O Rio sangra sob o comando de Cláudio Castro

Tragédia com 130 mortos contados até agora revela o fracasso da política de segurança do governador e a paralisia de um estado dominado pela lógica da guerra

A chacina que paralisou o Rio de Janeiro, nesta terça-feira (28), e deixou 130 mortos contados até agora em operações policiais nas zonas Norte e Oeste, é responsabilidade direta do governador bolsonarista Cláudio Castro (PL).

Ao transformar a segurança pública em palanque eleitoral e substituir inteligência por confrontos armados, o chefe do Executivo fluminense alimenta um ciclo de barbárie que devasta as comunidades e destrói a confiança da população nas instituições.

O que aconteceu não é acidente — é consequência de política deliberadamente orientada pela retórica do confronto e pela omissão planejada do Estado.

A tragédia escancara o caos de um governo que perdeu o controle da segurança pública e a sensatez na condução política. A violência virou rotina, e o poder público segue paralisado — entre o autoritarismo de uns e o negacionismo de outros. O resultado é sempre o mesmo: corpos, lágrimas e promessas que nunca saem do papel.

Detalhe: os ricos e setores médios mais abastados não são diretamente atingidos por essa violência. Ironia: apenas se incomodam quando seus empregados deixam de comparecer ao trabalho por causa do toque de recolher imposto pelo crime organizado — ou pelo próprio estado. Isso, sim, tira o sono deles.

PEC da Segurança parada no Congresso

Enquanto o Rio arde em tiroteios, a PEC da Segurança Pública — proposta que poderia criar um Sistema Nacional de Coordenação entre União, estados e municípios — está parada na Câmara dos Deputados, nas mãos do relator Mendonça Filho (União-PE).

Pressionado por disputas políticas e cálculos eleitorais, o relator simplesmente se sentou sobre o texto.

De um lado, há com correlação de forças desfavorável e ambiente hostil no Congresso, que faz com que o governo enfrenta grandes dificuldades para pautar e fazer avançar a PEC da Segurança. De outro, a oposição prefere o caos, acreditando que quanto pior, melhor.

É o retrato da paralisia: ninguém quer pagar o custo político da segurança pública, mas todos exploram o tema nos discursos inflamados das redes digitais — especialmente em períodos eleitorais.

Violência incandescente e mortífera

O massacre, com 130 mortos — 4 são policiais — e 81 presos em operações conjuntas das polícias Civil e Militar, expõe política de segurança que não distingue criminosos de civis.

O governador Cláudio Castro, em vez de promover estratégias de inteligência, reforça o discurso do confronto e da guerra — populismo armado que só multiplica as vítimas.

Aos poucos, o Rio se transforma em laboratório da falência estatal: milícias dominam territórios, o tráfico dita horários, e a polícia, acuada e mal paga, torna-se instrumento de exibição política.

Entre extremismo e omissão

O Rio está preso entre extremos: um governador que flerta com a violência como projeto político-eleitoral — ele é pré-candidato ao Senado em 2026 — e um Congresso que transforma a segurança pública em arena de disputa político-ideológica-eleitoral.

A PEC da Segurança, que poderia ao menos criar diretrizes nacionais, é tratada como moeda de troca partidária e chantagem do Centrão contra o governo.

A politização cega impede o óbvio: segurança pública é política de Estado, não de governo. Mas, no Brasil, até a vida virou pauta eleitoral.

Quando os recursos acabam, sobra a tragédia

Com os cofres estaduais esvaziados e a União hesitando em coordenar ações nacionais, o ciclo se repete: operações espetaculares, mortes em massa e nenhuma mudança estrutural.

A imprensa repercute até o assunto cair no esquecimento. Enquanto isso, mães enterram filhos, comunidades se calam e governantes posam para fotos.

O País das urgências vive sempre à beira do abismo — e parece confortável ali.

Conteúdo da PEC

Apresentada no fim de abril de 2025, a PEC 18 visa reestruturar a segurança pública no Brasil, redesenhando as competências entre União, estados e municípios.

As principais mudanças propostas incluem:

• Criação da PVF (Polícia Viária Federal), a partir da transformação da PRF, com competências ampliadas;

• Constitucionalização dos fundos de segurança pública (FNSP e Funpen), com proibição de contingenciamento;

• Ampliação do papel das guardas municipais, que passariam a realizar policiamento ostensivo e comunitário; e

• Autonomia das corregedorias e ouvidorias das forças de segurança, obrigatórias em todos os entes federados.

Aprovada pela CCJ em julho, a proposta está sob exame de comissão especial, cujo relator é Mendonça Filho. Há diversos requerimentos para realização de audiências públicas. Depois de passar pela Câmara, seguirá ao Senado.

Principais pontos da PEC 18

• Sistema Nacional de Segurança Pública — cria marco constitucional e define responsabilidades entre os entes federados.

PVF (Polícia Viária Federal) – amplia a atuação da PRF para todas as vias federais e proteção de bens públicos.

• FNSP (Fundo Nacional de Segurança Pública) e Funpen (Fundo Penitenciário Nacional) – tornam-se constitucionais e não podem ser contingenciados.

• Policiamento Municipal – autoriza guardas municipais a atuar de forma ostensiva e comunitária.

• Autonomia das corregedorias e ouvidorias – garante apuração independente e canais de escuta à população.

A proposta divide opiniões. Para críticos, representa tentativa de centralização excessiva pelo governo federal e carece de diálogo com as forças policiais.

Irresponsabilidade e cálculo político

A tragédia do Rio é o retrato mais cruel da irresponsabilidade de Cláudio Castro. O governador prefere posar como “líder de pulso firme” diante das câmeras a assumir o papel que a Constituição lhe impõe:

garantir segurança com planejamento, inteligência e respeito à vida. Sua política é de espetáculo — tiros, tanques e manchetes — mas sem resultados duradouros. Enquanto o sangue escorre nas favelas, Castro calcula votos.

E o Rio, entregue à barbárie, segue afundando entre a covardia dos que governam e a indiferença dos que se calam.

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Edição: Bárbara Luz

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