Amazônia brasileira já vive aquecimento de 1,5°C, mostra MapBiomas
MapBiomas aponta aumento de 1,5°C na Amazônia e 1,8°C no Pantanal, com secas prolongadas e perda de vegetação agravando a crise climática
Publicado 05/11/2025 16:13 | Editado 05/11/2025 16:42
O ano de 2024 marcou um ponto crítico para o clima brasileiro. Segundo dados do MapBiomas Atmosfera, a temperatura média na Amazônia brasileira ficou 1,5°C acima da média histórica, o limite estabelecido pelo Acordo de Paris como tolerável para o aquecimento global. No Pantanal, o aumento foi ainda maior — 1,8°C, ultrapassando a barreira que deveria funcionar como alerta máximo para governos e sociedades.
O aquecimento não se deve apenas a fatores globais, mas também ao uso da terra e ao desmatamento, conforme defende Luciana Rizzo, professora do Instituto de Física da USP e integrante do MapBiomas Atmosfera.
“A gente tem o aquecimento global que influencia o mundo inteiro, mas o desmatamento, a remoção de florestas e o crescimento urbano também aumentam a temperatura”, afirmou.
O levantamento mostra um aumento consistente desde 1985, com os últimos 40 anos registrando alta contínua da temperatura em todas as regiões do país.
Um processo sem volta
Para os cientistas, o dado acende um alerta que vai além das flutuações climáticas. “Esse aumento não é reversível, nem a curto nem a médio prazo”, destacou Rizzo. “Daqui pra frente, a tendência é de crescimento contínuo da temperatura. Precisamos nos preparar para isso e reduzir emissões para evitar agravamento.”
O alerta se torna ainda mais grave porque a floresta amazônica perde, com o calor e o desmatamento, sua capacidade de absorver carbono — um dos principais mecanismos naturais de controle do clima. Desde 1985, a Amazônia perdeu 52 milhões de hectares de vegetação nativa, o que corresponde a 13% do bioma. Nesse mesmo período, a temperatura média na região subiu 1,2°C.
Um estudo publicado na Nature Geoscience indica que o desmatamento causa 74% da redução das chuvas e 16% do aumento da temperatura na Amazônia durante a estação seca. O resultado é um ciclo de aquecimento, seca e incêndios cada vez mais intensos.
Pantanal: seca recorde e aquecimento extremo
Em 2024, o Pantanal registrou 205 dias sem chuva e precipitação 314 milímetros abaixo da média. A combinação de seca e calor elevou a temperatura média a 1,8°C acima da média histórica — o maior valor já registrado no bioma.
De acordo com o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, “a perda de florestas modifica as trocas de calor e vapor d’água com a atmosfera, resultando em temperaturas mais elevadas”.
Os efeitos são diretos sobre a biodiversidade e o ciclo hidrológico. O Pantanal, dependente das chuvas na Bacia do Alto Paraguai, enfrenta dificuldades na recarga dos rios e nas inundações naturais que sustentam o ecossistema.
Aquecimento desigual, mas generalizado
De 1985 a 2024, a temperatura no Brasil aumentou em média 0,29°C por década, com diferenças regionais marcantes. O Pantanal aquece mais rápido (+0,47°C por década), seguido pelo Cerrado (+0,31°C). Já os biomas costeiros, como a Mata Atlântica e o Pampa, apresentam aquecimento mais brando.
Segundo o professor Paulo Artaxo, da USP e membro do MapBiomas Atmosfera, “os últimos relatórios do IPCC já apontavam essas tendências. Agora temos evidências detalhadas para cada bioma. A redução da precipitação agrava os impactos especialmente na Amazônia e no Pantanal”.
Uma ferramenta para enfrentar a crise
O MapBiomas Atmosfera, lançado em 2024, reúne dados climáticos de 1985 a 2024 com base em imagens de satélite e modelagem atmosférica. A plataforma inclui informações sobre temperatura, precipitação e poluentes atmosféricos, permitindo identificar áreas mais vulneráveis à crise climática.
Artaxo define a iniciativa como “um instrumento para formular políticas públicas baseadas em evidências” e para orientar ações de mitigação e adaptação.
Os dados revelam ainda que o ar mais limpo do Brasil está em estados litorâneos do Nordeste, como Bahia, Sergipe e Pernambuco, enquanto a maior concentração de poluentes ocorre em Rondônia e Mato Grosso, associada à fumaça de queimadas.
Um futuro mais quente e mais seco
Os pesquisadores são unânimes: o aumento das temperaturas não voltará atrás. O desafio agora é adaptar-se e conter o avanço das emissões. Como resume Luciana Rizzo:
“A temperatura não vai baixar. O que podemos fazer é impedir que ela suba ainda mais e preparar o país para viver num clima que já mudou.”
Com informações de MapBiomas Brasil