EUA abrem investigação criminal contra Powell em ofensiva judicial de Trump
Inquérito do Departamento de Justiça apura depoimento sobre reforma da sede do Fed e ocorre em meio a ações judiciais contra autoridades e críticos do governo Donald Trump
Publicado 12/01/2026 10:16 | Editado 13/01/2026 08:16
Procuradores federais dos Estados Unidos abriram uma investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, em novo episódio de ações judiciais que vêm atingindo autoridades e críticos em conflito com o governo Donald Trump.
A abertura da investigação foi revelada neste domingo (12) pelo New York Times e confirmada por Powell em comunicado oficial do Fed.
Em declaração oficial, Powell afirmou que a medida representa uma ação “sem precedentes” e deve ser compreendida no contexto de pressões e ameaças recorrentes do governo Trump.
“Ninguém — certamente nem mesmo o presidente do Federal Reserve — está acima da lei. Mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua por parte do governo”, disse.
Até a divulgação das intimações, Powell vinha evitando confrontos diretos e mantendo silêncio público diante das investidas da Casa Branca.
Ao longo dos últimos 12 meses, Trump intensificou críticas públicas ao Federal Reserve e a Jerome Powell, combinando ataques verbais, ameaças de responsabilização judicial e questionamentos sobre a condução da política monetária e da administração interna do banco central.
A investigação apura se Powell teria mentido ao Congresso ao prestar depoimento, em junho, sobre o escopo e os custos da reforma da sede do Federal Reserve, em Washington. O inquérito analisa declarações públicas do presidente do banco central norte-americano e registros de gastos do projeto, iniciado em 2022.
O caso é conduzido pelo escritório da Procuradoria dos Estados Unidos no Distrito de Columbia e foi aprovado em novembro por Jeanine Pirro. Pirro foi nomeada para o cargo no ano passado pelo presidente Donald Trump.
Promotores do gabinete da nova procuradora entraram em contato com a equipe de Powell para solicitar documentos relacionados à reforma.
A investigação envolve a reforma de dois edifícios históricos do Federal Reserve em Washington — incluindo o Marriner S. Eccles Building —, com conclusão prevista para 2027. As denúncias apontam que o custo estimado do projeto teria subido para cerca de US$ 2,5 bilhões, cerca de US$ 700 milhões acima das previsões iniciais.
No comunicado, Powell questionou abertamente a motivação da investigação e afirmou que a iniciativa não se relaciona nem ao conteúdo de seu depoimento ao Congresso, nem ao projeto de reforma da sede do banco central.
“Essa nova ameaça não tem a ver com meu depoimento em junho passado nem com a reforma dos edifícios do Federal Reserve”, declarou.
O presidente do Fed afirmou ainda que a abertura do inquérito está ligada à condução da política de juros pela instituição.
Segundo Powell, “a ameaça de acusações criminais é uma consequência de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base na nossa melhor avaliação do que servirá ao público, em vez de seguir as preferências do presidente”.
Questionado sobre o caso, Trump afirmou não ter conhecimento da investigação conduzida pelo Departamento de Justiça e voltou a atacar Powell.
“Não sei nada sobre isso, mas ele certamente não é muito bom no Federal Reserve, e não é muito bom em construir prédios”, disse o presidente à NBC News.
Trump também negou que as intimações estejam relacionadas à política de juros. “Eu nem pensaria em fazer isso dessa forma. O que deveria pressioná-lo é o fato de que as taxas estão altas demais. Essa é a única pressão que ele tem”, afirmou.
A abertura da investigação provocou reações no Congresso dos Estados Unidos, inclusive entre parlamentares do Partido Republicano.
O senador e correligionário de Trump, Thom Tillis, da Carolina do Norte, integrante da Comissão Bancária do Senado, afirmou que o episódio levanta questionamentos sobre a atuação do governo em relação ao sistema de Justiça.
“Se ainda restava alguma dúvida de que assessores dentro do governo Trump estão ativamente pressionando para acabar com a independência do Federal Reserve, agora não resta nenhuma”, disse em nota.
Tillis acrescentou que pretende se opor à confirmação de qualquer indicado de Trump para o Federal Reserve enquanto a investigação não for concluída.
A senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, fez crítica semelhante. Segundo ela, Trump busca afastar Powell do Conselho do Fed para substituí-lo por um aliado político.
“Ele quer expulsar Jerome Powell de vez do Conselho do Fed e instalar mais um fantoche para completar sua tomada corrupta do banco central americano”, declarou.
O caso envolvendo Powell ocorre em um contexto mais amplo de iniciativas judiciais que atingiram outras figuras em conflito com o governo Trump.
Nos últimos meses, denúncias contra o ex-diretor do FBI James Comey e contra a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, foram rejeitadas por um juiz federal. Já uma investigação contra o senador democrata Adam Schiff ainda não reuniu provas suficientes para ser levada a um grande júri.
O Departamento de Justiça também abriu investigação contra Lisa Cook, integrante do Conselho do Federal Reserve, sob acusações de fraude hipotecária. Cook nega as acusações, e seus advogados afirmam que ela “nunca cometeu fraude hipotecária”.