A outra Marilyn Monroe: cem anos de um símbolo sexual que lia Marx e Mao

Homenagem dos comunistas britânicos resgata uma Marilyn com sensibilidade política forjada na linha de montagem e com simpatia por autores e experiências socialistas

Se estivesse viva, Norma Jeane Mortenson teria completado cem anos na segunda-feira (1/6). O mundo a conheceu por outro nome – aquele que Hollywood escolheu para ela: Marilyn Monroe. A indústria cultural transformou a atriz num dos rostos mais reconhecíveis do século 20 e, ao mesmo tempo, aprisionou-a num único papel: o da loura sensual, ingênua e permanentemente disponível ao olhar masculino, o sex symbol eterno, a voz roufenha cantando parabéns para um presidente.

Se Marilyn pudesse ser miseravelmente reduzida a uma imagem, a engrenagem de Hollywood teria uma preferida: é a célebre cena de O Pecado Mora ao Lado. Parada sobre a grelha de ventilação do metrô nova-iorquino, Marilyn vê o vestido branco levantar com a lufada de ar enquanto tenta contê-lo entre risos e surpresa. Marco da cultura pop, a sequência transforma o corpo da atriz em espetáculo público enquanto projeta uma mulher infantilizada, aparentemente sem consciência do impacto da própria sensualidade.

Cerca de 2 mil curiosos, quase todos homens, assistiram às filmagens da “cena do Metrô”. Ali estava também o jogador de beisebol Joe DiMaggio, marido de Marilyn. Enfurecido com a exposição pública da esposa, ele deixou o set. Na mesma noite, o casal teve a briga que antecedeu o divórcio. O episódio condensa a tragédia de Marilyn: o mundo inteiro queria observá-la, mas poucos toleravam que ela existisse para além da fantasia criada por esse olhar. 

Uma mulher de esquerda

Por trás da imagem erotizada, havia uma mulher que entendia muito bem o mecanismo que a transformava em mercadoria. Por ocasião do centenário da atriz, quem lhe fez a homenagem mais nobre e inusitada foi o Partido Comunista da Grã-Bretanha. Rejeitando o “ícone fabricado” e a “loira explosiva”, a legenda foi às redes sociais para saudar “a intelectual e a camarada”, lembrando a origem proletária de Marilyn, seu interesse por Karl Marx e pela Revolução Chinesa, a vigilância do FBI e sua solidariedade a vítimas do racismo e do macarthismo.

“Precisamos reconhecer que a luta de Monroe era a interseção entre a exploração de classe e a violência patriarcal. Ela era uma trabalhadora cuja força de trabalho era seu próprio corpo, superexplorada por um sistema que exigia que ela fosse bela e silenciosa”, afirmam os comunistas britânicos. “Em seu centenário, não celebramos uma ‘pin-up’. Honramos uma socialista lúcida que compreendeu que a libertação de sua classe era inseparável da libertação de seu sexo.”

Nestes tempos de polarização e fortalecimento da extrema direita, Marilyn Monroe corre um risco real de ter sua memória demonizada ou censurada. Ainda assim, a homenagem resgata uma Marilyn que a imprensa convencional raramente promove: a da sensibilidade política forjada na linha de montagem, com simpatia por autores e experiências socialistas.

Trajetória

Antes de Marilyn Monroe se transformar no rosto mais reconhecível de Hollywood, Norma Jeane Mortenson conheceu o lado mais brutal da América. Ela passou a maior parte da infância em 12 lares adotivos e um orfanato. Casou-se aos 16 anos para evitar voltar à institucionalização.

Quando o marido foi mobilizado para o Pacífico durante a 2ª Guerra Mundial, ela foi trabalhar na fábrica de munições Radioplane Company, em Van Nuys, onde aplicava retardante de chamas nas aeronaves. Foi nesse ambiente proletário – muito distante do glamour hollywoodiano – que Marilyn tomou contato direto com o mundo do trabalho, a exploração e suas hierarquias.

