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Presidenta da PCdoB prenuncia um ano de lutas e celebrações

Luciana Santos falou na abertura da reunião da direção nacional do partido iniciada na sexta-feira e encerrada neste sábado.

Foto: Ana Cristina Santos

Na primeira reunião do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) de 2022, iniciada nesta sexta-feira (11), Luciana Santos, presidenta da legenda, disse, em seu informe de abertura, que este ano vai se caracterizando por uma acirrada e intensa luta de classes no Brasil. E por isso será considera que será um ano de lutas e celebrações para o PCdoB.

O grande desafio, segundo a dirigente comunista, será conformar uma nova maioria política, que permita derrotar o projeto da extrema direita e abrir passos para um processo de reconstrução nacional que aponte a retomada de um Projeto Nacional de Desenvolvimento. No calor destas batalhas, lembrou, será realizado o Festival Vermelho, parte da celebração do centenário do PCdoB e dos duzentos anos da Independência do Brasil.

Luciana Santos comentou também o cenário internacional, marcado simultaneamente por instabilidades e oportunidades. Segundo ela, o tabuleiro da geopolítica tem sido movimentado de forma intensa nas últimas semanas. O conflito envolvendo Ucrânia, decorrente da atitude expansionista da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) nas fronteiras da Rússia, faz parte da política que os Estados Unidos promovem de tentar desestabilizar o governo russo e de sua guerra neocolonial que busca a contenção da China, analisou.

Entre os fatores que estão em jogo, disse a presidenta do PCdoB, está o interesse em cortar acesso a suprimentos de cadeias produtivas de alta tecnologia à China e seu plano estratégico de construção da nova Rota da Seda, unindo o Báltico ao Mar da China. Luciana Santos enfatizou que, nesse contexto de tensões, a visita de Putin a Pequim para participar da cerimônia de abertura da Olimpíada dos Jogos de Inverno teve grande relevância. Ele e Xi Jinping, o presidente chinês, divulgaram uma Declaração Conjunta destacando que as novas relações entre os dois países não “terá limites”, não haverá áreas ‘proibidas’ de cooperação.

Os seus desdobramentos ainda serão vistos, observou a presidenta do PCdoB, mas, desde já, trata-se de um fato político de grande magnitude, que pode representar uma mudança qualitativa na tendência à multipolaridade e no enfrentamento às atitudes do imperialismo estadunidense.

Brasil à deriva

Neste mundo complexo e repleto de contradições, observou a presidenta do PCdoB, o Brasil se encontra a deriva, sem um projeto que deixe claro seus objetivos e interesses. “É preciso, a partir da reorientação dos rumos do país, aproveitar as oportunidades fornecidas pelo contexto internacional de crescente multipolarização para alavancar seu projeto nacional”, destacou.

Em meio a esse cenário externo turbulento, agravado pela pandemia da Covid-19, comentou Luciana Santos, a irresponsabilidade do desgoverno do presidente Jair Bolsonaro agravou a situação do Brasil. Lembrou que além da questão de saúde o impacto na economia e na configuração do tabuleiro da geopolítica é gigantesco. São quase cinco milhões de vidas perdidas ao redor do mundo e mais de seiscentas mil no Brasil.

Segundo Luciana Santos, o Observatório da Covid-19 da Fiocruz apontou que o Brasil possui quatro vezes mais mortalidade por milhão de habitante que a média mundial. Entre as causas para este elevado número estão demora na aquisição de vacinas, o acesso desigual a médicos e hospitais e a falta de coordenação das ações de enfrentamento da doença por parte do governo federal. “Bolsonaro e seu governo continuam sendo os principalis aliados do vírus e isto fica cada vez mais nítido para a grande parcela da população”, afirmou.

Epidemia de fome

Na economia, segundo Luciana Santos, o cenário tem se agravado pelo acirramento dos conflitos geopolíticos e os impactos da continuidade da pandemia. São fatores que impactam no preço do barril do petróleo e contribuem para o endurecimento da política monetária dos Estados Unidos, que têm elevado a taxa de juros, além da tendência de valorização do dólar. O quadro inflacionário se estende por vários países, mas afeta mais os países emergentes e, em particular, o Brasil, contribuindo para compor um cenário de baixo crescimento em 2022.

