Thiago de Mello, 95 anos: “É um poeta de verdade e tem o que dizer”

“Thiago de Mello mostra que não carece de coragem para se consertar autêntico e, ao mesmo tempo, prova haver mais de uma solução original fora do puro malabarismo técnico”, escreveu Sérgio Milliet

O poeta amazonense Thiago de Mello completa 95 anos nesta terça-feira (30). Para celebrar a data, o Prosa, Poesia e Arte, seção cultural do Portal Vermelho, publica, a cada dia, poemas de sua autoria, entrevistas com o autor ou ensaios sobre sua obra. Em 1952, o crítico paulista Sérgio Milliet (1898-1966) lhe dedicou palavras elogiosas neste artigo no jornal O Estado de S. Paulo, logo após a publicação de Narciso Cego. Confira.

É UM POETA DE VERDADE E TEM O QUE DIZER

Por Sérgio Milliet

Thiago de Mello, poeta da geração de 45, e cujo primeiro livro (Silêncio e Palavra) despertou a curiosidade da crítica tão displicente do Brasil acaba de publicar Narciso Cego, em que suas qualidades de artesão e pensador se exibem ainda melhor. É preciso agora ponderar a produção desse jovem com o mesmo cuidado com que se analisa a dos mais acatados poetas da geração modernista. Porque Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer. Mais do que o que cantar. Pois tudo nele, sensibilidade e inteligência, visa antes e penetração e a descoberta profunda que o arrebatado entusiasmo ou a expressão nostálgica. E no entanto não falta lirismo a esse moço tão preocupado com ideias gerais, a esse moço que poderia colocar em epígrafe no seu volume de versos o “que sais-je” de Montaigne. Sobre si mesmo debruça-se o poeta. Sabe que se desconhece, que passeia em torno de si, mas não se frequenta.

“Pelas minhas cercanias
Passeio – não me frequento”

Em outro poema nos confessa que o ―vocábulo puro esquiva-se‖ a seu jugo. Isso significaria, por um lado, a seu jugo. Isso significaria, por um lado, a desconfiança de quem pensa no poder expressivo da palavra, isso significaria uma inquietação quase angustiada diante do mistério que não conseguimos comunicar embora o sintamos por vezes desvendado. Mas a elucidação do pensamento de Thiago de Mello parece encontrar-se pouco adiante nestes dois versos, espécie de compromisso de que jamais se deixará arrasar pela lógica estéril dos tratados de filosofia:

“… a palavra da boca é inútil
Se o sopro não lhe vem do coração”

Serena e triste afirmação de um fundo romântico, sadio, simpático representante de uma época que procura esconder, se não negar, sob a magia da forma, a necessidade poética da mensagem.

Essa impassibilidade, ou melhor esse pudor, felizmente não domina por completo os mais dotados dentre os jovens. Não vão todos eles até a secura, embora se esquivem tenazmente ao canto lírico, assustados talvez com o possível dó de peito. Thiago de Mello como que se desculpa de se entregar, conquanto discretamente, à emoção. Se não consegue pairar sempre nas altas regiões do pensamento puro, é porque:

“Artesão negligentes esqueceram
Em nós leves resquícios de matéria”.

Em verdade, a hora trágica, absurda, estoica que nos cumpre viver, torna um pouco piegas os romances amorosos, as elegias de outras eras. Mas o verdadeiro poeta não deve ignorar o coração humano, a alma, em que pese a vulgaridade da palavra: Deve descobrir novas formas para dizer as coisas necessárias de sempre.

Trilhando os caminhos da poesia filosófica, sem desprezar, no entanto, a riqueza emotiva pessoal, Thiago de Mello mostra que não carece de coragem para se consertar autêntico e, ao mesmo tempo, prova haver mais de uma solução original fora do puro malabarismo técnico. Por isso eu leio com alegria este segundo volume de sua obra apenas em início. E digo que se trata se um belo poeta, de um poeta de verdade.

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