Trump ameaça suspender imigração de “países do Terceiro Mundo”
Após morte de agente da Guarda Nacional em Washington, Trump intensifica retórica anti-imigração, promete “pausa permanente” para países que ele chama de “Terceiro Mundo” e amplia revisão de vistos.
Publicado 28/11/2025 14:23 | Editado 28/11/2025 15:06
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quinta (27) e reiterou na sexta (28) que pretende “pausar permanentemente” a imigração de todos os “países do Terceiro Mundo”. O anúncio, feito na Truth Social, veio após a morte de Sarah Beckstrom, 20, integrante da Guarda Nacional, baleada perto da Casa Branca por um atirador identificado como Rahmanullah Lakanwal, afegão que entrou no país em 2021.
Sem definir a quais nações se referia, Trump usou o termo — já abandonado na geopolítica — como parte de sua retórica anti-imigração, prometendo cancelar admissões aprovadas no governo Biden e endurecer deportações.
Tiroteio alimenta narrativa e acelera medidas
O ataque ocorreu na Praça Farragut, área turística de Washington, na véspera do feriado de Ação de Graças. Beckstrom morreu na quinta; o colega Andrew Wolfe segue ferido. O suspeito, que segundo autoridades recebeu asilo neste ano sob Trump após inicial entrada pelo programa de reassentamento de Biden, foi baleado e detido.
Trump reagiu pedindo o envio de 500 agentes federais adicionais à capital e citou o caso como prova de que imigrantes estariam “sobrecarregando” o sistema americano. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que o reforço de segurança busca garantir que Washington “seja um lugar seguro”.
Revisão de green cards e endurecimento sem precedentes
Funcionários do Departamento de Segurança Interna informaram que Trump ordenou uma ampla revisão de casos de asilo e de green cards concedidos a cidadãos de 19 países — entre eles Afeganistão, Haiti, Venezuela, Cuba e diversas nações da África e da Ásia. O Brasil não figura na lista citada à Reuters.
O governo também suspendeu por tempo indeterminado o processamento de pedidos de imigração feitos por afegãos. Mais de dois terços dos 53 mil detidos pelo ICE até 15 de novembro não têm condenações criminais, mas Trump afirmou que deportará qualquer estrangeiro considerado “risco à segurança”, “encargo público” ou “incompatível com a civilização ocidental”.
“Desnaturalização” e guerra fria
Além da “pausa permanente”, Trump prometeu acabar com todos os benefícios federais a não cidadãos e “desnaturalizar imigrantes que minam a tranquilidade doméstica”. Ele também prometeu reverter admissões aprovadas no governo Biden, que chamou de “ilegais” ou “feitas pela caneta automática” do ex-presidente.
O discurso, que ecoa termos da ultradireita global, inclui a expressão “migração reversa”, sugerindo uma política de redução acelerada das populações de imigrantes — legais ou não.
O uso da expressão Terceiro Mundo — cunhada em 1952 por Alfred Sauvy para definir países não alinhados às potências na Guerra Fria — é hoje considerado ultrapassado e frequentemente carregado de sentido pejorativo. Sauvy deixava claro que o que chama de “Terceiro Mundo” não é sinônimo de “país pobre” no sentido simplista. Mas, “o conjunto de países subdesenvolvidos, ignorados e explorados pelas duas grandes potências da Guerra Fria (EUA e URSS).”
Para Sauvy, esses países formavam um bloco próprio, distinto do capitalismo ocidental e do socialismo oriental. Eram na prática o bloco mais numeroso e mais antigo, mas tratados como irrelevantes e deixados de lado pelas disputas dos “dois mundos” dominantes.
Muitos deles, países que tinham acabado de ser descolonizados ou processos internos de guerras de independência na Ásia, África e América. Especialistas lembram que a terminologia foi ressignificada por grupos de extrema-direita como forma de hierarquizar culturas e nacionalidades com teor racista e xenofóbico.
Reações e incertezas sobre alcance da medida
A Casa Branca e o serviço de imigração não comentaram o anúncio. Trump, por sua vez, não especificou como funcionaria a suposta suspensão permanente, tampouco quais países seriam atingidos. Nos bastidores, o Departamento de Segurança Interna remeteu apenas à lista de 19 países sob revisão de green cards.
Enquanto isso, cidades americanas vivem aumento de operações migratórias; Trump busca atingir números recordes de deportações, inclusive de pessoas de longa permanência e sem antecedentes criminais.
Com a retórica reforçada pela tragédia em Washington, o governo sinaliza aprofundar a estratégia de vincular imigração — mesmo a legal — a riscos de segurança, em um dos momentos mais tensos da política migratória dos Estados Unidos.