EUA tentam desmontar poder da Opep e assumir controle do petróleo, diz Sauer
Especialista aponta que disputa por reservas e fluxos energéticos atinge Ásia e Europa, amplia risco de ruptura no abastecimento e revela limites da soberania brasileira
Publicado 27/03/2026 11:37 | Editado 30/03/2026 08:31
A guerra de agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã está a serviço de uma estratégia para neutralizar a capacidade da Opep de regular o mercado e assumir o controle do ritmo de produção e dos preços do petróleo em escala global, tendo como eixo a apropriação de grandes reservas estratégicas, como as da Venezuela e do próprio Irã.
A avaliação é do professor Ildo Sauer, titular do Instituto de Energia da USP e ex-diretor da Petrobrás, que, em entrevista ao Portal Vermelho, afirma que a ofensiva articula poder militar, pressão geopolítica e controle energético para reorganizar o sistema internacional sob comando de Washington, com impactos diretos sobre países dependentes do petróleo do Golfo — especialmente na Ásia — e sobre o conjunto da economia mundial.
“Há uma estratégia de neutralizar a ação da OPEP, de colocar o ritmo de produção, acesso ao petróleo e a acumulação do excedente econômico sob controle das grandes petroleiras norte-americanas e do Estado norte-americano, controlando produção, controlando preço, para extrair excedente ou beneficiar o consumo”, afirma.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), criada em 1960 por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, entre outros grandes produtores como Argélia, Angola, Congo, Emirados Árabes Unidos, Gabão, Guiné Equatorial, Líbia e Nigéria, atua de forma coordenada para regular a oferta e influenciar os preços do petróleo no mercado internacional.
Segundo Sauer, a estratégia dos Estados Unidos passa por retirar esse poder dos países exportadores, que representam 38% da produção mundial, e transferi-lo para Washington.
Para ele, a campanha no Oriente Médio já teve um primeiro laboratório na América Latina.
Sauer afirma que os Estados Unidos avançaram sobre a Venezuela como forma de demonstrar que, diante de recursos estratégicos, a intervenção direta é um instrumento central de reorganização do poder global.
Nesse sentido, o país teria sido utilizado como ponto de partida para uma ofensiva mais ampla sobre o sistema energético internacional.
“Tomou a Venezuela e queria neutralizar o Irã, tomando as suas reservas através de um novo regime em Teerã”, resume.
Na avaliação dele, o movimento buscava consolidar uma sequência de ações que articulasse a mudança de regimes, controle de reservas e reorganização do mercado global de petróleo.
Sauer também sustenta que o controle dessas reservas abre caminho para o uso do petróleo como instrumento de pressão geopolítica, especialmente contra economias dependentes da importação de energia.
Segundo ele, essa lógica permitiria aos Estados Unidos “estrangular a China, principalmente, no acesso ao petróleo”, ao mesmo tempo em que desloca o centro de decisão sobre produção e preços.
No entanto, a guerra de agressão “encontrou na capacidade de resposta iraniana um limite concreto para a estratégia norte-americana”.
Sauer afirma que Teerã não apenas resistiu militarmente, como passou a operar com vantagem estratégica ao controlar um dos principais pontos de estrangulamento do sistema energético global.
Segundo ele, o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo — tornou-se um instrumento decisivo de pressão, ao concentrar o fluxo energético de países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Catar .
Na avaliação do professor, o controle dessa rota altera o equilíbrio da guerra ao permitir ao Irã interferir diretamente no abastecimento global.
“Veja, o Irã controla o fluxo do petróleo dele, de grande parte da Arábia Saudita, praticamente todo do Kuwait e do Iraque, e pode reduzir o abastecimento em torno de 15% a 20% do consumo mundial de petróleo, o que tem consequências — além do aumento do preço — na dificuldade de rearranjar a origem e o destino”, afirma.
Sauer também sustenta que a escalada expôs a “ausência de cálculo estratégico por parte dos Estados Unidos, que foram tragados por Israel para o conflito”.
Para ele, “a ofensiva ignorou os efeitos econômicos e logísticos de um eventual bloqueio ou instabilidade prolongada na região, o que acabou ampliando os custos da própria operação” e transformando o Estreito de Ormuz no que define como o possível “Waterloo” da estratégia norte-americana, em referência à derrota final de Napoleão.
“É difícil de entender como não foi possível que os Estados Unidos tivessem antecipado as consequências do que foi feito”, afirma, ao apontar que a crise energética gerada pela guerra tende a se prolongar e a afetar de forma mais intensa as economias dependentes do petróleo do Golfo.
“Liberação das reservas é insuficiente”, diz Sauer
Nas últimas semanas, a Agência Internacional de Energia (AIE) por meio de seus executivos tem dado sinais de que a crise energética gerada pelo início das ações imperialistas da Casa Branca é “muito grave” e que a economia global está “enfrentando uma ameaça enorme”.
Para Sauer, a dimensão da ruptura pode ser medida pela escala da oferta global. “O mundo consome hoje cerca de 100 milhões de barris por dia. Se você tirar 15%, 20% [parcela que passa por Ormuz] disso, você está falando de uma redução muito significativa. No mínimo uns 15 milhões de barris estariam faltando.”
Numa tentativa de atrasar a crise, a AIE anunciou em 11 de março a liberação de 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas de emergência para conter a alta do preço dos combustíveis provocada pela guerra no Oriente Médio.
