Bolsonaro, a reunião e o vídeo: um grande mosaico macabro

É necessária uma Ampla Frente de Salvação Nacional contra o governo genocida

O fatídico vídeo da reunião ministerial de 22 de abril – apontado pelo ex-ministro Sérgio Moro como prova cabal das intenções do presidente Bolsonaro em intervir na Polícia Federal para proteger seus filhos e aliados próximos de investigações sobre diversos crimes – não pode ser analisado exclusivamente pela reunião ou pelo vídeo em si.

Buscar no vídeo a chamada “bala de prata” para matar o monstro bolsonarista é um equívoco. A reunião, e o vídeo, precisam ser acrescentados ao grande mosaico macabro que nos permite considerar o governo Bolsonaro como o pior da República em múltiplos sentidos. Além disso, o vídeo é extremamente revelador de como pensa e funciona aquele núcleo governamental, pelo que ali foi dito. Mas grita espetacularmente pelo que não é dito. Vejamos:

1) Sobre a intervenção na Polícia Federal, é preciso acrescentar o vídeo ao conjunto de movimentos que Bolsonaro tentou fazer desde meados do ano passado para mudar a superintendência da PF no Rio de Janeiro. Estamos falando de públicas e notórias manifestações do presidente no sentido de intervir naquela unidade em função de um conjunto de investigações em curso contra seus filhos, especialmente contra o senador Flávio Bolsonaro e suas maracutaias múltiplas quando era deputado estadual daquele estado, cujas denúncias remontam ao final de 2018 – portanto, ainda antes da posse presidencial, que se deu em 2019. Hoje se sabe, por denúncias recentes do empresário Paulo Marinho, suplente de senador de Flávio, e íntimo da campanha bolsonarista em 2018, que a PF vazou ao então deputado as investigações que viriam contra ele, contra Queiroz e demais funcionários que participavam da tal “rachadinha” no seu gabinete de deputados. Ora, portanto, é nítido que Bolsonaro pretendia desde há muito tempo intervir na PF carioca para atrapalhar investigações contra Flávio e possíveis relações da sua família com as milícias e o assassinato da vereadora Marielle Franco. Isso é cristalino! E materializou-se imediatamente após a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Ato contínuo, Bolsonaro trocou o comando da PF no Rio de Janeiro. O vídeo é apenas, digamos, a solda que une as partes dessa imensa preocupação do presidente com a devassa que a PF faria na vida dos filhos, de alta periculosidade, e na sua própria atividade política, antes e depois de ter sido eleito presidente.

2) A reunião ministerial – desconsiderando a baixaria, as ofensas, o ataque à honra de outros entes da federação e do Estado Nacional, como a prefeitos e governadores, ao Congresso Nacional e ao STF – revela claras intenções golpistas explicitadas pelo ministro da Educação, Weintraub, e pela ministra da Cidadania, Damares. Revela também a psicose armamentista do presidente, que fala abertamente em “armar o povo” para resistir às medidas indicadas por todos os órgãos especializados em saúde pública e adotadas por governadores e prefeitos, em graus e tempos variados. O presidente da República está incitando setores da população à desobediência civil armada contra outros poderes. E usa de uma demagogia extrema ao falar em “armar o povo”. Ora, senhores e senhoras, num país no qual quase 50 milhões de pessoas vivem com salário mínimo, outros 52 milhões vivem abaixo da linha da pobreza, e no qual a renda mínima geral per capita da massa trabalhadora é de irrisórios R$ 1.439, quem é mesmo que tem dinheiro para comprar armas, munições, tirar o documento de posse e porte? O “povo” de Bolsonaro é aquele bando de fanáticos, oriundos de extratos de setores médios e da elite, que podem se armar para compor suas milícias e defender seu governo de uma possível queda.

3) Em plena expansão da pandemia, a contaminação em larga escala pelo coronavírus só comparece na reunião como instrumento de ataque aos governadores e prefeitos. Não há nenhuma palavra, nenhuma ação proposta (numa reunião ministerial, vejam bem!) no sentido da prevenção e combate efetivo à praga que se espalhava e segue se espalhando pelo País. No 22 de abril, data da reunião, Bolsonaro já tinha se livrado do ex-ministro Mandetta, que vinha tendo bom desempenho frente à crise mundial e nacional de saúde. Ali vemos um recém-nomeado ministro Teich, quieto, cabisbaixo, talvez assustado com aquela reunião que destilava ódio. Naquela data, o Brasil já tinha cerca de 50 mil casos confirmados de contaminação e quase 3 mil óbitos, sem levar em conta a enorme subnotificação. Bolsonaro estava preocupado exclusivamente com a “política” – expressão repetida por ele diversas vezes durante a reunião, estimulando seus ministros a serem atuantes e “altivos” na defesa do governo. Preocupação com saúde do povo, que ele diz defender, ora, ora, zero! Nada.