Em Marilyn Monroe – A Biografia, Donald Spoto apresentou documentos do FBI sobre conversas da atriz na mesa de jantar durante viagem ao México, em 1962.  Além da admiração pela Revolução Chinesa e do desprezo a J. Edgar Hoover (o lendário diretor do FBI), ela defendia os direitos civis e a igualdade racial.

Após acompanhar a vida da atriz durante anos – registrando amizades, viagens e contatos políticos –, o FBI suspeitava que ela tivesse laços com comunistas norte-americanos. Apenas em 1962, a vigilância acabou. Segundo o FBI, não havia evidências de que Marilyn, mesmo com ideias de esquerda, fosse vinculada ao Partido Comunista dos Estados Unidos.

Esses mesmos arquivos revelam que uma das preocupações dos investigadores era com a biblioteca de Marilyn, que lia de Karl Marx a Mao Tsé-Tung, de Fiódor Dostoiévski e Walt Whitman a Sigmund Freud. O ator Marlon Brando escreveu mais tarde que ela possuía “o tipo mais sofisticado de inteligência”.

Essa inteligência se traduzia em ação quando era necessário. O episódio com Ella Fitzgerald é o mais citado. Marilyn a adorava. “Minha pessoa favorita – e eu a amo tanto como pessoa quanto como cantora, acho que ela é a melhor – é Ella Fitzgerald”, declarou a atriz. Mas eram tempos de segregação racial. O clube Mocambo, em Hollywood, recusava-se a contratar artistas negras, a menos que fossem consideradas “bonitas” pelos padrões do gerente da casa.

Marilyn, ao saber disso, telefonou para o dono do Mocambo e propôs um acordo: ela ocuparia uma mesa da frente todas as noites se o clube contratasse a cantora. O dono aceitou. Em entrevista à revista Ms., em 1972, Fitzgerald recordou a história e concluiu: “Devo muito a Marilyn Monroe”.

Há ainda o caso do dramaturgo Arthur Miller, que se casou com Marilyn em 1956. Ele dizia admirar sua curiosidade intelectual e sua capacidade de discutir política e filosofia com desenvoltura – mas contou especialmente com a coragem da atriz. Nos Estados Unidos dos anos 1940 e 1950, o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso (Huac) devastava carreiras em Hollywood e impunha uma atmosfera de paranoia anticomunista.

Quando Miller estava sob investigação, Marilyn falou em favor dele nas audiências, mesmo sabendo que arriscava a própria carreira ao se associar publicamente a um homem na “lista negra” do macarthismo. Segundo Susan Strasberg, a atriz reagia à perseguição política com uma pergunta direta: “O que é minha carreira diante da dele, se as pessoas se voltarem contra mim?”.

Marilyn compreendia, de dentro, a violência de um sistema que lucrava com sua submissão. Ela também soube usar esse sistema para ganhar poder, ainda que nunca tenha conseguido escapar totalmente dele. Quando tentou assumir maior controle da carreira e criou a própria produtora, em 1955, foi tratada como insubordinada. Era uma atriz do star-system lutando para se livrar do personagem que o capital norte-americano lhe impôs.

Além dos clichês

Os cem anos de Marilyn produziram homenagens previsíveis. Voltaram os vestidos, os romances, os comprimidos, os rumores sobre sua morte e os clichês sobre fragilidade emocional. Mas houve também uma tentativa de resgatar outra Marilyn, menos ornamental e mais política.

A homenagem do Partido Comunista britânico teve o mérito de recuperar uma personagem mais complexa do que a caricatura construída por Hollywood: uma mulher de origem proletária, curiosidade intelectual incomum e simpatias progressistas, que leu os livros que seu meio desaprovava, desafiou o racismo, enfrentou o macarthismo e terminou a vida sob vigilância do FBI.

O que a imprensa hegemônica construiu ao longo de um século foi uma Marilyn bidimensional, conveniente e inofensiva na memória mesmo que tivesse sido incômoda em vida. Celebrar seu centenário com seriedade exige, no mínimo, devolver a Marilyn Monroe a espessura que lhe foi roubada.

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