Editorial da Folha é um salvo-conduto para a extrema direita

Ao celebrar 105 anos, jornal paulista adota neutralidade simulada e ignora lições do passado sobre a ascensão do fascismo e ataques à democracia. O “doisladismo” praticado pela grande mídia brasileira funciona como uma blindagem ideológica para o autoritarismo

Fachada da sede da Folha de S. Paulo em Campos Elísios, região central da capital paulista

A Folha de S.Paulo chega aos seus 105 anos nesta quinta-feira (19) reafirmando uma postura que, sob o manto da “imparcialidade”, serve de plataforma para a normalização do que há de mais reacionário na política global. Em editorial que transparece a defensiva diante do avanço da extrema direita, o jornal justifica a cobertura acrítica de figuras como Trump, Bolsonaro e Milei como um exercício de “neutralidade”, ignorando que tais forças têm como projeto central o desmonte das próprias liberdades democráticas que permitem a existência da imprensa.

A falácia do “pensamento mágico”

O argumento do jornal paulista repousa sobre um silogismo frágil. A Folha acusa os críticos de nutrir um suposto “pensamento mágico” — a ideia de que, se a mídia não der palco à ultradireita, ela deixaria de existir. É um espantalho retórico. A crítica real não é à existência da notícia, mas à deferência editorial e à tentativa de tratar projetos autoritários como forças políticas equivalentes ao campo democrático.

Ao equiparar o peso institucional de partidos programáticos ao ímpeto destrutivo da extrema direita, o jornalismo liberal abdica de sua função social. Não se trata de negar o fenômeno social e eleitoral, mas de denunciar uma ideologia que, historicamente, utiliza a democracia como escada para depois queimá-la.

As lições ignoradas da história

A história não é neutra, e o editorial da Folha parece esquecer as lições mais sangrentas do século 20. O fascismo e o nazismo não ascenderam apenas pela força, mas pela conivência de uma elite econômica e midiática que acreditou ser possível “domesticar” a barbárie. Como na Alemanha, em 1933, quando Hitler chegou ao poder pelas urnas, mas em poucos meses impôs a Lei de Imprensa que controlava 90% dos jornais; ou mesmo no episódio recente do Brasil, quando o governo Bolsonaro (2019-2022) não apenas hostilizou a imprensa, mas promoveu o estrangulamento financeiro de veículos e incentivou agressões físicas a jornalistas — foram 532 ataques registrados pela Abraji apenas em 2022.

Tratar esses episódios com “equidistância moral” é, na prática, oferecer a poltrona principal para quem deseja incendiar a sala.

A armadilha do “doisladismo”

O que a Folha chama de “teste de estresse” de seus princípios é, na verdade, uma relativização perigosa. Em uma era de renascimento global de correntes neofascistas — de Wilders na Holanda, passando por Orbán na Hungria, Trump nos EUA, a Milei na Argentina —, o jornalismo pluralista não pode ser sinônimo de simetria entre a democracia e seus algozes.

O “doisladismo” praticado pela grande mídia brasileira funciona como uma blindagem ideológica para o autoritarismo. Ao fugir do enfrentamento direto com o extremismo, a Folha repete erros de um passado não tão distante, quando o apoio e  a omissão diante de rupturas institucionais acabaram por cercear a própria liberdade de expressão do jornal.

A celebração do centenário exigia uma reflexão mais corajosa e menos acuada. O jornalismo de compromisso com a democracia sabe que não existe neutralidade diante do fascismo: ou se defende a democracia de forma intransigente, ou se torna cúmplice de sua destruição. E, sobre cumplicidade, a Folha ainda é maculada pelo que fez durante a ditadura militar.