Debate de gênero na escola é emancipação social

Abordar gênero na escola é um primeiro passo para a educação pela emancipação, compreendendo a afirmação de Loreta Valadares que a primeira divisão de trabalho se deu entre o homem e a mulher, “onde a mulher e os filhos são escravos do homem”

Foto: August de Richelieu/Pexels

O pensamento que o enriquecimento pode ser alcançado com base em muito trabalho está entranhado no conjunto das nossas relações sociais, fazendo o sujeito acreditar na máxima do mercado onde todos e todas são beneficiadas, baseada na premissa da igualdade e liberdade a serem conquistas da força do trabalho e o status social que o mesmo adquire. José Comblin (1999) trata essa crença na perspectiva do neoliberalismo ser uma utopia ou teoria que pretende dar uma explicação total do ser humano e da sua história em torno da economia, ou seja, faz da economia o centro do ser humano a partir do qual todo resto se explica.

A ideologia neoliberal influencia nos diversos setores sociais, pois tudo visa transformar em mercadoria como forma de sustentar o capital, por sua vez atinge também a educação ao cobrar ou vender da ideia que precisamos produzir, estudar, formar, casar, ter um bom emprego, ter filhos que colocaremos na escola, que exigirá do mesmo boas notas e repetir todo trajeto dos pais, caso o processo educacional fruto de uma demanda neoliberal siga nessa perspectiva do ciclo vicioso pode acarretar, por vezes,  a exclusão e opressão de todos e todas que não tenham as mesmas oportunidades econômicas e sociais de ocupação dos espaços escolares e universitários ou quando conseguem, conforme afirma Bell Hooks (2013), encontra-se “o racismo, o sexismo e o elitismo de classe moldam as estruturas das salas de aula”.

A educação pela emancipação, abordada por Freire (1987), é problematizadora, respeitando e valorizando a trajetória de vida do educando e voltada para as demandas do sujeito e não ao mercado de trabalho. Por sua vez, ao defender a educação pela emancipação é necessário tocar em aspectos de gênero, raça e classe. Tratar de classe porque os investimentos e condições econômicas para chegar à escola ou ter atividades extraescolares, bem como acesso a cultura é pouco oportunizado para a classe trabalhadora, além da exploração de grandes horas de trabalho pesado para pouco retorno salarial; tratar de raça por que são os negros e negras que ocupam a maioria dos cargos de subalternidade ou no trabalho informal, bem como os espaços periféricos das cidades; tratar de gênero na compreensão que são as mulheres negras que encontram-se na base social e econômica, ou seja, são elas que menos ganham e realizam os trabalhos precários e invisibilizados na sociedade e no destaque para mulheres lésbicas, bissexuais e trans o número de desemprego e vulnerabilidade social crescem em grande escala.

Logo, abordar gênero na escola é um primeiro passo para a educação pela emancipação, compreendendo a afirmação de Loreta Valadares (2007) que a primeira divisão de trabalho se deu entre o homem e a mulher, “onde a mulher e os filhos são escravos do homem”, constituindo-se em uma primeira forma de propriedade, entendida como “a livre disposição da força de trabalho de outrem” (Marx & Engels, 1998, p. 27), resultando como sem importância o trabalho doméstico da mulher e demais tarefas ligadas ao cuidar comparado com o trabalho produtivo do homem. Destaca-se este aspecto por ainda vivenciarmos na educação institucional a formação das mulheres ligadas a brincadeiras domesticas, quanto aos homens a aventura e jogos lógicos, essa separação educacional que reflete no trabalho e coloca a mulher no papel de subalternidade.

Márcia Tiburi (2018) aborda que toda subjugação é vista como trabalho, sendo determinada pela sociedade extremamente patriarcal que julga os corpos pelo seu valor de uso, como por exemplo: corpos para o trabalho, corpos para a procriação, para o cuidado e a manutenção da vida, para o prazer alheio… Essas funções exigem do indivíduo uma postura e uma ação baseadas no gênero, que o impedem de ser completamente livre e por sua vez violenta as mulheres devido a uma cultura história definida que a mulher é propriedade do homem, resultando em violência física, doméstica, moral, psicológica, política.

Logo, a inserção do debate de gênero na compreensão da emancipação social é uma medida preventiva e transformadora. Urge sua inserção dentro da escola para a construção de uma sociedade emancipada onde todos, todas e todes tenham lugar de fala e ocupem diferentes espaços de poder sem perdas pelo que seus corpos representam.


Referências:

COMBLIN, José. O neoliberalismo: ideologia dominante na virada do século.2ª ed. Petrópolis RJ: editora Vozes, 1999.

ENGELS, Friedrich. Origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Centauro, 2002.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1967.

HOCKS, Bell. Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes LTDA, 2013.

TIBURI, Marcia. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. 1. Ed. 2018

VALADARES, LORETA. Faces do Feminismo. Ed. Anita Garibaldi, 2007.