37% de moradores de favelas não receberam auxílio emergencial pedido

Levantamento da Cufa (Central Única das Favelas) bate com resultado do Datafolha para a população em geral.

Doações de alimentos garantem subsistência para muitos que não conseguem receber o auxilio emergencial.

Levantamento da Cufa (Central Única das Favelas), que será divulgado nos próximos dias, vai mostrar que 37% dos moradores desses bairros que pediram o auxílio emergencial de R$ 600 ainda não receberam benefício.

A informação é do ativista social Celso Athayde, fundador da Cufa, maior organização não governamental focada nas comunidades pobres do Brasil, e do instituto de pesquisa e estratégias de negócios Data Favela.

O número está próximo do apurado na mais recente pesquisa Datafolha, para moradores de todo o país. Segundo o instituto, pouco mais de um terço dos brasileiros que entraram com pedido na Caixa para receber o auxílio durante a epidemia do coronavírus ainda não receberam nenhuma das três parcelas prometidas pelo governo.

Segundo os dados oficiais, o auxílio aos afetados pela política de isolamento social foi liberado para quase 60 milhões de pessoas até o momento —número três vezes acima da projeção inicial.

“A gente tem um número bastante expressivo de pessoas que moram nesse território e que não tiveram acesso a esses recursos. Não existe a menor possibilidade dessas pessoas sobreviverem sem transferência de renda, uma vez que elas estão impossibilitadas de fazer o seu trabalho”, afirmou Athayde.

Ele disse também que muitos moradores continuam a sair de casa para trabalhar ou em busca de ajuda e doações e que, “se a favela parasse, o país pararia”.

“Uma parte dessas pessoas que vivem em favela são aquelas que estão fazendo o país rodar. Quando você vai abastecer o seu carro, tem lá um morador de periferia como frentista. Quando você está no seu home office e pede uma refeição, quem cozinhou para você, quem entregou para você, é uma pessoa de favela. Até mesmo nos hospitais. A gente lembra do médico e da enfermeira, mas a grande massa de pessoas que contribui e colabora em alguns hospitais são pessoas de favela”, afirmou.

Flexibilização da quarentena

Ele disse que a Cufa tem feito um trabalho de distribuição de alimentos e outros produtos doados, como gás de cozinha, já que muitos não têm o que fazer com arroz e feijão cru, mas que as doações têm caído desde que se começou a discutir a flexibilização das medidas de isolamento social. Somente em alimentos, já foram arrecadados 9.000 toneladas, o que representa quase R$ 100 milhões em produtos.

O auxilio emergencial é importante, também, para movimentar a economia dos pequenos comércios das favelas. Quando recebem cestas básicas como doação, o efeito colateral nas favelas é o abandono do comércio local. Muitas organizações procuram organizar sistemas de doações em dinheiro, para que, com crédito, o beneficiado possa gastar no comércio local.

Athayde afirmou ainda estar preocupado com o impacto da flexibilização da quarentena para a vida desses moradores. “Abrir pode significar uma grande tragédia também. Se significar, vamos precisar de muito mais ajuda. Porque daremos um passo atrás e porque muitos chefes de família não vão estar ali para dar suporte às suas famílias.”

Segundo o ativista, o vírus vai continuar se espalhando, principalmente nas favelas, onde 26% dos moradores não têm acesso a água tratada.

“Esse vírus acaba encontrando nesses territórios um ambiente propício para se desdobrar. A gente já sabia disso e está só se confirmando. Na favela a quarentena é muito menos respeitada em função de muitas pessoas estarem trabalhando, e a gente vê muitas pessoas que estão sendo infectadas e morrendo”, afirmou.

“Quando começar a abrir, as pessoas das favelas são as que vão ter mais necessidade de buscar algum recurso para sobreviver. Esse vírus não é democrático. Ele pode pegar em qualquer um, mas na medida em que alguns conseguem ter o seu home office, essa não é uma solução acessível para os moradores das favelas.”

Atualmente, vivem nas favelas brasileiras cerca de 13,6 milhões de pessoas que chegam a movimentar mensalmente uma renda própria estimada em mais de R$ 10 bilhões.

As declarações de Athayde foram dadas durante live (transmissão ao vivo) da Folha de S. Paulo.

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