Lula diz que não se candidatou para beneficiar ricos

Presidente antecipa obra de R$ 1,5 bi na Serra das Araras (RJ), na Rodovia Dutra, defende pedágio barato e afirma que seu foco são os humildes e a classe média

22.06.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita ao trecho reformado da BR-116 e desenlace da fita de inauguração, na Via Dutra (BR-116), entre Paracambi e Piraí/RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inaugurou nesta terça-feira (23.jun.2026) a primeira etapa da Nova Serra das Araras, na Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro. Durante a cerimônia, Lula adotou um tom marcadamente político, reafirmando sua retórica de defesa dos mais pobres e traçando um contraste direto com a gestão anterior. “Não me candidatei a presidente para fazer coisas para ricos. Quem precisa do governo são as pessoas humildes, a classe média e os trabalhadores de todas as categorias profissionais”, declarou. Em seguida, completou dizendo saber que “o povo desse país sofre”.

A fala, proferida em Paracambi (RJ), reflete a melhora na avaliação do governo nas pesquisas e o aumento na intenção de votos em Lula. As pesquisas recentes, como o Datafolha de 20 de junho, apontam Lula com 47% das intenções de voto no segundo turno, contra 43% de seu principal adversário no estado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A inauguração marca o que o governo federal classifica como o maior ciclo de investimentos em infraestrutura da história do estado do Rio de Janeiro, que ultrapassa a marca de R$ 50 bilhões contratados em rodovias e ferrovias. O evento foi pautado por um forte tom analítico sobre o modelo de desenvolvimento adotado pela atual gestão, contrastando com administrações anteriores e propondo uma nova lógica para as concessões rodoviárias no país.

Obra antecipada e “Procon” do pedágio

A etapa entregue nesta terça-feira compreende um trecho de 4 quilômetros da nova pista de subida (sentido São Paulo). O segmento, que recebeu R$ 1,5 bilhão em investimentos, foi antecipado em dois anos e já conta com quatro faixas de rolamento, acostamento, iluminação e oito novos viadutos. A região é estratégica: por ela circulam cerca de 390 mil veículos por mês, sendo 36% de carga.

Lula utilizou a obra para defender o modelo de concessão do seu governo, que dispensa a cobrança de outorga das empresas. Segundo ele, a medida permite tarifas mais baixas. “O objetivo da concessão é garantir que a empresa ganhe seu dinheiro, faça a manutenção da estrada e cobre o preço mais barato ao usuário. Nós damos um banho quando se trata de concessão: não cobramos outorga, queremos o benefício para o povo”, afirmou, criticando os pedágios de governos estaduais, que classificou como “um assalto” em estados como Pará e Paraná.

A principal motivação da obra, segundo o Ministério dos Transportes, é a segurança. A serra histórica era palco de frequentes acidentes, quedas de cargas e interdições. “Essa rodovia ficava mais de 40 dias do ano fechada se somarmos todas as interrupções por acidentes”, destacou o ministro Jorge Santoro. A nova estrutura, com oito quilômetros de subida e oito de descida, promete reduzir o tempo de viagem em 25% na subida e 50% na descida, além de oferecer áreas de escape para caminhões.

Segundo a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, a lógica é transformar o Estado em um “Procon” para o usuário: “A gente faz as contas direitinho para garantir a menor tarifa para quem trafega, seja família ou caminhão, que é um custo embutido nos produtos brasileiros”.

22.06.2026 – Trecho reformado da BR-116, a Via Dutra, entre Paracambi e Piraí/RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR

O projeto completo e o PAC na Dutra

A Nova Serra das Araras é a vitrine do que o governo federal chama de maior ciclo de investimentos em infraestrutura do Rio de Janeiro. Quando concluída, a obra terá 16 quilômetros de rodovia (oito por sentido), quatro faixas em cada direção, 24 viadutos, duas rampas de escape, três passarelas, cobertura 4G e monitoramento inteligente. A velocidade permitida subirá para 80 km/h, reduzindo o tempo de viagem em 25% na subida e 50% na descida.

O financiamento é parte de um pacote maior de R$ 10,7 bilhões liberados pelo BNDES para a malha da Dutra (626 km). O projeto prevê a expansão de 40% na capacidade da rodovia, incluindo a duplicação de 80 km da Rio-Santos (entre Mangaratiba e Angra dos Reis), a implantação de pedágio free flow e mais de 600 km de faixas adicionais.

Agenda no Rio e contraste com o passado

A inauguração da serra coroa uma agenda extensa de Lula no Rio de Janeiro. Na segunda-feira (22), o presidente assinou a adesão do estado ao Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados), que renegocia a dívida fluminense, celebrou os 74 anos do BNDES, anunciou obras em favelas da capital e premiou estudantes da 20ª OBMEP, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.

Lula aproveitou para defender seu histórico de investimentos, afirmando que nenhum governo anterior injetou tantos recursos no Rio de Janeiro e na educação pública. Ele anunciou a criação de uma faculdade de matemática no estado para abrigar os melhores alunos das Olimpíadas de Matemática, além de linhas de financiamento do BNDES para caminhoneiros, taxistas e entregadores de aplicativo.

O tom de “prestação de contas” e de contraposição ao governo de Jair Bolsonaro foi constante. Lula afirmou que a gestão anterior “não deixou legado nenhum” e que atraía a população com enganações. Para o presidente, a presença do Estado na vida dos cidadãos — seja na estrada, na escola pública ou no financiamento de bicicletas e caminhões — é a prova de que seu projeto de país é voltado para a maioria.

Para o presidente, a Nova Serra das Araras não é apenas concreto e asfalto, mas um “cartão postal” para atrair novas indústrias e gerar empregos de qualidade para a região sul-fluminense. Após a cerimônia no Rio, Lula embarcou para São Paulo, onde cumpriu agenda voltada à segurança pública e à saúde, reforçando a maratona de entregas.

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