UJS aponta disputa acirrada pela juventude contra a extrema direita
Em entrevista ao Entrelinhas Vermelhas, Rafaela Elisário analisa desafios da juventude, o avanço da informalidade e a sedução das pautas individualistas
Publicado 18/06/2026 18:00 | Editado 19/06/2026 15:35
A nova edição do programa Entrelinhas Vermelhas, exibida nesta quinta-feira (18), põe a juventude brasileira no centro do debate político nacional. Em entrevista ao jornalista Inácio Carvalho, a presidenta nacional da União da Juventude Socialista (UJS), Rafaela Elisário, historiadora e mestra em memória social, traçou um panorama sobre os mais de 40 anos de atuação da entidade, os desafios contemporâneos da juventude brasileira e a preparação para o 23º Congresso Nacional da UJS, que ocorrerá entre os dias 2 e 5 de julho, no Rio de Janeiro.
Sob o lema “O futuro é agora por um Brasil de esperança e socialista”, o encontro promete mobilizar milhares de jovens em um momento de acirrada disputa política e ideológica no país.
Ao longo da conversa, Rafaela defendeu que a juventude não pode ser vista apenas como promessa de futuro, mas como protagonista das transformações do presente. Para ela, compreender as inquietações dos jovens é fundamental para construir respostas aos problemas sociais, econômicos e políticos que marcam o Brasil contemporâneo.
Assista a íntegra da entrevista:
Quatro décadas de participação nas lutas democráticas
Fundada em 1984, no calor da campanha das Diretas Já e no ocaso da ditadura militar, a UJS carrega em seu DNA a marca da ruptura e da transformação estrutural. Rafaela destacou o papel da entidade como “porta-voz da possibilidade de construção do socialismo” e sua presença nas principais batalhas do país: do movimento Cara-Pintada e o impeachment de Collor à defesa dos governos populares de Lula e Dilma, passando pela resistência ao golpe de 2016 e o enfrentamento ao negacionismo de Jair Bolsonaro, com a organização da “Revolta pela Vacina” e dos tsunamis da educação.
Para a dirigente, o balanço dessas quatro décadas revela uma organização que precisa, constantemente, atualizar suas respostas para os dilemas de cada nova geração. “O desafio da UJS é sempre conseguir dar respostas aos desafios do nosso tempo”, afirmou, ressaltando que a entidade atua não apenas no Brasil, mas com forte viés internacionalista.
Segundo Rafaela, o principal legado da organização é manter viva, entre a juventude, a perspectiva de transformação social e a defesa do socialismo como alternativa às desigualdades produzidas pelo capitalismo.
Novos desafios para uma nova geração
Um dos principais pontos da entrevista foi a análise das mudanças ocorridas na condição juvenil ao longo das últimas décadas.
Se durante os governos Lula e Dilma milhões de jovens conquistaram acesso ao ensino superior por meio de políticas como o ProUni, o Reuni e a Lei de Cotas, hoje os desafios são diferentes. Embora mais jovens ingressem na universidade, muitos enfrentam dificuldades para concluir os estudos ou encontrar empregos compatíveis com sua formação.
Rafaela chamou atenção para o crescimento da informalidade e para a dificuldade de acesso a direitos que eram mais comuns para gerações anteriores, como a aquisição da casa própria e a estabilidade profissional.
É nesse vácuo de perspectivas que a extrema direita avança, oferecendo saídas “falaciosas, porém sedutoras”, baseadas no individualismo, na meritocracia e no empreendedorismo de palco. Rafaela rejeita veementemente a tese de que a juventude seja conservadora por essência. “Eu não consigo aceitar a ideia de que o jovem que nasce num bairro popular, que pega o ônibus lotado, seja por natureza de extrema-direita”, argumentou.
Segundo ela, a juventude vive uma crise de perspectivas que exige respostas mais estruturais do que aquelas oferecidas até agora.
A disputa com a extrema direita
Outro eixo importante da entrevista foi a disputa política em torno da juventude.
Para a dirigente da UJS, a extrema direita tem conseguido ocupar espaços ao apresentar narrativas sedutoras baseadas no individualismo, na meritocracia e no sucesso pessoal propagado pelas redes sociais.
Apesar disso, Rafaela rejeita a ideia de que os jovens tenham se tornado conservadores por natureza. Na sua avaliação, a juventude continua sendo um setor social profundamente afetado pelas desigualdades e, portanto, potencialmente receptivo a projetos transformadores.
O desafio, afirma, é construir uma alternativa capaz de dialogar com as angústias concretas dos jovens e apresentar perspectivas reais de futuro, trabalho, renda e participação política.
Congresso discutirá socialismo, tecnologia e soberania
A entrevista também apresentou os preparativos do 23º Congresso Nacional da UJS, que acontecerá entre os dias 2 e 5 de julho, no Rio de Janeiro.
Com o tema “O futuro é agora: por um Brasil de esperança e socialista”, o encontro deverá reunir milhares de jovens de todo o país para debater questões consideradas centrais para o futuro nacional.
Entre os assuntos que estarão na pauta aparecem soberania nacional, inteligência artificial, mundo do trabalho, crise climática, combate ao imperialismo e enfrentamento da extrema direita.
A programação incluirá mesas de debate, atividades culturais, ato político nacional, participação de movimentos sociais e delegações internacionais de organizações juvenis da América Latina.
Segundo a presidente da UJS, o congresso pretende consolidar uma plataforma de atuação capaz de responder aos desafios impostos pelas transformações tecnológicas, pelas mudanças no mercado de trabalho e pela crescente disputa política em torno das novas gerações.
Eleições de 2026 entram no horizonte da juventude
Ao final da entrevista, Rafaela destacou que a juventude terá papel decisivo nas eleições de 2026.
Ela defendeu o engajamento político como instrumento de transformação social e argumentou que a participação dos jovens é fundamental para ampliar a democracia e impedir retrocessos políticos.
A dirigente também apontou a necessidade de fortalecer forças progressistas tanto no Executivo quanto no Legislativo, afirmando que a disputa eleitoral estará diretamente relacionada à defesa dos direitos da juventude, da democracia e da soberania nacional.
O futuro em debate
Mais do que uma apresentação do próximo Congresso da UJS, a entrevista exibida pelo Entrelinhas Vermelhas ofereceu um panorama sobre os dilemas enfrentados pela juventude brasileira em um período marcado por mudanças econômicas, tecnológicas e políticas profundas.
Ao relacionar questões como emprego, educação, desigualdade, democracia e participação social, o debate reforça uma das principais mensagens defendidas pela entidade: a de que o futuro não é uma promessa distante, mas uma construção que começa no presente e depende diretamente da capacidade de organização e mobilização das novas gerações.