Milei vence legislativas e garante fôlego político sob tutela dos EUA
Presidente argentino amplia base no Congresso e ganha estabilidade após meses de crise, mas vitória reforça dependência de Washington e o avanço do programa de reformas liberais
Publicado 27/10/2025 11:24 | Editado 28/10/2025 11:53
O presidente da Argentina, Javier Milei, saiu fortalecido das eleições legislativas de meio de mandato realizadas neste domingo (26). O partido governista, La Libertad Avanza, obteve 40,8% dos votos e conquistou 64 das 127 cadeiras em disputa na Câmara dos Deputados.
A vitória dá ao governo poder de veto no Congresso e fôlego político após meses de turbulência econômica e escândalos internos. A coalizão venceu em 15 das 24 jurisdições argentinas, incluindo a província de Buenos Aires, reduto histórico do peronismo.
No Senado, a LLA conquistou 13 das 24 cadeiras em disputa, contra 6 do peronismo e 5 de partidos regionais. A composição final assegura uma bancada real, mas ainda minoritária, que obrigará Milei a negociar caso queira aprovar suas reformas.
Com mais de 97% das urnas apuradas, o peronismo, reunido sob o rótulo Fuerza Patria, obteve 31,6% dos votos e conquistou 44 das 127 cadeiras em disputa na Câmara, além de seis das 24 vagas no Senado.
A aliança Provincias Unidas, formada por governadores de diferentes siglas — entre eles peronistas dissidentes, radicais e ex-macristas — somou 7,1% e conquistou oito cadeiras na Câmara, enquanto a Frente de Esquerda ficou com 4,8% dos votos e três assentos.
Forças provinciais e grupos independentes completaram o quadro com cerca de 15,7% dos votos e oito vagas, consolidando um Parlamento fragmentado, no qual o governo Milei dependerá de acordos pontuais e alianças temporárias para aprovar suas reformas e sustentar o programa de ajuste fiscal.
O resultado confirmou o pleito como um referendo sobre a primeira metade do mandato. Com participação de apenas 67,9% do eleitorado, a mais baixa desde 1983, a eleição registrou um nível recorde de abstenção, sobretudo em grandes centros urbanos.
Mesmo assim, o presidente comemorou o resultado e anunciou que vai aprofundar o programa de reformas estruturais.
“Hoje começa a construção da Argentina grande”, declarou. Segundo ele, o governo pretende avançar em mudanças trabalhistas, previdenciárias e educacionais, consideradas por Milei essenciais para “levar o país de volta à grandeza que teve há cem anos”.
A vitória garantiu a Milei um trunfo estratégico. Seu governo passa a ter estabilidade mínima no Congresso e poderá evitar derrotas em projetos-chave. A aliança com o PRO, partido do ex-presidente Mauricio Macri, foi decisiva.
Juntos, os dois grupos ultrapassam o terço das cadeiras na Câmara, suficiente para bloquear vetos e manter o controle da pauta. O desejo do presidente de romper com Macri e governar sem alianças, porém, não se concretizou.
Apesar do discurso triunfalista, o resultado ficou 15 pontos abaixo do desempenho obtido nas eleições presidenciais de 2023.
Milei perdeu cerca de 2 milhões de votos em comparação a Mauricio Macri nas legislativas de 2017 (as eleições de meio de mandato do Macri). Mesmo assim, obteve um voto de confiança num contexto de inflação em desaceleração e desemprego crescente.
A leitura mais comum entre analistas é de que o resultado reflete mais um castigo ao kirchnerismo do que um endosso popular às políticas do atual governo.
A campanha foi marcada por apoio explícito dos Estados Unidos. Em viagem à Malásia, o presidente Donald Trump afirmou que Milei “teve muita ajuda nossa” e confirmou o pacote de resgate de até US$ 40 bilhões para evitar uma crise cambial antes e ao longo das eleições.
O programa incluiu uma operação de troca de moedas equivalente a US$ 20 bilhões, usada para ampliar as reservas argentinas, e a criação de um fundo de investimento em dívida de mesmo valor, ambos supervisionados pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent.
“Ganhamos muito dinheiro com essa eleição porque os títulos argentinos subiram e a classificação de crédito melhorou”, disse Trump, antes de acrescentar que o interesse de Washington “não é exatamente o dinheiro”.
O respaldo norte-americano foi decisivo para estabilizar o câmbio e conter a alta dos preços nas semanas anteriores ao pleito. Segundo a agência Fitch Ratings, o auxílio dos EUA evitou um novo rebaixamento da nota de crédito argentina.
Em troca, Trump exigiu que Milei demonstrasse força nas urnas — o que provocou críticas de ingerência externa e reforçou a percepção de subordinação política e econômica da Argentina.
O governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, reagiu à dependência. “Os Estados Unidos não são uma sociedade beneficente; vieram à Argentina para lucrar e colocar nossos recursos em risco”, afirmou.
O ministro da Economia, Luis Caputo, agradeceu a parceria e declarou que “o suporte dos Estados Unidos a este rumo econômico é de vital importância para a Argentina e para a região”.
No plano interno, Milei tenta reorganizar o governo após semanas de instabilidade. Saíram o chanceler Gerardo Werthein e o ministro da Justiça Mariano Cúneo Libarona, enquanto Patricia Bullrich (Segurança) e Luis Petri (Defesa) deixaram os cargos para assumir mandatos no Legislativo.
“A liberdade requer essa ordem que estamos levando adiante”, disse Bullrich, ao defender a continuidade das políticas de repressão a protestos.
Mesmo com o avanço no Congresso, Milei enfrenta reprovação crescente e desgaste social. O apoio norte-americano reforça a política de austeridade e amplia o risco de dependência externa. O resultado eleitoral, interpretado como um voto de confiança momentâneo, mantém o governo de pé, mas não altera o quadro de instabilidade econômica nem o descontentamento nas ruas.
O cenário lembra a trajetória de Carlos Menem, que, nos anos 1990, prometeu modernização e terminou mergulhado em escândalos e desvalorização cambial. Hoje, até economistas liberais apontam que uma nova desvalorização do peso é praticamente inevitável nos próximos meses, o que ameaça corroer o capital político conquistado nas urnas.
A promessa de Milei de transformar a Argentina em “um país europeu em 15 anos” parece cada vez mais distante. A economia, ainda frágil, depende de crédito estrangeiro e de novos aportes de Washington.
A abstenção recorde e a divisão entre antikirchneristas e antimileístas evidenciam uma sociedade polarizada e um país preso entre o endividamento e o mal-estar social.
A vitória dá a Milei tempo — mas também o coloca sob tutela. Entre a dependência dos Estados Unidos e o risco de convulsão social, o presidente argentino entra na segunda metade do mandato com fôlego curto e responsabilidade ampliada.
O resultado das urnas assegura a sobrevivência política do governo, mas também explicita o preço dessa estabilidade: a entrega da soberania econômica e o aprofundamento da crise social.