Dentre outras consequências apontadas por Luciana Santos, destaca-se a alarmante “epidemia de fome”, que já atinge a 116,8 milhões de brasileiros. O drama social pode ser visto nas ruas, com um número cada vez maior de pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade, destacou. “A degradação das condições da vida, o desemprego, o trabalho precário e a fome estrangulam o tecido social, geram desalento e compõem este ambiente que é uma verdadeira panela de pressão, que se não encontrar uma válvula de escape, uma esperança, pode explodir”, disse.

Segundo Luciana Santos, o ano e 2022 vai se caracterizando por uma acirrada e intensa luta de classes no Brasil. “A situação do país é grave após um ciclo de grande instabilidade iniciado com o impeachment da presidenta Dilma e que tem sua fase mais aguda com a ascensão da extrema direita ao governo central do país”, diagnosticou. Produziu-se uma convergência de que a única tática possível para derrotar uma força de feições fascistas é da conformação de uma ampla frente política, lembrou.

Par ela, esse entendimento vem ganhando força nos últimos meses, por meio de distintas iniciativas, como o Fórum dos Governadores, para enfrentar a pandemia, e a reação de amplos setores da sociedade frente aos intentos golpistas de Bolsonaro. “Hoje ela é aplicada com sagacidade pela principal liderança política do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um movimento que busca tanto atrair as forças de centro comprometidas com o legado democrático como, ao mesmo tempo, conformar um polo das forças populares e de esquerda a partir da construção de uma federação partidária.”

Anseio de mudança

O PCdoB, disse Luciana Santos, em ambos os casos foi um ator que defendeu a frente ampla como da federação de partidos e vem contribuindo para a formatação. “Esta é sua contribuição no ano que celebra seu centenário, construir saídas políticas superarmos a profunda crise que o Brasil vive.” Segundo ela, o quadro político e eleitoral vem ganhando a cada dia contornos mais nítidos.

Mesmo que a grande parcela do eleitorado ainda não esteja focada nas eleições, é crescente a percepção de sua proximidade, como também o anseio real de mudança do atual estado das coisas, afirmou. “As pesquisas qualitativas indicam que se encontra no topo das preocupações dos brasileiros, o emprego, a renda e saúde. O povo com sua sabedoria quer impor um fim ao descaso do governo que está aí”, destacou.

Para Luciana Santos, nesta fase preliminar da disputa eleitoral a criação de regras para o enfrentamento às fake news é uma questão de grande relevância. “Neste quesito, tanto o projeto de Lei do nosso deputado Orlando Silva como a atitude do Ministro Alexandre de Moraes, que estará à frente do TSE no período das eleições, são dois aspectos importantes para sua contenção.”

A presidenta do PCdoB enfatizou que Bolsonaro é a expressão de uma fração reacionária e autoritária das classes dominantes, produto desta época, da cultura digital, da fragmentação e polarização da sociedade. “Não é um sujeito puramente transloucado. É uma expressão de poder, cada vez mais distante dos reais anseios do nosso povo. Ele precisa ser derrotado para que o Brasil retome o seu caminho”, observou.

Pesquisas eleitorais

Há, contudo, um fato que não deve ser subestimado, lembrou. A pandemia tem sido a grande desestabilizadora do cenário político, e se não fosse a atitude que Bolsonaro adotou, certamente ele estaria em outra condição para realizar a disputa de 2022. “O esforço para reverter as taxas de rejeição será imenso e já está em todas as esferas. Os instrumentos de poder do governo já estão operando. É o Auxílio Brasil, as emendas do orçamento secreto, e, em certa medida, a acomodação que poderá fazer com a saída de onze ministros para se candidatarem.”

Segundo Luciana Santos, Bolsonaro irá procurar o máximo de exposição positiva, com viagens, inaugurações, anúncios e fatos que mantenham mobilizada sua base, buscando expandir o eleitorado. “O bolsonarismo está preocupado em formar amplas bancadas, para que, caso ganhe, lhe dê sustentação, e para, caso perca, ser uma potente e mobilizada força de oposição. Contudo, vivem intensas e intestinas disputas para conquistar o apoio de Bolsonaro.”

Luciana Santos comentou as pesquisas eleitorais que até o momento Lula tem navegado nas águas da rejeição de Bolsonaro. Mas a campanha de sua desconstrução será forte, virá de todos os lados e sem tréguas. O jogo de fato não começou, alertou.

