Trump ignora Zelensky e espera acordo de paz na Ucrânia em até 2 semanas
Encontro em Washington (EUA) expôs dependência europeia e fragilidade de Zelensky, enquanto Putin mantém o controle político e militar da situação
Publicado 18/08/2025 18:13 | Editado 20/08/2025 16:29
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (18) que “em uma ou duas semanas” será possível saber se o esforço diplomático liderado por ele terá êxito em encerrar a Guerra da Ucrânia. A declaração foi dada ao lado do presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, e de seis líderes europeus, durante reunião na Casa Branca, sede do governo norte-americano.
O encontro ocorreu três dias depois da cúpula de Trump com o presidente russo Vladimir Putin, no Alasca. Segundo o republicano, Moscou cobra concessões territoriais por parte de Kiev, mas aceita discutir garantias de segurança para a Ucrânia em um eventual acordo de paz.
Ao reunir, em Washington, Zelensky e a tropa de líderes europeus, Trump voltou a posar de mediador. O encontro, entretanto, revelou mais teatro político do que substância, já que os ataques à Rússia não tiveram vez. O líder estadunidense deixou claro: a “paz” que propõe exige concessões territoriais por parte da Ucrânia, ecoando a posição do Kremlin. Ele também declarou que sua tática que “talvez funcione, talvez não”.
Zelensky em posição humilhante
Zelensky, que já havia passado por momentos de constrangimento público em fevereiro, voltou à Casa Branca como figura coadjuvante. Seu sorriso calculado e sua tentativa de bajular Trump mostraram a fragilidade de sua posição: um presidente que não controla os rumos da guerra e que depende da boa vontade de Washington para seguir em pé.
Trump declarou estar disposto a oferecer “boa proteção” à Ucrânia, em parceria com aliados europeus, em um modelo semelhante ao artigo 5 da Otan, que prevê defesa mútua entre membros. Questionado sobre a possibilidade de enviar tropas -norte-americanas à guerra, disse que “nada está descartado”.
Por outro lado, o presidente dos EUA reiterou que um acordo envolveria trocas territoriais, o que significaria derrotas para Kiev. Zelensky rejeitou debater formalmente o tema, afirmando que só poderia tratá-lo em negociações trilaterais com Trump e Putin.
De nada adiantou a presença dos líderes europeus ao lado de Zelensky — Emmanuel Macron (França), Friedrich Merz (Alemanha), Giorgia Meloni (Itália) e Alexander Stubb (Finlândia), além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Eles serviram apenas para reforçar a imagem de uma Europa dependente e insegura, incapaz de se impor diante da agenda norte-americana.
Europa subordinada e sem rumo
A tentativa de “cortejar” Trump por parte dos europeus foi evidente. Temerosos de serem abandonados, pressionaram por garantias de segurança semelhantes ao Artigo 5 da Otan, como se os EUA fossem oferecer uma proteção ilimitada a Kiev. O resultado foi um alinhamento superficial, no qual a Europa novamente mostrou sua incapacidade de formular uma estratégia própria.
Macron chegou a propor uma “força de paz europeia”, ideia rechaçada por Moscou e impraticável na realidade. Merz, em um raro momento de divergência, falou em cessar-fogo imediato — mas foi isolado. A submissão coletiva à retórica norte-americana reforça a crise de liderança no continente.
Enquanto isso, Putin permanece na dianteira das negociações. Ao sinalizar a possibilidade de trocar regiões ocupadas no norte por reconhecimento definitivo no leste e na Crimeia, o Kremlin manteve a coerência de sua estratégia: consolidar ganhos e garantir a neutralidade ucraniana.
A proposta russa que circula entre diplomatas também prevê o controle de Moscou sobre grande parte do Donbas e a neutralidade militar da Ucrânia — condições que Kiev considera inaceitáveis.
Embora Zelensky tenha reafirmado que não aceitará ceder territórios, sua declaração à imprensa confirmou que as negociações podem partir das atuais linhas de frente do conflito, que se estende por mais de mil quilômetros.
Do ponto de vista russo, não há novidade. A Crimeia já é fato consumado há mais de uma década, o Donbas segue sob controle majoritário de Moscou e as linhas de frente permanecem estáveis. A narrativa de Trump de que “Putin quer a paz” apenas confirma o que analistas já apontavam: a Rússia está em vantagem e negocia de uma posição de superioridade.
Um jogo desequilibrado
O encontro em Washington evidenciou que a chamada “paz norte-americana” é, na verdade, uma forma de mostrar a Kiev suas limitações. Trump atua como ator central, Zelensky como figurante constrangido, e os europeus como plateia ansiosa por relevância.
Moscou, por sua vez, segue firme em sua estratégia: aguarda que o desgaste político e militar do Ocidente abra espaço para o reconhecimento de sua influência sobre territórios-chave. Em última instância, o desfecho das negociações não depende de Zelensky, nem de Macron ou Ursula von der Leyen —mas da disposição de Trump em aceitar os termos já colocados por Putin.