Partido Comunista de Israel defende Estado Palestino soberano

Representante do PCI no 16º Congresso do PCdoB avalia a situação política de Israel e a luta pelo fim do genocídio contra os palestinos. Também alerta para a interferência dos EUA na região

Foto: Publicação instagram

O Portal Vermelho entrevistou com exclusividade o representante do Partido Comunista de Israel, Yoáv Goldring durante sua participação no 16º Congresso do PCdoB.

Confira a íntegra:

Vermelho – Qual a avaliação do Partido Comunista Israelense sobre o acordo de cessar fogo na faixa de Gaza entre a resistência e Israel?

Yoav Goldring – A primeira coisa é falar que a gente está muito contente com o cessar-fogo e o acordo de troca. Ele poderia ter acontecido logo no dia seguinte aos ataques (dia 08 de outubro de 2023). Na faixa de Gaza o governo teve a intenção, através do genocídio, de fazer uma limpeza étnica da faixa de Gaza. Como também na Cisjordania, pelos pogroms dos colonos apoiados pelo exercito e as operações militares cada vez mais frequentes lá.

Essa matança foi proposital. O governo fascista de Netanyahu declarou isso por várias bocas dos ministros dele, confissões desses crimes de Guerra. Mas é preciso alertar sobre a hegemonia dos Estados Unidos na região, com o Qatar envolvido, a Arábia Saudita, França, Egito, Israel. Os EUA tentam resolver a questão palestina sem os próprios palestinos. Isso é um perigo. O Partido tem avaliado desde muito cedo que o Nakba [catástrofe, desastre] palestino tem três fatores: o sionismo, o imperialismo e a camarilha reacionária árabe.

Vermelho – Durante esses dois anos de massacre contra o povo palestino, o seu partido tem atuado de forma corajosa e heroica contra o genocídio. O que o partido tem enfrentado de represálias devido a essa atuação corajosa?

Yoav Goldring – O governo do Netanyahu colocou como ministro da polícia de segurança interna, Itamar Ben-Gvir, um fascista violento que usa a polícia, não só para perseguir as manifestações de centro-esquerda, mas também para perseguir os nossos camaradas por um simples post no Facebook; ou tentar impedir manifestações para as quais precisamos pedir autorização ao Supremo Tribunal. A polícia, seguindo ordem dele, tenta proibir qualquer manifestação da oposição e tira qualquer bandeira palestina levantada, ou até uma placa que fala “Não matarás”.

Vermelho – Os deputados do partido foram cassados ou continuam exercendo os mandatos?

Yoav Goldring – Tanto Ofer Cassif quanto Aida Tuma Sliman (os dois representantes do PCI no Knesset – o parlamento nacional de Israel) foram expulsos e tiveram seus mandatos suspensos por uns meses muito longos, por denunciar o genocídio. O nosso parceiro de Hadash, Ayman Odeh por exemplo, enfrentou um grande ataque quando comemorou o primeiro acordo de troca, por mencionar os palestinos soltos. Essa é uma perseguição constante e que só vem aumentando. Com as eleições próximas, sabemos que eles vão fazer tudo para tentar impedir o partido de participar do pleito.

Vermelho – Você citou dois parlamentares comunistas, mas o PCI faz parte de uma coligação maior. Poderia explicar ao leitor brasileiro?

Yoav Goldring – A gente participa da Frente Democrática pela Paz e igualdade, que forma a sigla Hadash. Essa é a nossa frente. Dentro da nossa frente, do Hadash, dos três parlamentares que elegemos na última disputa, dois são do partido. O Hadash fez na ultimas eleições uma aliança com Taàl, com dois deputados, que vota com a gente em todos os assuntos, liderada por doutor Ahmed Tibi, que foi uma pessoa bem próxima ao líder palestino Yasser Arafát.

Vermelho – Muitos argumentam que a maioria da população israelense é sionista e apoia a limpeza étnica contra os palestinos. Você concorda com essa afirmação?

Yoav Goldring – O sionismo tem vários significados diferentes em Israel e que também mudam no tempo. Tem muitos por exemplo que usam justificativas sionistas (de manter a maioria judaica por exemplo), mas chegam a apoiar um Estado palestino independente ao lado de Israel. Nós, do PCI, somos antissionistas, a nossa crítica ao sionismo é contra a supremacia e limpeza étnica que ele realiza e justifica, mas também enquanto ideologia falsa para as massas judias, que distorce os interesses reais dos judeus. Depois da criação de Israel, com o tempo os sionistas conseguiram igualar a noção de pátria à noção de sionismo, pois eles conseguiram se descrever como um movimento de libertação nacional, o que obviamente é falso.

Vermelho – E como a população se posiciona em relação ao governo de Netanyahu?