Para ela, o heterogêneo grupo que se autointitula “terceira via” vem dando conta de que o discurso de ser uma alternativa contra os extremos não tem surtido efeitos positivos nas pesquisas. “Jogam em grande medida com duas alternativas: a inviabilização de Bolsonaro no pleito presidencial e a formação de uma federação entre os partidos de centro e centro-direita como forma de dar suporte e tempo para o fortalecimento de uma candidatura.

Variante do bolsonarismo

A presidenta do PCdoB comentou também a campanha que Ciro Gomes, segundo ela bonita e de conteúdo. A intensão de votos nas pesquisas se mantem em 5% a 8%, seu programa é bem sintonizado com as necessidades que o Brasil precisa, mas seu programa econômico não dialoga com as forças de centro, dificultando sua atração deste campo, analisou.

Sobre Sérgio Moro, Luciana Santos disse que a cada dia que passa vai ficando mais claro que a montanha pariu um rato. Suas limitações políticas e cognitivas criam enormes dificuldades para o desempenho político e eleitoral. “Ao mesmo tempo, é mais do que evidente de que se trata de uma variante do bolsonarismo, com um autoritarismo judicial, uma visão retrograda e uma política econômica ultraliberal.  O seu marqueteiro, em entrevista recente, deixou isso ainda mais claro. Fala claramente que deseja atrair bolsonaristas desiludidos.”

O recente episódio envolvendo o deputado Kim Kataguiri, em apologia ao nazismo, tem gerado novos embaraços, por tratar-se da principal aquisição política que havia feito, o MBL e seus instrumentos de redes sociais.  “Moro é outro que requer apoio decisivo do establishment para poder reverter o quadro que se encontra. A percepção negativa de sua imagem cresceu nos últimos meses, principalmente em decorrência das relações profissionais pouco republicadas que assumiu.”

Já a candidatura de Doria, segundo Luciana Santos, apesar de liderar a vacinação, tem obtido índices muito baixos no próprio estado de São Paulo. “O fato é que o PSDB de João Doria, mesmo após a conturbada prévia, se mantém dividido, com uma forte pressão de uma ala histórica, defendendo a mudança do candidato, afirmando que em decorrência da alta rejeição, o risco de a candidatura não decolar possa impactar na debandada de parlamentares já na janela partidária.”

Sobre a candidatura de Simone Tebet, do MDB, Luciana Santos disse que é vista por muitos como decorativa, mas que pode ter um papel no jogo político. “Diante das dificuldades crescentes do PSDB conseguir deslanchar a candidatura de Doria, parcela do establishment começa a olhar a candidatura da senadora de Mato Grosso do Sul como uma possibilidade. Isto pode ganhar força a depender do desenrolar das conversas em torno da criação da federação.”

Já o PSD, segundo ela atuou contra a aprovação da Lei das Federações e se incomoda com a possibilidade do Geraldo Alckmin ser vice do Lula; lançou a pré-candidatura de Rodrigo Pacheco, mas já está atrás de Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul) como alternativa. “No fundo, o que busca Kassab é se posicionar como ator com força de indicar o vice da candidatura do Lula ou de ser a peça que desequilibre o jogo. Para isso, desenvolve essas intensas movimentações políticas e já abre uma janela para apoio à candidatura do PT no primeiro turno.”

Lei Haroldo Lima

Desse quadro político, alertou Luciana Santos, pode-se identificar a tendência prevalecente de que o amplo espectro das oposições possui condições de derrotar o governo da extrema direita. Mas isso não está assegurado. “Em oito meses, muitas coisas podem ocorrer. O imponderável no âmbito da política é sempre traiçoeiro. O que devemos fazer é continuar contribuindo para o fortalecimento da frente ampla, atuando para fazer constituir um polo das forças populares a partir da construção de uma federação e cuidar do nosso projeto eleitoral, pois nossa bancada faz a diferença”, comentou.

Segundo ela, a aprovação da Lei Haroldo Lima, das federações partidárias, e o reconhecimento de sua constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF) se consolida como o principal instituto destas eleições. “Creio que ainda não temos clareza total da conquista que obtivemos. O PCdoB travou a batalha na Câmara e ganhou; travou a batalha no Senado, e ganhou; travou a disputa na imprensa e ganhou; travou a disputa no judiciário e também ganhou.”

