Trump reabre guerra tarifária e ameaça países que negociam com o Irã
Ofensiva comercial dos EUA pressiona parceiros de Teerã, tem China como alvo central e pode atingir Brasil e mais de 100 países em nova escalada de tarifas de Trump
Publicado 13/01/2026 11:20 | Editado 14/01/2026 16:36
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta segunda-feira (12) uma nova rodada de ameaças comerciais ao declarar que pretende impor uma tarifa de 25% sobre o comércio com os EUA de países que mantêm relações comerciais com o Irã.
A medida, apresentada de forma unilateral e sem detalhamento pela Casa Branca, pode atingir mais de 100 países — entre eles o Brasil, que movimentou quase US$3 bilhões em comércio com Teerã em 2025.
“Com efeito imediato, qualquer país que esteja fazendo negócios com a República Islâmica do Irã pagará uma tarifa de 25% sobre qualquer e todo negócio realizado com os Estados Unidos da América. Esta ordem é final e conclusiva”, escreveu o presidente norte-americano, em uma publicação na rede Truth Social.
Até o momento, porém, o governo norte-americano não divulgou decreto, ordem executiva ou esclarecimentos sobre a base legal e o alcance efetivo da medida, o que reforça o caráter de ameaça política e econômica da declaração.
O anúncio de Trump ocorre em um momento de forte instabilidade política no Irã, que enfrenta os maiores protestos antigovernamentais em anos.
As manifestações, que se intensificaram nas últimas semanas, reúnem dezenas de milhares de pessoas em diferentes regiões do país e já resultaram em centenas de mortos, entre manifestantes e agentes de segurança, segundo levantamentos de organizações internacionais.
Os protestos tiveram início no fim de 2025, em meio ao agravamento da crise econômica iraniana, marcada por inflação elevada, forte desvalorização da moeda local e pelos efeitos prolongados das sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados.
Com o avanço das mobilizações, Washington passou a utilizar a situação interna do país como argumento para ampliar a pressão política e econômica sobre Teerã.
Desde o início do ano, Trump afirmou publicamente que avalia novas medidas contra o Irã, incluindo sanções adicionais e ações militares. O presidente norte-americano declarou manter contatos com setores da oposição iraniana e não descartou novos bombardeios, reforçando a postura de confronto adotada por seu governo na região.
O governo iraniano reagiu às ameaças de Washington afirmando estar preparado para qualquer eventualidade.
Em entrevista à emissora Al Jazeera, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que o país está “preparado para qualquer ação” dos Estados Unidos, em meio às discussões internas do governo Trump sobre uma possível intervenção.
Segundo Araghchi, o nível de prontidão do Irã “é muito maior” do que no período em que os Estados Unidos realizaram ataques militares contra o país, em junho de 2025. O chanceler afirmou, no entanto, esperar que prevaleça uma saída diplomática.
“Espero que a opção sábia seja escolhida”, disse.
Para analistas críticos da política externa dos Estados Unidos, a retórica de Trump faz parte de uma estratégia de pressão sobre governos considerados obstáculos aos interesses estratégicos de Washington e de seus aliados.
No caso do Irã, essa ofensiva envolve não apenas a política interna do país, mas seu papel central no equilíbrio regional e nas articulações econômicas lideradas pela China.
Apesar de enfrentar sanções severas impostas pelos Estados Unidos há anos, o Irã mantém uma ampla rede de relações comerciais internacionais, com destaque para a China e Rússia.
Membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e detentor da segunda maior reserva de petróleo e da quarta maior reserva de gás do mundo, o país destina a maior parte de suas exportações de petróleo ao mercado chinês, que responde por mais de 90% do comércio iraniano de petróleo, segundo estimativas de analistas internacionais.
Dados oficiais do governo chinês indicam que, apenas nos primeiros 11 meses de 2025, a China exportou US$6,2 bilhões em mercadorias para o Irã e importou US$2,85 bilhões, sem contabilizar as compras de petróleo.
Caso a ameaça de Trump seja aplicada de forma ampla, a nova tarifa pode elevar para até 45% a carga tarifária efetiva sobre produtos chineses exportados aos Estados Unidos, aprofundando a escalada comercial entre as duas maiores economias do mundo e atingindo diretamente projetos estratégicos chineses, como a Nova Rota da Seda, da qual o Irã é peça central.
Caso a ameaça de Trump seja aplicada de forma ampla, a nova tarifa pode elevar para até 45% a carga tarifária efetiva sobre produtos chineses exportados aos Estados Unidos, aprofundando a escalada comercial entre as duas maiores economias do mundo.
Turquia, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Índia também estão entre os principais destinos das exportações iranianas.
Dados de monitoramento do comércio internacional indicam que mais de uma centena de países realizaram algum tipo de intercâmbio com Teerã em 2025, o que amplia significativamente o alcance potencial da nova rodada de tarifas anunciada por Trump.
O Brasil figura entre os países que mantêm comércio regular com o Irã. Em 2025, o intercâmbio bilateral movimentou quase US$3 bilhões, com exportações brasileiras concentradas principalmente em produtos do agronegócio, como grãos e oleaginosas.