Governo Trump desmonta calendário de vacinas pediátricas e afronta a ciência
Mudança abrupta no calendário infantil, liderada por aliados de Trump e por Robert F. Kennedy Jr., ignora evidências e pode reacender doenças já controladas
Publicado 06/01/2026 16:09 | Editado 07/01/2026 18:58
Autoridades federais de saúde dos Estados Unidos anunciaram uma revisão drástica nas recomendações de vacinação infantil. O novo calendário reduz de 17 para 11 o número de doenças prevenidas por vacinas de aplicação rotineira, em uma guinada que especialistas classificam como a mais grave ruptura da política de imunização em décadas.
A alteração foi formalizada pelo diretor interino do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Jim O’Neill, e entrou em vigor imediatamente, sem a tramitação técnica tradicional que sempre pautou decisões do órgão.
Decisão política, não científica
A mudança ocorre sob orientação direta do presidente Donald Trump e do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., conhecido por seu histórico de questionamento infundado sobre a segurança das vacinas. Diferentemente do padrão histórico, o novo calendário não passou pelo crivo do comitê independente de especialistas em imunização, responsável por avaliar evidências científicas, riscos e benefícios.
Para médicos e pesquisadores, trata-se de uma ruptura deliberada do método científico considerada alarmante, desnecessária e que coloca crianças em risco.
Vacinas rebaixadas e confusão para famílias
Pelo novo modelo, imunizações contra hepatites A e B, meningite, influenza, rotavírus e vírus sincicial respiratório deixam de ser recomendadas para todas as crianças. Passam a depender de critérios vagos de “alto risco” ou de decisão compartilhada entre pais e médicos.
Especialistas alertam que essa lógica transmite a falsa ideia de que tais vacinas são opcionais ou inseguras, o que tende a reduzir a adesão.
Doenças evitáveis voltam a ameaçar
A mudança ocorre em um contexto já preocupante. A desinformação sobre vacinas levou à queda das taxas de imunização e ao ressurgimento de doenças como sarampo e coqueluche. Em 2025, os EUA registraram o maior número de casos de sarampo desde 1993 e correm o risco de perder o status de eliminação da doença, mantido desde 2000.
Para a Academia Americana de Pediatria, a decisão terá impacto direto na saúde pública. “Não há evidência de que reduzir ou atrasar vacinas traga qualquer benefício às crianças americanas”, afirmou Sean O’Leary, dirigente da entidade.
Comparações internacionais enganosas
O governo Trump afirma que a mudança alinha os EUA a países como Dinamarca, Alemanha e Japão. Especialistas contestam. Esses países possuem sistemas universais de saúde, ampla cobertura médica e capacidade de buscar ativamente crianças em risco — condições inexistentes em grande parte do território americano.
Nos EUA, tentativas passadas de vacinar apenas grupos considerados vulneráveis fracassaram, como no caso da hepatite B, controlada apenas após a adoção da vacinação universal ao nascer.
Negacionismo com efeitos duradouros
Além de fragilizar a proteção coletiva, a nova diretriz pode afetar programas públicos, cobertura de seguros e até a permanência de fabricantes de vacinas no mercado. Para críticos, trata-se de mais um capítulo do negacionismo científico promovido pelo governo Trump, agora institucionalizado na política de saúde.
Com informações de agências