentenas e lockdowns que procuram reduzir o contágio. Não fosse isso, o contágio e letalidade seriam muito maior do que registrado. Basta observar o funcionamento da curva de contágio, conforme há quebra no isolamento e como ela se interrompe conforme as pessoas se protegem em casa da contaminação.

Transparência na informação

O objetivo da busca por informação transparente sobre o avanço da doença visa, justamente, reduzir sua mortalidade e garantir as condições adequadas e possíveis para isso. Países que mantiveram medidas rigorosas de isolamento social reduziram drasticamente a curva de contágio, mantendo baixa letalidade e funcionamento adequado do sistema de saúde. O Brasil, por todas essas iniciativas de sabotagem do controle da epidemia vê seus números crescerem ao nível de superar a mortalidade de outras doenças letais.

Por outro lado, a possibilidade de interromper a difusão do contágio do coronavírus Sars-Cov2 é algo sabido e implementável, enquanto outras doenças são mais difíceis de controlar. Isso não impede, por exemplo, que se tome medidas sanitárias mais severas para controle de “epidemias” de obesidade, hipertensão, doenças respiratórias, violência armada, acidentes de trânsito, ou mesmo tratamento preventivo para evitar câncer.

A falta de informação e até sabotagem interessada dessas medidas também aumenta a incidência da mortalidade. É o caso dos interesses político-eleitorais que levaram ao aumento de velocidade permitida de carros em vias paulistanas, quando sua redução havia incidido drasticamente sobre a quantidade de acidentes de trânsito e eventuais óbitos. Ou ainda a total falta de regulamentação sobre qualidade dos alimentos industrializados, assim como o excesso de sal e gordura permitido nesses produtos baratos e consumidos largamente pela população mais pobre.

Subnotificação

Qualquer comparação, no entanto, é prejudicada pela subnotificação dos casos de covid-19, um problema que acontece em todos os países, em maior ou menor grau. No Brasil, projeções feitas por grupos de pesquisa em universidades diferentes dizem que o número de casos reais de covid-19 pode ser de 12 a 16 vezes maior do que o número oficial.

Em muitos países, os registros oficiais de mortos contam apenas aqueles que falecem em hospitais ou que tiveram resultado de exame positivo para o vírus. Mortes sem diagnóstico preciso e as que ocorreram em casa ou em casas de repouso para idosos, por exemplo, nem sempre entram nas estatísticas imediatamente.

Efeito transbordamento

Além disso, especialistas em análise de dados alertam para o “efeito transbordamento” que a COVID-19 pode ter sobre as causas de morte mais comuns, como câncer e doenças cardiovasculares.

O efeito transbordamento é o fato de que a pandemia de covid-19 está tendo um impacto enorme em outras causas de morte. Por exemplo, na redução do financiamento para a pesquisa de tratamentos de malária, na nutrição e na pobreza, especialmente em países menos desenvolvidos. Em muitos países há pessoas sem receber tratamento para o câncer ou para doenças cardiovasculares por causa das quarentenas e da sobrecarga dos sistemas de saúde.

Como há poucos dados disponíveis em tempo real é difícil medir esse efeito. No longo prazo, acredita-se que o impacto da pandemia, interrompendo serviços de saúde e fazendo muitas pessoas entrarem na pobreza se refletirá muito na mortalidade.

No entanto, esse efeito indireto da covid-19 nas mortes não vai aparecer nos atestados de óbito. Por isso, só será possível medi-lo no futuro, se os sistemas de saúde encontrarem maneiras de quantificá-lo.

Entre 2012 e 2013

Em 2013, foram cerca de 100 mil óbitos causados por doenças cerebrovasculares, mesmo número registrado em 2012. Na lista dessas doenças está o AVC, conhecido popularmente como derrame. Os principais fatores de risco para elas são o hábito de fumar, o uso de anticoncepcionais, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a hipertensão arterial e a obesidade.

O infarto agudo acontece quando parte do coração não recebe oxigênio em quantidade suficiente, provocando a morte do músculo chamado miocárdio. Em 2013, foram 85,9 mil mortes em decorrência de infartos, 2% a mais do que no ano anterior. As pessoas mais propensas a ter um infarto são as que têm uma má alimentação, que realizam poucas atividades físicas e que vivem em ambientes estressantes.

Com 68,3 mil mortes registradas em 2013 – 10% a mais do que em 2012 -, a pneumonia tem como principais fatores de risco o tabagismo e o consumo de álcool, que reduzem a capacidade de defesa do aparelho respiratório. Ficar muito tempo em ambientes com ar-condicionado também pode influenciar o surgimento da doença, uma vez que, com o ar mais seco, é mais fácil a penetração dos germes nas vias respiratórias.

Qualquer pessoa pode ter a doença, mas algumas condições podem aumentar o risco como ter mais de 45 anos, consumir álcool com frequência e não praticar atividades físicas. Em 2013, foram 58 mil mortes em decorrência de diabetes, número igual ao registrado em 2012. 

A maioria das vítimas de armas de fogo está em cidades que se encaixam em algumas características como ser um polo de crescimento no interior dos estados ou estar localizada em fronteiras ou em áreas de turismo predatório. Esses perfis aparecem num estudo divulgado recentemente pela Unesco e pelo governo federal. A pesquisa mostra, também, que os negros são 2,5 vezes mais vitimados por armas do que os brancos. Cerca de 50 mil mortes foram provocadas por armas de fogo em 2013, número parecido ao registrado no ano anterior.

As doenças hipertensivas foram a causa de cerca de 46,8 mil mortes em 2013 – 1,5 mil mais do que em 2012. A mais conhecida delas é a hipertensão arterial, doença que acomete um a cada quatro brasileiros. A hereditariedade, assim como o consumo excessivo de sal e alimentos fritos podem desencadear a hipertensão, que é quando a pressão sanguínea do corpo aumenta, fazendo com que o coração tenha que trabalhar mais para fazer o sangue circular.

O tabagismo, incluindo o passivo, é o fator de risco mais comum para a bronquite, a efisema e a asma. Juntas, essas doenças foram a causa de 43,5 mil mortes no Brasil em 2013 – cerca de 119 óbitos por dia. Outros fatores que contribuem para o desenvolvimento dessas doenças são a inalação de produtos químicos em fábricas e a poluição do ar.

Quase 42 mil pessoas morreram em 2013 em acidentes de trânsito. O número é 6% menor do que o registrado no ano anterior, mas ainda preocupa. O excesso de velocidade e a ultrapassagem em lugar indevido são as principais causas de mortes nas estradas do país, segundo dados da Polícia Federal. Contribui, também, para o alto índice de óbitos o hábito de não usar cinto de segurança e o consumo de álcool antes de dirigir.

Pouco mais de 27 mil pessoas morreram, em 2013, devido à insuficiência cardíaca, que é  quando o coração não bombeia sangue suficiente para o corpo. Ela geralmente se desenvolve em quem já teve ataque cardíaco ou hipertensão arterial. Outros fatores de risco são a ocorrência de diabetes e de doenças do coração na família. Uma alimentação saudável e a prática de atividades físicas são importantes para evitá-la.

Em 2013, foram registradas 24,4 mil mortes devido ao câncer de pulmão. O principal fator que influencia o surgimento da doença é o hábito de fumar. O risco, no entanto, não fica restrito ao fumante, mas também se apresenta para as pessoas que inalam de forma passiva substâncias cancerígenas presentes na fumaça do cigarro. A exposição ao amianto também é considerada um fator de risco à doença, assim como viver em cidades com altos níveis de poluição do ar.

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