Para Sauer, porém, esse tipo de medida tem alcance limitado. “Não há capacidade ociosa suficiente para substituir uma perda dessa magnitude no curto prazo. Mesmo que alguns países ampliem a produção, isso leva tempo e depende de condições técnicas e políticas”.
“Os estoques estratégicos podem atenuar momentaneamente, mas não resolvem o problema, porque não substituem uma perda dessa magnitude no fluxo diário”, concluiu.
Sem capacidade de compensação no curto prazo, os efeitos da ruptura vão impactar o sistema internacional de energia de forma desigual, atingindo com mais força as economias dependentes de importação de energia.
“O mundo depende desse fluxo de petróleo que escorre do Estreito de Ormuz, principalmente a China, o Japão, a Índia, a Coreia do Sul e a Europa. São os que mais precisam que essa circulação de energia continue acontecendo normalmente”, afirma.
Dependência e soberania energética diante da guerra
No caso dos Estados Unidos, a expansão da produção doméstica nas últimas duas décadas reduziu a dependência externa de energia e ampliou sua capacidade de operar com maior autonomia no mercado global.
“Os Estados Unidos, a partir dos anos 2003, 2004, 2005 e adiante, desenvolveram rapidamente a capacidade de extrair óleo e gás — e líquidos de gás — do chamado shale oil, que, combinado com o petróleo convencional do Golfo do México e do Alasca, garante aos Estados Unidos uma condição de grande autonomia energética”, explica.
O chamado shale oil é um método que permite extrair petróleo e gás de formações rochosas profundas por meio de fraturamento hidráulico, técnica que se expandiu rapidamente nos Estados Unidos nas últimas duas décadas.
Essa condição reduz a dependência direta do petróleo do Golfo e amplia a margem de ação de Washington no cenário internacional.
“Essa aventura do Oriente Médio — a aventura contra o Irã — que assola principalmente a Europa e tenta assolar a China e a Índia, assolando também o Japão e a Coreia, teria sido muito mais difícil sem o shail oil”, avalia.
Na Europa, por outro lado, a crise energética se soma a fragilidades estruturais acumuladas nos últimos anos.
“A Europa é profundamente dependente do Gás Natural Liquefeito (GNL) do Qatar, fora o que eles importam dos Estados Unidos e outros países, por terem renunciado ao gás assegurado — com custo de mais ou menos um quarto do preço atual — das grandes linhas de gasodutos antigos vindos da Rússia, da Sibéria”, explica.
A substituição do gás russo por fontes mais caras e instáveis elevou estruturalmente os custos energéticos do continente.
“Então, essa consequência para a Europa — fora o petróleo mais caro — é o gás muito mais caro e, agora, nem mais caro tem para atender a demanda”, explica.
Para Sauer, esse movimento já produz efeitos sobre a base produtiva europeia.
“A elevação dos preços da energia elétrica e dos derivados foi um dos fatores que ajudaram na desindustrialização”, afirma, ao apontar que o encarecimento da energia compromete a competitividade industrial e pressiona a atividade econômica.
Nesse contexto, o choque atual tende a aprofundar uma dinâmica já em curso: preços elevados, restrição de oferta e reorganização dos fluxos energéticos com impactos diretos sobre inflação, produção e crescimento em escala global.
A situação do Brasil
No caso brasileiro, Sauer avalia que “a crise energética internacional atinge um país que produz petróleo em volume relevante, mas opera sem instrumentos efetivos de controle sobre sua política energética e sobre o ritmo de exploração dos próprios recursos”.
“Nós delegamos, via contratos de partilha ou de concessão, contratos microeconômicos sem poder soberano de organizar o ritmo de produção”, explica.
Sauer se refere aos modelos que regem a exploração de petróleo no país e que transferem às empresas — e não ao Estado — a decisão sobre quanto produzir e em que ritmo, de acordo com critérios de mercado.
Na prática, isso limita a capacidade do Brasil de ajustar sua produção diante de crises internacionais ou de usar o petróleo como instrumento de política econômica.
O professor se refere a dois modelos legais do setor de petróleo no Brasil:
- Concessão (modelo dos anos FHC): empresa ganha o direito de explorar e fica com o petróleo extraído, pagando royalties
- Partilha (pré-sal): petróleo é da União, mas empresas operam e ficam com parte da produção
Sauer explica que o desenho institucional “feito pelo Fernando Henrique foi mantido substancialmente até hoje”, o que “impacta na estrutura regulatória do setor e de seus efeitos sobre a soberania energética do país”.
Para o professor, o aumento do custo da energia — especialmente de eletricidade e derivados de petróleo — tem impacto direto sobre a indústria.
“A elevação dos preços da energia elétrica e dos derivados foi um dos fatores que contribuíram na desindustrialização brasileira”, afirma.
É nesse ponto que ele insere a crítica ao abandono do programa nuclear, tratado como expressão mais acabada da perda de horizonte estratégico.
Ao recuperar sua própria atuação — “eu trabalhei como gerente de projeto do circuito primário do reator nuclear de Angra” — Sauer sustenta que o país chegou a construir capacidades tecnológicas relevantes no setor, mas posteriormente descontinuadas.
“Depois do governo Sarney […] foi tudo abandonado e nenhum governo retomou”, afirma.
Para ele, essa descontinuidade compromete simultaneamente três dimensões: a diversificação da matriz energética, a autonomia tecnológica e a capacidade de defesa em um mundo dominado pelas agressões imperialistas.
Sauer sustenta que países que abrem mão desses instrumentos tendem a operar em posição subordinada.