A federação foi uma vitória contra uma maré que buscava acabar com os partidos e a política, avaliou. “O julgamento realizado nesta semana no STF dá uma grande contribuição à democracia e ao sistema político brasileiro ao proporcionar instrumentos que o torne mais programático e ao contribuir com a unidade do campo popular”, afirmou. “Quero aqui em nome de toda a direção do Partido fazer um reconhecimento público a esse quadro altamente capacitado, a esse militante das causas justas, ao advogado das lutas indígenas, o nosso Paulo Guimarães”, destacou.

Segundo a presidenta do PCdoB, Paulinho, como é chamado, tem as qualidades da cepa dos grandes comunistas. “Homem que por trás de sua discrição e simplicidade guarda grande preparo profissional, compromisso de defender os que lutam e espírito humanista, advogado que enobrece a advocacia eleitoral e partidária. Temos colhido vitorias importantes nas altas cortes do país, em grande medida pela dedicação deste nobre camarada e advogado.”

Atores do campo progressista

Luciana Santos enfatizou que o desafio da ordem do dia é construir a convergência do campo popular numa federação. “Para isso, é necessário fazermos a disputa com as forças do nosso campo, orientados por nossa linha tática. Uma federação que se assemelhe à experiência da Frente Ampla, do Uruguai, com lastro, que contribua para a disputa de rumos do país e que nos permita melhores condições para atingirmos os objetivos do nosso projeto eleitoral. Fica claro desde já que o pior cenário seria termos de fazer uma federação com um único partido.”

Nesse se conjuga dois movimentos, segundo Luciana Santos: a tática geral do PCdoB de frente ampla, de arregimentação do maior número de forças em torno da candidatura que expressa o anseio popular de enfrentamento ao Bolsonaro, e a busca de um núcleo das principais forças populares e de esquerda dentro deste campo mais amplo. “Um núcleo que arregimente os principais atores do nosso campo, que contenha o PT, o PSB, o PCdoB, o PV, que possa vir a se somar o PSOL, a Rede e mesmo o PDT.”

Luciana Santos destacou que com a decisão do STF ganhou-se um tempo valioso para avançar as negociações e construções políticas. “Acredito que, no bojo das negociações, o que prevalecerá será o bom senso e o sentido de grandeza dos desafios que nós temos pela frente. Contudo, mesmo com a extensão do prazo, teremos que realizar sinalizações públicas de consolidação da federação.”

Unidade do Partido

Sobre o projeto eleitoral do PCdoB, Luciana Santos disse que ele ganha contornos e se fortalece com os ventos da federação. “As notícias em torno do avanço da federação trazem ares revigorantes ao nosso projeto eleitoral e ele está intrinsecamente vinculado ao debate sobre a federação e suas perspectivas eleitorais. O cenário Brasil afora, e em todos os partidos, é de grandes dificuldades para montagem de chapa (mesmo entre os partidos grandes), e o que temos visto é uma busca em todos os espectros políticos para a formação de federações ampliadas, com lastro político e eleitoral.”

A tática geral do PCdoB, disse ela, ainda depende de elementos que não estão definidos. “Neste sentido, os estados estão fazendo o debate político e amarrando as pontas de cada projeto. Há um intenso trabalho de levantamento de informações, conversas exploratórias, tentativas de aproximação de novas lideranças.

Segundo Luciana Santos, a conformação de uma ampla frente política e eleitoral é o passo inicial para um novo bloco histórico e, dentro dele, o desafio de formar “uma federação de partidos do campo popular e democrático, que seja a espinha dorsal, o núcleo coesionador de convicções em torno de um projeto para o país, que tenha como foco o desenvolvimento de sólidas bases materiais e superação das desigualdades”.

Para ela, não é a hora das demarcações. “O desafio é de construir essa nova maioria, de elegermos uma bancada progressista, de elegermos e ampliarmos a bancada do Partido Comunista do Brasil. E faremos isso com celebração, com festa, e com a alegria que é tão característica de nosso povo.”

A forma de comemorar os duzentos anos da Independência do Brasil, disse ela, é pondo um fim a esse governo de extrema-direita e criando bases para a implementação de um programa de reconstrução nacional.  “O ano promete. Os desafios que temos são de grandes proporções, próprios de uma organização centenária. Ao longo deste um século de luta, a grande força dos comunistas no Brasil foi a unidade do Partido. Ela é a dinamizadora das nossas vitorias e conquistas. É o nosso principal patrimônio e, com ela, iremos atravessar os obstáculos. Confio em nossos quadros e em sua capacidade superar obstáculos. Que 2022 seja para florescer a esperança.”