Xi Jinping defende multilateralismo em cúpula do BRICS convocada por Lula
Em reunião virtual nesta segunda-feira (8), líder chinês atacou hegemonismo e guerras tarifárias, reforçando a voz do Sul Global e a legitimidade do BRICS
Publicado 09/09/2025 11:16 | Editado 10/09/2025 11:14
O presidente da China, Xi Jinping, afirmou nesta segunda-feira (8) que o multilateralismo é fundamental para garantir a equidade e a justiça internacionais. A declaração foi feita durante a cúpula virtual do BRICS, convocada pelo Brasil, em meio à escalada da guerra tarifária imposta pelo governo de Donald Trump contra países do bloco.
Em seu discurso, Xi destacou que as transformações em curso aceleram contradições nunca vistas em um século.
O líder chinês afirmou que “o hegemonismo, o unilateralismo e o protecionismo estão galopando com maior rapidez” e que “as guerras comerciais e tarifárias travadas por algum país impactam severamente a economia mundial e prejudicam as regras do comércio internacional”.
Para ele, a defesa do multilateralismo deve se dar em torno da ONU e do direito internacional, com maior democracia nas relações globais e ampliação da voz dos países do Sul Global.
Xi insistiu na necessidade de combater o protecionismo com abertura e cooperação. Disse que “a globalização econômica é uma tendência irresistível da história” e que “seja como for a evolução da situação internacional, temos de continuar comprometidos com a formação de uma economia global aberta”.
O presidente reforçou que o objetivo é promover uma globalização “universalmente benéfica e inclusiva”, colocando o desenvolvimento no centro da agenda e garantindo que os países do Sul Global participem “como iguais e compartilhem os frutos do desenvolvimento”.
O presidente chinês ressaltou o peso estratégico do BRICS ao lembrar que o grupo reúne quase metade da população mundial, cerca de 30% do PIB global e um quinto do comércio internacional.
O líder comunista também disse que “mais estreitamente trabalhamos em conjunto, mais resilientes seremos, mais medidas teremos e maiores efeitos produziremos para abordar os riscos e desafios externos”.
Ele também defendeu a implementação da Iniciativa de Desenvolvimento Global e o avanço da cooperação da Nova Rota da Seda em alta qualidade, destacando a complementaridade dos países do bloco.
Ao concluir, usou uma metáfora: “Vento forte testa a resiliência da relva, e fogo feroz revela o ouro verdadeiro. Desde que assumimos as nossas responsabilidades e cuidamos uns dos outros, o navio gigante do BRICS conseguirá singrar ondas e navegar longe e seguro”.
O encontro também serviu para que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, fizesse críticas à política econômica de Trump.
No encontro, Lula afirmou que os países do BRICS se tornaram vítimas de práticas ilegais e classificou a política de Washington como “chantagem tarifária para interferir em questões domésticas”.
Lula acrescentou que medidas unilaterais estão “transformando em letra morta princípios basilares do livre-comércio como as cláusulas de Nação Mais Favorecida e de Tratamento Nacional” e defendeu que o bloco use sua força econômica para propor uma refundação do sistema multilateral de comércio.
Para o presidente brasileiro, a representatividade dos Brics confere legitimidade para liderar uma nova arquitetura de integração em bases “modernas, flexíveis e voltadas às nossas necessidades de desenvolvimento”.
Ele também reiterou a defesa da soberania digital, afirmando que “sem soberania digital, seremos vulneráveis à manipulação estrangeira”, mas sem abrir mão da cooperação internacional em tecnologia.
O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, disse que a incerteza do novo regime comercial já afeta os empregos em seu país e defendeu maior unidade do bloco.
O discurso do presidente russo, Vladimir Putin, não foi divulgado, mas o comunicado do Kremlin informou que ele voltou a defender a cooperação no grupo. Representado por seu chanceler, Subrahmanyam Jaishankar, a Índia também expôs os impactos da tarifa de 50% aplicada por Trump.
Além do tarifaço, os líderes discutiram a situação em Gaza, a guerra na Ucrânia e a preparação da COP30, marcada para novembro em Belém. O encontro reafirmou a posição do BRICS como contraponto ao unilateralismo de Washington, com a defesa da multipolaridade, da soberania e da cooperação entre os países do Sul Global.