Netanyahu reage a reconhecimentos com ameaça de anexar Cisjordânia
Premiê israelense rejeita criação de Estado palestino, ameaça anexações e conta com cumplicidade de Trump
Publicado 22/09/2025 09:56 | Editado 22/09/2025 11:44
Os palestinos da Cisjordânia vivem sob a pressão constante da ocupação militar e temem que a situação piore após as ameaças de anexação feitas pelo primeiro-ministro irsaelense, Benjamin Netanyahu, em reação à onda de reconhecimento do Estado palestino iniciada por Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal neste domingo (21).
A apreensão se deve ao fato de que as ameaças do governo israelense, diferentemente da pressão da comunidade internacional contra os sionistas, não ficam restritas ao discurso diplomático.
Desde outubro de 2023, elas já se traduzem em destruição de casas, deslocamentos forçados e expansão de assentamentos ilegais.
Em Jenin, o prefeito Mohammed Jarrar afirmou à BBC neste domingo que cerca de 40% da cidade foi transformada em área militar israelense e que um quarto da população está deslocada.
“Desde o início estava claro que se tratava de um grande plano político, não de uma operação de segurança”, disse.
Para ele, o objetivo declarado de Netanyahu é preparar a anexação da Cisjordânia e neutralizar qualquer forma de resistência.
Na mesma cidade, neste mês, Abdel Aziz Majarmeh enterrou o filho Islam, de 13 anos, morto a tiros por soldados israelenses. “Por que atirar em crianças? Eu estava ao lado dele. Atirem em mim. Por que atirar em crianças?”, questionou à BBC.
O receio palestino na Cisjordânia passou a crescer após a reação hostil do governo de Israel ao reconhecimento coordenado do Estado palestino por Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu endureceu o discurso, rejeitou a viabilidade de qualquer solução negociada e anunciou que pretende retaliar com anexações na Cisjordânia.
“Tenho uma mensagem clara para aqueles líderes que reconhecem um Estado palestino após o horrível massacre de 7 de outubro: vocês estão dando uma enorme recompensa ao terrorismo”, disse.
“Isso não vai acontecer. Um Estado palestino não será estabelecido a oeste do rio Jordão”, completou o sociopata.
A reação veio acompanhada de ameaças de expansão territorial. Netanyahu disse que anunciará uma resposta após seu retorno dos Estados Unidos e classificou um eventual Estado palestino como “terrorista”, evidenciando a visão racista e supremacista que orienta seu governo.
“A resposta ao último esforço para nos impor um Estado terrorista no coração da nossa terra será dada após meu retorno dos Estados Unidos. Esperem por isso”, ameaçou.
Ele fez a declaração em uma cerimônia para anunciar a ampliação do projeto E1, que liga Jerusalém ao assentamento de Ma’ale Adumim, na Jerusalém Oriental.
O empreendimento, criticado pela ONU há anos, tem efeito prático de cortar a Cisjordânia em duas e inviabilizar a contiguidade de um futuro Estado palestino. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, comemorou a expansão ao dizer que acredita que ela servirá para “enterrar” de vez a ideia de uma Palestina independente.
Dentro do gabinete israelense, os ultradireitistas pressionam por uma escalada ainda maior.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, declarou que o reconhecimento internacional “exige contramedidas imediatas” e prometeu apresentar uma proposta de “soberania em toda a Judeia e Samaria”, termo bíblico usado para se referir à Cisjordânia.
Integrantes do bloco mais radical discutem um plano maximalista para anexar até 82% do território, isolando cidades palestinas em bolsões desconectados e tornando impossível a criação de um Estado.
Mesmo que essa proposta não avance, analistas apontam que Netanyahu pode adotar uma anexação “simbólica” já durante seu discurso na Assembleia-Geral da ONU, como forma de demonstrar força.
Complacência e cumplicade norte-americana
A escalada israelense ocorre sob a complacência dos Estados Unidos. O governo Donald Trump havia avisado seus aliados, antes mesmo dos anúncios, que Israel retaliaria de forma “simbólica”.
Até agora não está claro se Washington apoiará abertamente uma anexação, mas relatos indicam que a Casa Branca “não vai impedir Netanyahu”.
Em carta aberta, parlamentares republicanos advertiram os premiês Keir Starmer, Mark Carney e Anthony Albanese de que o gesto de reconhecimento “colocará seus países em desacordo com a política e os interesses históricos dos EUA e poderá atrair medidas punitivas em resposta”.
O próprio Trump, durante visita recente a Londres, endossou o discurso de Israel ao afirmar que “um Estado jihadista na fronteira de Israel hoje ameaçará a Grã-Bretanha amanhã”.
As ameaças de anexação, porém, não ficam restritas à relação com a Europa e ao choque com países do G7.
Elas também colocam em risco os Acordos de Abraão, firmados em 2020 entre Israel e países árabes. Os Emirados Árabes Unidos, que lideraram o processo de normalização diplomática, já avisaram que a anexação da Cisjordânia é uma “linha vermelha”.
O rompimento desse entendimento encerraria uma das poucas vitórias de política externa do primeiro mandato de Trump e enfraqueceria a narrativa israelense de integração regional.
A radicalização de Netanyahu aprofunda o isolamento do país. A União Europeia já discute a adoção de novas sanções e tarifas em resposta à expansão de assentamentos.
Em paralelo, cresce a distância entre os EUA e seus próprios aliados tradicionais, que enxergam no apoio incondicional da Casa Branca a Israel um fator de instabilidade global. Para diplomatas ouvidos em Nova York, o risco é que uma anexação unilateral empurre Israel para um grau de isolamento inédito desde sua fundação — com possibilidade de suspensão de direitos no âmbito da ONU.