Cantor sertanejo Leonardo entra na “lista suja” de trabalho escravo

Um adolescente e outros cinco trabalhadores foram resgatados na fazenda do cantor no interior de Goiás, em 2023

Foto: Reprodução

O cantor Leonardo, nome artístico de Emival Eterno da Costa, foi inserido nesta segunda (7) na “lista suja” do governo federal, que reúne empregadores responsáveis por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão. A inclusão do nome do cantor sertanejo ocorre após uma operação do ministério do Trabalho e Emprego (MTE) resgatar seis pessoas na fazenda Talismã e Lakanka, localizadas no município de Jussara (GO).

De acordo com o MTE, os trabalhadores foram encontrados em condições degradantes, trabalhando “na mais completa informalidade”. Eles dormiam em uma casa abandonada, onde não havia água potável, banheiro e camas — o espaço para deitar era improvisado com tábuas de madeira e galões de agrotóxicos. O local também tinha sido tomado por insetos e morcegos, e exalava um “odor forte e fétido”, segundo o relatório de fiscalização.

“Não tem chuveiro, não tem pia e o local está extremamente sujo, com muitas fezes de morcego”, disse um adolescente de 17 anos resgatado pela operação. Segundo o depoimento de outros trabalhadores, formigas e cupins “andavam por cima” de seus corpos quando eles deitavam para dormir. Outro empregado relatou ter adoecido depois de a chuva molhar sua cama — o telhado estava sem manutenção e as telhas, deslocadas.

Além das seis pessoas resgatadas, outras 12 foram encontradas trabalhando sem carteira assinada “na mais completa informalidade”, diz o documento. Os empregados acordavam antes das 6h da manhã e às 7h já estavam arrancando pedras, raízes e tocos de árvores sem equipamento de proteção. As refeições eram feitas embaixo de uma árvore e a água era armazenada em quatro garrafas térmicas.

Metade dos empregados estava trabalhando há 12 dias sem descanso. “Trabalhava de domingo a domingo”, conta o adolescente, que chegou na fazenda junto com seu irmão e primos para atuar na “catação de raízes”.

O cantor alega não ter responsabilidade sobre os trabalhadores encontrados no local, já que a área alvo da operação estava arrendada para terceiros. “Não conheço quem os colocou naquelas casinhas e, do meu coração, eu jamais faria isso”, afirmou.

O trabalhador que adoeceu após a chuva no alojamento disse que sabia que a propriedade “é do cantor Leonardo”. Em depoimento aos fiscais, o gerente da fazenda afirmou que “o sr. Leonardo não comparece aos alojamentos dos trabalhadores, mas vem à sede da fazenda e depois vem pescar”.

Ainda que a fazenda tenha sido arrendada para um terceiro, segundo a fiscalização, a limpeza e preparação do local seriam responsabilidades do cantor. Com base nisso que Leonardo foi identificado como empregador.

Apesar da alegação, no final de julho, o músico comemorou seu aniversário, em festa luxuosa, na mesma propriedade. Avaliada em R$ 60 milhões, a fazenda conta com uma mansão, além de piscina, quadras esportivas e quartos estilo bangalô.

A “lista suja” do trabalho, mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), é um cadastro público que expõe empregadores que foram legalmente responsabilizados por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão. O documento é atualizado semestralmente, em abril e outubro, e serve para dar transparência e visibilidade às ações de fiscalização do governo contra o trabalho escravo.

A inclusão de nomes na lista ocorre somente após a conclusão de um processo administrativo, garantindo o direito à defesa, e não há possibilidade de recurso quando a decisão é tomada.

A lista inclui tanto pessoas físicas quanto jurídicas, e os empregadores podem permanecer nela por até dois anos, salvo exceções previstas em acordos específicos. Recentemente, novas regras permitem que os empregadores sejam removidos antes desse período ou até mesmo evitem a inclusão, caso assinem termos de ajustamento de conduta, que os obrigam a indenizar as vítimas e a investir em programas de assistência a trabalhadores resgatados. Se esses compromissos forem violados, eles podem retornar à lista.

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