Voltar ou não às aulas presenciais? (o que está por trás da polêmica)

As soluções apresentadas pela grande mídia e burocratas governamentais envolvem muito mais questões econômicas do que preocupações pedagógicas.

A crise sanitária causada pelo novo coronavírus nos impôs um cenário revelador. As desigualdades e contradições do nosso sistema de ensino vieram à tona, assim como têm deixado claro a disputa ideológica existente em torno da questão: de um lado, os que concebem educação como serviço e mercadoria; de outro, os que entendem educação como direito.

A polêmica em torno do retorno às aulas presenciais é um bom exemplo: devem as escolas abrir, ainda que parcialmente, como quer o empresariado, ou a vida e a saúde vêm em primeiro lugar, e qualquer retorno, somente com segurança?

Para aqueles comprometidos com um projeto de educação integral e plena, a questão não se resume a “voltar ou não”. O ponto de partida deve ser voltar com segurança e garantindo uma educação plena à todos. Para isso vale refletir sobre algumas questões:

Há seis meses, educadores e especialistas trabalham para reduzir danos. A oferta de atividades remotas é uma das medidas tomadas. Seu objetivo: manter o vínculo do estudante com a escola e o processo educativo, evitando, inclusive, a evasão. Ocorre que uma grande parcela não têm acesso a essas atividades, e os que têm, esbarram nas diversas dificuldades que esse tipo de ensino apresenta.

A insistência de setores em concluir o ano letivo ainda em 2020 ou fevereiro de 2021 não considera esta realidade. Tal proposta, fundada na ideia de aligeiramento da formação para resolver o problema de fluxo das escolas e ao mesmo tempo atender o mercado, exclui milhares de crianças e jovens do processo de educação formal.

O que se urge debater e construir não é uma volta a qualquer custo, mas sim, um currículo emergencial a ser trabalhado em um ciclo e não em um único ano letivo. Talvez seja necessário um ou dois anos para minimizarmos os impactos deste “apagão”. Ações precisam ser pensadas para  garantir que conteúdos sejam de fato recuperados e não se transformem em mero slogans.

O acesso às tecnologias e à cultura digital é outra questão que a crise explicita. A simples utilização de tecnologias não garante aprendizagem. O discurso de que democracia digital é tornar estudantes e professores mero usuários serve àqueles que amesquinham o papel dos educadores, e que estão mais interesados em ações de controle e em privatizações de serviços. Quem acredita em educação digital de verdade defende oferta e acesso universal à internet e equipamentos, luta por aliar as tecnologias ao trabalho pedagógico realizado pelo professor, e vê o digital como parte integrante do currículo e das práticas pedagógicas.

Compreender que o estado de São Paulo passa por um “apagão educacional” é fundamental para pensar soluções. Esse “apagão” ocorre não só por conta do vírus, mas por conta da irresponsabilidade daqueles que conduzem a crise. 

As soluções apresentadas pela grande mídia e burocratas governamentais envolvem muito mais questões econômicas do que preocupações pedagógicas. Daí a necessidade de se tirar essa pauta das mãos dos “gerentes neoliberais”. Não se trata de um simples debate sobre questões pedagógicas versu problemas administrativos (até porque, em se tratando de educação, essa distinção não existe). A situação exige que os educadores protagonizem o debate, para que ele se dê de forma responsável e comprometida com a maioria da sociedade.

Hoje, mais do que garantir o retorno às aulas presenciais, é preciso garantir a existência da “escola pública de gestão pública”¹, que propricie de fato o acesso ao conhecimento e garanta a formação de um cidadão pleno.

Nota:

1- Freitas, Luiz Carlos – A reforma empresarial da Educação. Nova direita velhas ideias.

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