4) Em uma reunião ministerial em plena pandemia e com o Congresso Nacional tendo aprovado no final de março a ajuda emergencial de R$ 600 aos brasileiros e brasileiras que estavam sendo afetados pela crise, e discutia também um pacote mais amplo de ajuda a empresas, é gritante o silêncio sobre a operacionalização dessa ajuda. É inacreditável que em uma reunião com a presença do presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), responsável pela operação de fornecimento daquela ajuda ao povo, nenhuma palavra tenha sido dita sobre isso, nenhuma medida real tenha sido discutida para evitar as aglomerações e gigantescas filas em frente às agências da CEF, que já estavam ocorrendo, em função da demora, lentidão e incapacidade administrativa do governo em agilizar a ajuda ao povo que ele diz defender. Novamente, a ausência de quaisquer referências a isso, grita nos nossos ouvidos. Grita intensamente!

5) Paulo Guedes, o “guru da economia”, o “Posto Ipiranga” do presidente, aproveita o ambiente da reunião para vomitar erudição sobre as crises financeiras do capitalismo, para tentar mostrar que é um sabe-tudo das finanças estatais. Mas revela seu lado mais perverso, mais cruel, em algumas frases simples, desde que era necessário privatizar o Banco do Brasil (chamado por ele de “aquela porra”) até a afirmação criminosa de que o governo não deveria gastar recursos com pequenas e microempresas, mas apenas ajudar as grandes empresas. Paulo Guedes, mostra ali, de viva voz, sem rodeios, o que pensa da economia, como enxerga o seu próprio papel: um agente do grande capital financeiro para privatizar tudo o que for possível em nome de uma suposta “liberdade econômica”, em nome do “livre mercado”. Bolsonaro e Guedes escarnecem abertamente dos micros, pequenos e médios empresários do país. Não há uma palavra de Paulo Guedes sobre iniciativas do Estado Nacional para combater a crise e buscar levantar a economia. Nada. Apenas o velho jargão de que tudo o que é bom é feito por empresas privadas. Uma lógica irracional, uma vez que as empresas privadas estão desesperadas pedindo apoio do Estado para não entrarem em falência. Bolsonaro e Guedes mostraram claramente para quem de fato governam: para os grandes conglomerados privados e estrangeiros. Nada mais do que isso. Tudo encoberto pelo palavreado oco de “defesa do povo e da liberdade”. Tão verdadeiro como uma nota de R$ 500.

6) Por fim, é escabroso ver como determinados ministros querem aproveitar o ambiente da pandemia, no qual as atenções da nação de da mídia se voltam para o problema de saúde, para acabar com quaisquer tipos de proteção ambiental. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, criminosamente propõe um método para burlar o Congresso e eliminar proteções fundamentais à fauna, flora, reservas indígenas e áreas de proteção ambiental. Incrível! Não é à toa que o governo Bolsonaro promove um intenso desmonte do Ibama, pune agentes do Estado que fazem operações contra a grilagem, invasões de reservas e que realizam desmatamentos ilegais. Ricardo Salles manifesta abertamente as intenções do governo em ajudar ainda mais grileiros, mineradores clandestinos e assassinos de todo tipo, dos que matam índios aos que matam a natureza. A reunião ministerial pôs a nu a face real dessa gente no tema ambiental.

Portanto, sinceramente falando e somando tudo – o que acontecia antes e o que aconteceu após aquela reunião de 22 de abril –, entendo que o vídeo nos ajuda a avançar na compreensão da efetiva natureza de um governo que desmonta o País, desmonta os programas de proteção social, desmonta a economia nacional para que ela seja toda privatizada e abocanhada por setores privados estrangeiros, promove o genocídio em diversas escalas – dos povos indígenas (que o ministro Weintraub se recusa a reconhecer a existência) ao povo em geral, que segundo a lógica bolsonarista deveria se expor alegremente à Covid-19, e promove abertamente a formação de mílicias e a afronta aos demais poderes da Nação.

É um claro projeto golpista. É fascismo escancarado. Em um mês, entre aquela reunião e hoje, o Brasil tornou-se o segundo país do mundo em contaminação pelo coronavírus, com mais de 330 mil contaminados. Estamos com uma média diária de mil óbitos. E o presidente quer receitar cloroquina para todo mundo. É necessária uma Ampla Frente de Salvação Nacional contra o governo genocida. #ForaBolsonaro

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