Avanço israelense na Síria aprofunda crise e fragilidade pós-Assad

Com ocupação ampliada e incursões mais violentas, população de Quneitra enfrenta sequestros, ataques e destruição de suas terras

As forças israelenses tomaram e arrasaram áreas agrícolas inteiras na província de Quneitra [Captura de tela]

A vida no sul da Síria entrou em uma nova etapa de instabilidade desde dezembro de 2024, quando Israel expandiu sua presença militar após a deposição do presidente Bashar al-Assad. Em Quneitra, região historicamente marcada pela disputa sobre as Colinas de Golã, as incursões israelenses se tornaram mais frequentes, mais ousadas e mais violentas, segundo moradores e autoridades locais.

Tanques, postos de controle, torres de vigia e portões cravados no território sírio passaram a fazer parte do cotidiano. A fronteira que, por décadas, foi administrada por um delicado acordo de desengajamento firmado em 1974 — e considerado “nulo” por Israel após a queda de Assad — agora é palco de detenções, desaparecimentos e ataques repetidos a infraestrutura civil.

A estimativa de anciãos da região é que 688 hectares de terras tenham sido tomados desde então, incluindo pomares centenários e áreas de pastagem.

Detenções arbitrárias criam clima de terror: “Eles levam quem querem”

Khadija Arnous vive esse drama de forma direta. Em julho, seu marido e cunhado foram retirados de casa por soldados israelenses durante a madrugada, vendados e levados para destino desconhecido.

“Não tivemos notícias desde então. A Cruz Vermelha não consegue resposta”, disse, cobrindo o rosto por medo de represálias.

Moradores e grupos de direitos humanos classificam os casos como sequestros. Israel, por sua vez, os descreve como “operações de segurança”. Relatórios locais apontam que pelo menos 40 pessoas foram detidas nas últimas semanas.

Outros casos reforçam o padrão: o filho e o irmão de Hussain Bakr desapareceram há cinco meses. “Reclamamos à ONU e à Cruz Vermelha. Nada”, diz.

O avanço militar: torres de vigia, trincheiras e nove novos campos israelenses

Além das detenções, Israel tem reforçado sua presença com aterros, posições fortificadas e torres de vigilância. A agência Sanad, da Aljazira, confirmou a instalação de nove novos campos militares desde dezembro de 2024.

Pastores relatam que tropas israelenses têm arrasado áreas inteiras, arrancando árvores que acreditam ter séculos de idade, reconfigurando o território e inviabilizando atividades agrícolas.

Mohammad Makkiyah viveu de perto o risco. Ao se aproximar demais de um posto militar, foi alvo de um franco-atirador.
“O primeiro tiro passou perto da minha cabeça. O segundo atingiu minha perna.”

Ataques a infraestrutura e hospital destruído

O Hospital Al Jawalan, em Quneitra, sofreu repetidos ataques nos últimos anos. Imagens de satélite mostram a destruição da unidade, símbolo do impacto direto da ocupação na já precarizada infraestrutura de saúde da região.

Comunidades paralisadas: medo, êxodo e terras improdutivas

Para muitos moradores, como Mohammad Mazen Mriwed, da aldeia de Jubata al-Khashab, o medo tomou conta de atividades básicas.

“Desde a queda do regime, muitos deixaram de construir ou cultivar. A ocupação só vai acabar quando a ocupação terminar.”

A fala expõe o vácuo de governança deixado pela deposição de Assad, que abriu espaço para um movimento israelense sem precedentes desde 1967.

Governo interino pressionado: diplomacia insuficiente diante dos desaparecidos

O presidente interino da Síria, Ahmed al-Sharaa — ele próprio descendente de deslocados das Colinas de Golã — enfrenta cobrança crescente. Autoridades locais afirmam que o governo busca “soluções diplomáticas”, mas reconhecem limites.

Jamal Numairi, membro da Assembleia Popular de Quneitra, admite: “Considero-os sequestrados, não prisioneiros. A situação é dolorosa para as famílias e para nós.”

Enquanto residentes aguardam respostas, cresce a sensação de que a Síria pós-Assad não possui meios para controlar o território nem para impedir a expansão israelense.

Um conflito reconfigurado e uma região à beira do colapso

O que se vê hoje no sul da Síria é uma combinação explosiva de:

  • reconfiguração do equilíbrio militar pós-Assad;
  • avanço territorial israelense sem mediação internacional eficaz;
  • colapso econômico e social de comunidades rurais;
  • e um ciclo de detenções e desaparecimentos que lembra os piores momentos do conflito sírio.

Sem mecanismos de responsabilização e com diplomacia fragilizada, cresce o temor de que a ocupação avance sobre novas áreas — e que os desaparecidos, como o marido de Khadija Arnous, jamais retornem.

Com informações da Aljazira

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