“Anatomia do Caos” revisita tragédia da pandemia sob Bolsonaro

Documentário, que estreia em 2 de julho nos cinemas, mostra como o negacionismo e a omissão do governo contribuíram para aprofundar uma das maiores tragédias humanitárias do Brasil

Cena do documentário Anatomia do Caos

Há tragédias que não terminam quando as estatísticas deixam de ser atualizadas. Permanecem nas cadeiras vazias das mesas de jantar, nas fotografias emolduradas, nos profissionais de saúde que jamais esqueceram os corredores lotados dos hospitais e nos milhões de brasileiros que viveram o medo de uma doença desconhecida enquanto o governo federal insistia em minimizar seus efeitos.

É justamente esse país da memória que o documentário “Anatomia do Caos” procura reconstruir. Dirigido por Dandara Ferreira (‘Meu Nome é Gal’), consolida-se como uma das mais completas e viscerais radiografias da gestão do governo federal durante a crise sanitária da Covid-19. Mais do que um registro histórico, a obra funciona como uma análise forense das decisões políticas que, segundo especialistas e relatórios de investigações parlamentares, custaram vidas e agravaram o colapso do sistema de saúde no Brasil.

Mais do que reconstituir os acontecimentos da pandemia de Covid-19, o filme recompõe uma sequência de decisões políticas que marcaram profundamente a história recente do Brasil. Em vez de tratar a crise sanitária como um desastre inevitável, a obra mostra como escolhas deliberadas moldaram a resposta do Estado diante da maior emergência de saúde pública do século.

A distribuidora Descoloniza Filmes divulgou o primeiro trailer oficial de “Anatomia do Caos”, que estreia em 2 de julho nos cinemas brasileiros:

O negacionismo como política de governo

Ao longo da narrativa, o documentário relembra episódios que se tornaram símbolos daquele período: a resistência ao uso de máscaras, o incentivo a medicamentos sem eficácia comprovada, a demora na compra de vacinas, os conflitos permanentes com governadores, prefeitos e especialistas, além da sucessão de ministros da Saúde em plena crise sanitária.

A produção evita recorrer apenas à indignação retrospectiva. Sua força está na cronologia dos fatos. Ao colocar lado a lado pronunciamentos oficiais, imagens da época, entrevistas e documentos públicos, evidencia como o discurso negacionista não foi episódico, mas constituiu uma orientação política persistente.

Essa reconstrução torna ainda mais evidente o contraste entre as recomendações da comunidade científica e as posições adotadas pelo então presidente Jair Bolsonaro, frequentemente em desacordo com organismos nacionais e internacionais de saúde.

Ao cruzar depoimentos de ex-ministros, médicos, jornalistas e familiares de vítimas com documentos oficiais e mensagens de celular, o filme disseca como a negação da ciência e a polarização ideológica moldaram uma resposta epidêmica marcada por falhas sistêmicas.

O país que enterrou mais de 700 mil brasileiros

Embora os números sejam conhecidos, revê-los provoca novo impacto.

Cada gráfico representa famílias interrompidas. Cada curva ascendente traduz semanas em que hospitais ficaram sem leitos, profissionais trabalharam à exaustão e cidades inteiras assistiram ao colapso de seus sistemas de saúde.

O documentário lembra que o Brasil possuía um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo — o SUS — e uma reconhecida tradição em campanhas de vacinação. Ainda assim, tornou-se um dos países mais atingidos pela pandemia.

A pergunta que atravessa o filme permanece desconfortável: quanto desse sofrimento poderia ter sido evitado?

A insistência em tratamentos sem eficácia científica

Um dos eixos centrais da obra é o embate constante entre o Planalto e a comunidade científica. O documentário detalha como o governo federal promoveu, de forma insistente, o uso de medicamentos como a cloroquina, a hidroxicloroquina e a azitromicina para o chamado “tratamento precoce”, mesmo sem qualquer comprovação de eficácia contra o coronavírus.