Yoav Goldring – Acho que nunca Israel teve tanta manifestação contra o governo como nesses últimos dois anos. E até um pouco antes, com a reforma jurídica que eles tentaram fazer. As pessoas tem vários níveis de posicionamento, e claro que tem mudança. Tem pessoas que no começo só se preocuparam com os reféns, chamado para cessar-fogo e acordo de troca. As forças progressistas e democráticas entre os judeus israelenses começaram como margem dessas manifestações, mas logo o entendimento que um genocídio tá em curso, essas manifestações ficaram mais explícitas. Denunciando os crimes da guerra, o genocídio, a guerra pela sobrevivência política de Netanyahu, centenas com fotos de crianças palestinas assassinadas ou com fotos dos reféns. Tem várias pessoas com várias vozes. O nosso papel como comunistas é aparecer nesses lugares com os lemas corretos, e a mudança de opinões tem sido muito evidente.

Vermelho – Então seria incorreto dizer que majoritariamente a população israelense defende a limpeza étnica dos palestinos.

Yoav Goldring – É verdade que com todos os conflitos, com todo o sangue envolvido, as pessoas tendem a assumir posições mais nacionalistas. Mas esse não é um sentimento que não possa ser trabalhado, que não possa mudar. Durante a guerra observamos uma mudança significativa na desaprovação do governo e na critica do mainstream dos crimes da guerra. Essas posições eu acho que são mais permeáveis do que parecem. Durante as negociações de Oslo o apoio pela solução de Dois Estados foi muito claro.

Vermelho – No Brasil, algumas forças de esquerda caracterizam Netanyahu como neofascista. Como o PCI qualifica a corrente de Netanyahu ideologicamente?

Yoav Goldring – Falamos do perigo fascista há um tempo. Agora, caracterizamos o momento atual como o de realização do perigo fascista. A gente já vê muitas características do fascismo se instalando, como as milícias voluntárias, pessoas da direita que vão dar porrada nas manifestações da esquerda, ou fazer “pogroms” em vilarejos palestinos. Então, isso é o fascismo na forma mais madura. Talvez a gente possa tentar diferenciar, teoricamente, entre o fascismo clássico e o atual. Mas o perigo fascista exigiria, em tese, uma política de alianças amplas, inclusive com os liberais, para tentar isolar o fascismo que hoje atraí a direita e a centro direita. Mas isso não é fácil de fazer em Israel pois os liberais e até a centro-esquerda reluta em fazer alianças com a esquerda mais consequente e com os palestinos. Porém, creio que, para isolar o inimigo comum, tal movimento político será necessário, e estamos sempre dialogando com quem possa caminhar com a gente mesmo uma parte curta do caminho ajudando a tirar essa pedra mas que entendemos que não vai com a gente até revolução socialista.

Vermelho – Você considera que existe um sionismo de esquerda? Ou, como muitos afirmam aqui no Brasil, ou se é sionista ou se é de esquerda?

Yoav Goldring – Hoje, esse movimento de um sionismo de esquerda é cada vez mais fraco embora em Israel ainda existam muitas pessoas que se definem como de esquerda e sionista. Alguns, por exemplo, defendem que o sionismo significa o direito de um Estado para o povo judaico, mas apoiam um estado palestino independente e soberano.

Vermelho – Existem vozes que afirmam o fim da solução de dois estados e que a verdadeira solução seria um estado binacional, democrático e laico. Como o Partido Comunista de Israel vê essa discussão e como vocês veem o futuro da causa palestina?

Yoav Goldring – É um exemplo das limitações do pensamento utopista em não conseguir colocar o lema correto, atual, que responde à realidade concreta. Essa ideia talvez seja mais justa e ideal, mas ignora a aspiração palestina de autodeterminação separada. Tanto a OLP quanto o Hamas defendem a criação de um Estado palestino com as fronteiras de antes da guerra de 1967. O mundo, quase por inteiro apoia a criação do Estado Palestino. Os Palestinos dento do Estado israelense também chegaram nessa resolução. Não é preciso, se for o caso, sequer falar “dois Estados”: há consenso de apoio na formulação de um Estado palestino soberano e independente com as fronteiras de antes de 1967 já. Aquelas vozes que você menciona frequentemente citam o argumento que os assentamentos chegaram a inviabilizar essa solução. Nesse sentido, eles acabam concordando com a direita israelense que faz todo esse esforço para combater a solução de Dois Estados, em várias maneiras diretas e indiretas. O Partido insiste que o acordo terá que incluir desalojamento dos assentamentos e a retirada dos colonatos do território de Estado palestino. Isso foi possível na Argélia e é crucial na solução aqui também. Estado palestino já, é o lema desse momento. Acreditamos que isso é possível e lutamos para isso.

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