Debate reafirma a força e a atualidade da centenária Coluna Prestes
Iniciado em 1925, movimento foi tema de mesa-redonda na na 77ª Reunião Anual da SBPC, que reuniu nomes de destaque da pesquisa e da política científica nacional
Publicado 17/07/2025 17:24 | Editado 17/07/2025 17:31
A memória e o legado da Coluna Prestes foram revisitados sob uma nova perspectiva, a da ciência e do desenvolvimento dos territórios brasileiros, durante mesa-redonda nesta quarta-feira (16), durante a 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Intitulada “100 Anos da Coluna Prestes: uma Odisseia em Defesa do Brasil e do Progresso da Ciência pelos Territórios”, a atividade teve como proposta recuperar a trajetória da Coluna Prestes, expedição político-militar que cruzou o interior do país entre 1925 e 1927, como símbolo de resistência, projeto nacional e compromisso com o Brasil profundo.
A mesa buscou articular esse marco histórico com os atuais desafios da ciência brasileira em levar conhecimento, inovação e cidadania aos diversos territórios nacionais.
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Com mediação do professor Gilberto Lacerda dos Santos, da Universidade de Brasília (UnB), o debate reuniu nomes de destaque da pesquisa e da política científica nacional. Participaram como palestrantes Luciano Rezende Moreira, do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Henrique Carlos de Oliveira de Castro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Ana Maria Prestes Rabelo, da Fundação Maurício Grabois.
Valores ainda atuais
Luciano Rezende Moreira abriu a mesa destacando os valores fundadores da Coluna que permanecem atuais. Para ele, o debate é necessário porque a Coluna Prestes ensina princípios que precisam ser recuperados.
“A Coluna Prestes nos ensina a importância do contato direto com o povo, da resistência ao assédio do capital e da valorização do Brasil profundo. Ela representa amor ao país, às suas instituições e à unidade nacional”, salientou.
Ele completou dizendo que a Coluna “também nos lembra da moralidade pública, da retidão e da abdicação pessoal por uma causa maior. Precisamos, mais do que nunca, reconhecer e formar grandes figuras comprometidas com esse espírito coletivo.”
Em seguida, Henrique Carlos de Oliveira de Castro destacou o contexto de repressão em que nasceu o levante. “A violência institucionalizada da época provocou uma série de lideranças a se insurgirem. O Estado se estruturava a partir do coronelismo e agia em benefício de poucos. Prestes se escandalizava com essa realidade. A Coluna é, portanto, uma resposta moral e política a essa estrutura injusta, que ainda ecoa em muitos territórios do país”, afirmou.
Encerrando sua participação, foi direto ao apontar os limites da leitura reformista do episódio. “Não vamos nos iludir: a verdadeira mudança se dará através da revolução socialista. Prestes, com a Coluna, nos ensina isso. Não bastava substituir o presidente. Era preciso mudar o sistema. A lição permanece viva, sobretudo num país ainda tão desigual como o nosso.”
Jovens tenentes contra a velha República
Ana Maria Prestes — neta de Luiz Carlos e Maria Prestes — encerrou a mesa com uma reflexão histórica e política que conectou o passado ao presente. “O fato é que há 100 anos, na década de 20 do século 20, eclodiu o movimento de jovens tenentes que se insurgiu contra a República Velha e que, na sua caminhada, desnudava as péssimas condições de vida em que vivia a esmagadora maioria da população brasileira”.
Ela acrescentou que o grupo queria “acabar com impostos abusivos, a corrupção administrativa, a falta de legislação social”, além de lutar por “ensino primário gratuito, ensino profissionalizante, voto secreto e obrigatório e castigo aos usurpadores do patrimônio da população.”
Ela também destacou a dimensão épica da marcha. “Eram 1,5 mil homens, 50 mulheres, podendo chegar em conjunto a 2 mil no auge da mobilização. Chegaram a caminhar, a pé e a cavalo, até 60 quilômetros por dia, em marchas de 11 horas”.
Marcha da Coluna
Como parte do espírito do encontro, ainda foi lido o poema “Marcha da Coluna”, escrito por Murilo Mendes em 1932, que resgata o ímpeto e a dramaticidade daquela jornada histórica:
Marcha da Coluna
A coluna vai na frente
Dos homens, das mulheres, das crianças.
A coluna deita no leito dos rios,
A coluna se levanta, rasga matas,
A coluna vai na frente,
Vai mostrar o caminho ao país,
A coluna marcha,
O povo diz que ela é de fogo,
A coluna vai sempre na frente,
Nem sabe direito o que vai mostrar,
A coluna marcha,
O povo conta com a coluna,
A coluna conta com o céu.
O governo faz promessa
Para a coluna desaparecer.
Populações inteiras se penduram nela,
A coluna vira coluna de homens,
A coluna cresce, vira uma barba enorme,
A coluna marcha
Na frente dos cavalos, das cidades, dos sertões,
Na frente das ondas, do fogo, das promessas,
A coluna vai, a coluna vai, a coluna vai,
Não dá mais notícias
perdem a esperança,
Nunca mais que volta,
Nunca mais que vem.
Ao final da mesa, os presentes participaram com perguntas e comentários, reafirmando o interesse e a atualidade do tema. A troca entre os debatedores e o público reafirmou a Coluna Prestes como referência não apenas histórica, mas também política, cultural e pedagógica, apontando para a urgência de um novo pacto entre ciência, território e transformação social.