A obra relembra o desgaste que essa postura gerou com a saída de dois ministros da Saúde em menos de um mês — Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich —, ambos defensores do isolamento social e de protocolos baseados em evidências. A substituição por gestores alinhados à agenda ideológica do governo resultou na mudança das diretrizes do Ministério da Saúde, incentivando a automedicação e gerando o fenômeno social do “kit covid”, em um momento em que a ciência global alertava para a ineficácia dessas substâncias e seus potenciais efeitos colaterais.

O atraso estratégico na compra de vacinas

Se a ciência foi colocada em xeque no âmbito terapêutico, no campo da imunização a omissão foi igualmente documentada. “Anatomia do Caos” apresenta uma linha do tempo detalhada sobre a demora do governo federal em adquirir imunizantes. A obra traz à tona e-mails e ofícios que comprovam que a Pfizer ofereceu milhões de doses ao Brasil com meses de antecedência, mas esbarrou em exigências burocráticas e jurídicas impostas pela União, que posteriormente foram flexibilizadas para outros países.

O documentário também aborda a tensão política em torno da CoronaVac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a Sinovac. A hesitação federal em validar e comprar o insumo a tempo, muitas vezes motivada por disputas políticas com governadores, retardou o início da vacinação em massa, deixando a população desprotegida durante os picos mais letais da doença.

Manaus e o colapso da coordenação federativa

A tragédia de Manaus no início de 2021 serve como o retrato mais doloroso da falta de um plano nacional de enfrentamento. O filme revisita o colapso do sistema de oxigênio na capital amazonense, evidenciando a demora do governo federal em intervir e enviar insumos.

A obra contrasta a realidade dos hospitais superlotados e da falta de ar com a retórica presidencial que, à época, minimizava a gravidade da doença, referindo-se a ela como uma “gripezinha” e criticando as medidas de lockdown adotadas por estados e municípios. A ausência de coordenação federativa e a falta de uma campanha nacional unificada de uso de máscaras e distanciamento são apontadas pelo documentário como fatores que aceleraram a disseminação do vírus e o surgimento de novas variantes.

Da CPI às investigações

A narrativa também recupera o trabalho da CPI da Pandemia, instalada no Senado em 2021, que reuniu milhares de documentos, ouviu dezenas de testemunhas e apontou responsabilidades políticas na condução da crise.

Ao revisitar esse material, o filme demonstra que boa parte das controvérsias não pertence apenas ao campo da memória política, mas integra um conjunto de fatos documentados que continuam produzindo desdobramentos institucionais.

Nesse sentido, “Anatomia do Caos” dialoga com um esforço mais amplo de preservação da memória democrática, registrando acontecimentos que marcaram profundamente a sociedade brasileira.

A memória como defesa da democracia

Há um mérito que ultrapassa qualquer avaliação cinematográfica.

Em tempos marcados pela velocidade das redes sociais e pela sucessão permanente de novos acontecimentos, o documentário lembra que esquecer também pode ser uma escolha política. A obra demonstra como a condução da pandemia no Brasil foi marcada pela substituição de dados epidemiológicos por narrativas políticas, deixando um legado de quase 700 mil vidas perdidas e lições inadiáveis sobre os riscos de se politizar a saúde pública.

Recordar não significa permanecer preso ao passado, mas compreender como decisões tomadas por governantes afetam concretamente a vida das pessoas.

Ao reunir imagens, depoimentos e fatos conhecidos sob uma mesma narrativa, “Anatomia do Caos” transforma a memória em instrumento de reflexão coletiva. Não para alimentar ressentimentos, mas para afirmar um princípio essencial das democracias: tragédias dessa dimensão não podem ser naturalizadas nem repetidas.

Quando as luzes da tela se apagam, permanece uma sensação incômoda. A pandemia terminou, mas as perguntas que ela deixou continuam abertas. E talvez seja justamente essa a principal contribuição do documentário: lembrar que a história não serve apenas para contar o que aconteceu, mas para impedir que o impensável volte a acontecer.

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