G20 alerta para pandemias geradas pelo clima. Brasil quer cooperação

Ministros da Saúde se reuniram na Índia, este final de semana. Brasil assume presidência do grupo em 2024. Houve divergência sobre a guerra.

Nísia Trindade, ministra da Saúde, no G20

Os ministros da Saúde dos países membros do G-20 —grupo que reúne 20 das principais economias do mundo—, alertaram que as mudanças climáticas continuarão gerando emergências sanitárias ao redor do mundo. O documento, com 25 parágrafos, foi divulgado ao fim das reuniões, realizadas na Índia, na sexta-feira (18) e no sábado (19).

A Reunião de Ministros da Saúde do Grupo dos 20 (G20) ocorreu na sexta-feira (18) e sábado (19), em Gandhinagar, na Índia.

De acordo com o documento, estão previstas emergências e reemergências de doenças infecciosas. E o aumento da severidade e frequência dos desastres naturais ameaçam sobrecarregar a habilidade dos sistemas de saúde de oferecer atendimentos essenciais. “Reconhecemos a necessidade de melhorar a resiliência dos sistemas de saúde contra os impactos da mudança climática”, destaca o texto.

As nações se comprometeram a priorizar o desenvolvimento de sistemas de saúde resilientes ao clima; construir sistemas de saúde sustentáveis e com baixo teor de carbono/baixa emissão de gases de efeito estufa e cadeias de suprimentos de saúde que ofereçam cuidados de saúde de alta qualidade; mobilizar recursos para sistemas de saúde resilientes e sustentáveis com baixo teor de carbono; e facilitar a cooperação.

“Com base nas lições aprendidas na pandemia de covid-19, chegamos ao consenso de construir sistemas de saúde mais resilientes, igualitários, sustentáveis e inclusivos, equipados para lidar com desafios globais sanitários e emergências públicas sanitárias futuras”, diz o documento. “Também reconhecemos a importância de integrar uma perspectiva de gênero ao desenhar sistemas de saúde, considerando necessidades específicas de mulheres e meninas, com o objetivo de atingir a igualdade de gênero nos sistemas de saúde”.

Outra questão abordada no documento foi a necessidade de melhorar a compreensão sobre a covid longa e suas consequências individuais, sociais e econômicas.

Cooperação reforçada

Os ministros ressaltaram também a importância de fortalecer os sistemas de vigilância sobre as doenças infecciosas existentes e a cooperação entre os centros de prevenção e controle de doenças. O Brasil foi representado na reunião pela ministra da Saúde, Nísia Trindade, que também defendeu a ampliação de parcerias. 

Nísia defendeu a cooperação internacional e tecnologias em saúde para o enfrentamento de futuras pandemias.

A partir do ano que vem, o Brasil assume a presidência do G20 – grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo e a União Europeia. O evento marca a retomada do protagonismo brasileiro nos debates que envolvem questões globais de saúde.

De acordo com o Ministério da Saúde, o sucesso no enfrentamento de futuras pandemias vai depender do nível de interação entre os países e da capacidade de eles se integrarem para aumentar a resiliência dos sistemas nacionais de saúde.

A ministra também enfatizou a necessidade de fortalecimento das capacidades nacionais de vigilância e de resposta à resistência antimicrobiana, além da importância de garantir a produção, o fornecimento e o acesso universal a produtos de baixo custo.

Os membros concordaram com a necessidade de os países de baixa e média renda (LMICs) e outros países em desenvolvimento se tornarem parte de um mecanismo consultivo global que aceita pedidos de acesso a medicamentos, diagnósticos e vacinas, caso outra pandemia ocorra. Durante o surto de covid-19, o mundo testemunhou cenários em que alguns países desenvolvidos e ricos acumularam esses recursos mais do que suas respectivas necessidades, enquanto demorou extraordinariamente para que essas medidas chegassem aos países da região africana e a muitas outras nações em desenvolvimento.

Na sexta-feira, a ministra também participou de cúpula para debater a medicina tradicional. Na oportunidade, mencionou a Resolução sobre a Saúde dos Povos Indígenas, proposta pelo Brasil e adotada por consenso na última Assembleia Mundial da Saúde.

O documento inclui a saúde dos povos originários como uma questão prioritária na pauta da Organização Mundial de Saúde (OMS), no sentido de avançar em sistemas que promovam ações específicas para essa população.

Presidência do G20

O G20 é composto por Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, República da Coreia, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos, além da União Europeia.

Os membros do G20 representam cerca de 85% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos por um país) global, mais de 75% do comércio global e cerca de dois terços da população mundial.

Desde 2008, os países revezam-se na presidência. E será a primeira vez que o Brasil presidirá o G20 no atual formato.

A programação da presidência do G20 compreenderá mais de uma centena de reuniões oficiais em todo o território nacional, entre as quais a Cúpula de Líderes, cerca de 20 reuniões ministeriais, mais de 50 reuniões de altos funcionários, além de dezenas de eventos paralelos.

A Cúpula de Líderes do G20, durante a presidência de turno brasileira, está prevista para 18 e 19 de novembro de 2024, no Rio de Janeiro. A Presidência da República do Brasil indicou três desafios orientadores gerais para todos os grupos de trabalho do G20, em 2024: desenvolvimento sustentável, reforma das estruturas de governança global e combate às desigualdades.

Divergência

A reunião de dois dias dos ministros da saúde do G20 terminou sem que uma declaração conjunta fosse emitida – assim como as reuniões do G20 de outros ministros que ocorreram depois que a Índia assumiu a presidência do grupo. O pomo da discórdia foi, novamente, a guerra Rússia-Ucrânia. Em vez disso, um resumo do presidente e um documento final foram emitidos no final da reunião.

A Rússia e a China se opuseram ao parágrafo 22 do documento que condenava a guerra. Uma nota de rodapé no documento final diz: “A Rússia rejeitou a inclusão do parágrafo geopolítico 22 com base no fato de que não está em conformidade com o mandato do G20 e reconhece o status do parágrafo como resumo do presidente”.

A observação da China foi registrada assim: “A China afirmou que o G20 não é a plataforma certa para abordar questões de segurança e se opôs à inclusão do conteúdo relacionado à geopolítica”.

O documento final disse que havia “outras visões” e “diferentes avaliações” sobre a situação de guerra e as sanções – e, portanto, não poderia haver um consenso sobre o assunto.

“Reconhecendo que o G20 não é o fórum para resolver questões de segurança, reconhecemos que questões de segurança podem ter consequências significativas para a economia global”, afirmou.

Exceto por esta questão, o restante do documento foi unanimemente aceito por todos os membros do G20. 

Autor