Tarifaço de Trump gera guerra comercial e ameaça economia global

EUA impõem tarifas ao Brasil e dezenas de países, uma ofensiva comercial que pode mergulhar o mundo em uma nova crise e comprometer a própria economia dos EUA

Donald Trump detalha seus planos para tarifas sobre importações em um discurso em Rose Garden.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou uma ampla e temerária reforma da política comercial norte-americana, impondo tarifas sobre importações do Brasil, China, União Europeia e praticamente todas as nações, sob o alegação infundada da “reciprocidade”. A medida, batizada de “Dia da Libertação” pela Casa Branca, visa reduzir um déficit comercial de US$ 1,2 trilhão, espelhando as tarifas que outros países aplicam a produtos norte-americanos. Contudo, o impacto global dessa decisão pode ser devastador, com sérias implicações para a economia mundial e para os próprios Estados Unidos.

Produtos brasileiros, por exemplo, enfrentarão uma taxa de 10% — equivalente ao imposto aplicado pelo Brasil sobre importações dos EUA —, enquanto exportações da China serão taxadas em 34%. A política inclui ainda tarifas pesadas sobre automóveis: 25% sobre carros importados a partir de 3 de abril e 25% sobre autopeças a partir de 3 de maio, ante a taxa atual de 2,5%.

O protecionismo de Trump se baseia na falsa premissa de que os EUA estão sendo explorados por seus parceiros comerciais. A história mostra que medidas como essas tendem a gerar efeitos contrários aos desejados. Tarifas elevadas encarecem produtos, reduzem o consumo e desestimulam o investimento, provocando desaquecimento econômico. O risco de uma nova recessão mundial se torna palpável.

Trump classificou a decisão como uma correção “histórica” de décadas de práticas comerciais “injustas”, acusando nações de “roubar” os EUA por meio de manipulação cambial, subsídios e barreiras não monetárias. “É assim que faremos a América próspera novamente”, declarou, prometendo reviver o “sonho americano” por meio do domínio industrial.

Reações globais e tensões crescentes

O anúncio já provocou alarme entre aliados dos EUA. Membros da União Europeia, como França e Itália, estudam medidas retaliatórias, enquanto o Senado brasileiro aprovou rapidamente legislação para contra-atacar as tarifas. O Reino Unido, apesar de ter uma taxa recíproca de 10%, expressou preocupação com o precedente desestabilizador. Canadá e México — excluídos da lista inicial — mantêm cautela, dada sua integração com as cadeias de suprimentos norte-americanas.

No Brasil, setores como o de aço e alumínio serão impactados, reduzindo exportações e ameaçando empregos. A tarifa imposta ao Brasil pode chegar a 10%, enquanto China (34%), União Europeia (20%) e Japão (24%) também serão fortemente atingidos.

Barreiras comerciais costumam gerar retaliação. Não será surpresa se os países atingidos responderem com tarifas próprias contra produtos norte-americanos, resultando em uma guerra comercial que pode frear o crescimento global e precipitar uma crise econômica de grandes proporções.

Estudos citados por analistas estimam que a política pode drenar mais de US$ 1 trilhão da economia mundial, atingindo mercados emergentes dependentes de exportações. Para os EUA, os riscos incluem pressões inflacionárias e uma possível recessão, minando promessas de Trump de aumentar o poder de compra e empregos na indústria.

O efeito bumerangue nos EUA

A estratégia de Trump pode atingir sua própria economia em cheio. O aumento de tarifas elevará os custos de insumos para indústrias americanas, reduzindo sua competitividade. O consumidor americano também sentirá o peso das novas tarifas no bolso, com preços mais altos em diversos produtos.

A inflação, que já preocupa analistas, deve acelerar. Estimativas apontam que a taxa pode saltar dos atuais 3% para 6%, levando a uma queda no consumo e ao risco de recessão. Além disso, há a possibilidade de que a estratégia leve o Federal Reserve (Fed) a reduzir os juros, em uma tentativa de amenizar os impactos negativos na economia americana.

EUA isolados e o fim da globalização?

A imposição de tarifas marca um retrocesso histórico na política comercial americana. Desde a 2ª Guerra Mundial, o mundo caminhava para uma redução progressiva de barreiras comerciais e para a integração dos mercados. Trump, ao optar pelo isolacionismo, reverte essa tendência e pode precipitar um novo cenário global, em que os EUA perdem protagonismo econômico.

Ao dificultar o livre comércio, Trump também estimula seus parceiros a buscar alternativas fora dos Estados Unidos. Países como China e União Europeia podem fortalecer suas relações comerciais entre si, reduzindo sua dependência do mercado americano e comprometendo o futuro da economia dos EUA.

A política de Trump baseia-se em uma visão inviável de soma zero do comércio, priorizando ganhos políticos de curto prazo sobre a estabilidade econômica de longo prazo. Ao enquadrar as tarifas como ferramenta para “reconquistar prosperidade”, sua administração arrisca alienar aliados e desestabilizar mercados. O próprio dólar pode perder força se os países buscarem alternativas para suas transações comerciais.

Além disso, o foco na reciprocidade bilateral ignora a complexidade das cadeias globais de valor. Fabricantes de automóveis, por exemplo, alertam que a tarifa de 25% sobre carros pode prejudicar indústrias dependentes de componentes importados, encarecendo produtos para consumidores.

Um jogo arriscado
O “Dia da Libertação” de Trump marca uma mudança radical na estratégia comercial dos EUA, priorizando confronto em vez de cooperação. A medida ameaça fragmentar alianças, perturbar o comércio global e gerar efeitos contrários à economia. Para o Brasil e outros países afetados, o caminho à frente permanece incerto — um lembrete dos perigos do nacionalismo econômico em um mundo interconectado.

Para os trumpistas, a política de tarifas recíprocas pode soar como um triunfo. Para o resto do mundo, e para os próprios EUA, pode ser o início de um desastre econômico de proporções incalculáveis.

Autor