O desafio da indústria brasileira diante da ratificação do acordo Mercosul-UE

Pacto entre Mercosul e União Europeia avança no Senado; PCdoB aprova acordo como “movimento tático” e defende indústria nacional

Marcos Oliveira: Agência Senado e Freepik | Fonte: Agência Senado

A confirmação da vigência provisória do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, anunciada nesta sexta-feira (27) pela Comissão Europeia, consolida um percurso pavimentado com pragmatismo pela diplomacia dos blocos. A decisão de Bruxelas ocorre em sintonia com a celeridade das ratificações pelo Uruguai e pela Argentina, refletindo a expectativa do governo brasileiro de que a integração regional é o caminho para enfrentar as instabilidades da geopolítica global. 

No Brasil, o cronograma avança dentro da normalidade institucional: após o aval da Câmara dos Deputados ao PDL 41/2026 na última quarta-feira (25), o Senado Federal prepara-se para concluir a votação em março. O texto seguirá então para a sanção do presidente Lula, que enxerga no pacto uma oportunidade estratégica de inserção internacional, desde que rigorosamente acompanhada por mecanismos de proteção à base produtiva nacional.

O destino da produção nacional frente ao mercado comum

O Brasil mantém-se como o principal polo industrial da América do Sul, ostentando a cadeia fabril mais integrada e diversificada da região. Entretanto, o setor enfrenta o desafio histórico de reverter a desindustrialização precoce iniciada na década de 1980, período em que a participação da manufatura no PIB entrou em trajetória de declínio. 

Dados econômicos demonstram que a indústria é um componente vital para a estabilidade macroeconômica, sendo responsável por gerar empregos de alta qualificação, reter tecnologia de ponta e garantir as divisas necessárias para o equilíbrio das contas externas e o fortalecimento das reservas cambiais. A implementação do acordo coloca esse patrimônio produtivo em uma arena de competição direta com o bloco europeu, que detém alta produtividade e subsídios tecnológicos. Para analistas do setor, a abertura comercial exige que o país estruture políticas que impeçam a regressão da pauta exportadora a um perfil meramente primário. 

As projeções indicam que o acordo pode elevar as exportações brasileiras para a UE em aproximadamente US$ 7 bilhões anuais, após a corrente comercial ter superado os US$ 100 bilhões em 2025. Contudo, a indústria precisará absorver um aumento projetado de 2,4% ao ano nas importações europeias, o que pressionará segmentos de alta tecnologia, como máquinas, equipamentos e produtos farmacêuticos.

O xadrez da inserção da indústria no cenário mundial e a posição do PCdoB

A desoneração tarifária prevista no tratado ocorre de forma escalonada. Para bens de capital e insumos fundamentais, a tarifa zero será imediata, visando reduzir custos de produção e facilitar a modernização das fábricas brasileiras. Para os produtos manufaturados considerados sensíveis, o acordo estabelece um período de transição de 10 a 15 anos. Esse hiato temporal constitui o prazo técnico para que o parque industrial nacional recupere competitividade. Por outro lado, a União Europeia mantém salvaguardas agrícolas rigorosas, permitindo a reintrodução de tarifas caso as exportações do Mercosul ameacem seus produtores internos.

Essa assimetria motiva a posição multilateral e crítica manifestada pelo PCdoB em nota política divulgada na segunda-feira (24). O partido classifica o acordo como um “movimento tático necessário” diante da pesada ofensiva neocolonial do governo de Donald Trump contra a América Latina, que busca converter a região em um “quintal da Casa Branca” com o apoio de uma “quinta-coluna” interna. Para a legenda, o pacto ganha relevância ao preservar o Mercosul frente às ameaças de ruptura e à vassalagem explícita da Argentina de Javier Milei aos interesses estadunidenses.

O PCdoB reconhece os esforços do governo Lula em mitigar os danos ao setor produtivo por meio do chamado “pacote de Brasília”. Essa articulação, negociada entre 2023 e 2024, foi fundamental para preservar instrumentos de soberania que haviam sido entregues em negociações anteriores, garantindo a autonomia do financiamento público via BNDES e Finep, além de manter o uso do poder de compra do Estado em áreas sensíveis como o Sistema Único de Saúde (SUS).

Contudo, a legenda mantém o alerta de que o tratado ainda reproduz assimetrias que pressionam a indústria nacional, além de impor barreiras não tarifárias ao agronegócio. Para o PCdoB, o Brasil não deve se render à retórica ideológica do “livre comércio”, mas sim aproveitar o período de transição tarifária para empreender um salto de qualidade na reindustrialização por meio da política Nova Indústria Brasil (NIB).

O documento conclui que a integração internacional deve servir à recomposição de um projeto nacional de desenvolvimento, exigindo vigilância constante e medidas de defesa comercial equivalentes às praticadas pelas potências globais. Como define a Comissão Executiva Nacional: “A defesa da indústria nacional não é apenas uma pauta econômica, é uma questão de sobrevivência soberana. O Brasil precisa de medidas de defesa comercial equivalentes às europeias para que o livre mercado não se torne uma via de mão única.”

Neoindustrialização: o Escudo da Nova Indústria Brasil (NIB)

Para equilibrar o jogo e assegurar a competitividade nacional, o governo federal aposta na política Nova Indústria Brasil (NIB). Coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), sob a liderança do vice-presidente Geraldo Alckmin, e com o apoio fundamental do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), comandado pela ministra Luciana Santos, a NIB busca fortalecer cadeias estratégicas como a agroindustrial, o complexo da saúde e a infraestrutura.

Essa articulação integra a transformação digital e a bioeconomia à soberania nacional, utilizando o Plano Mais Produção (P+P) para conferir fôlego financeiro à estratégia que destina mais de R$ 300 bilhões em recursos do BNDES, Finep e Embrapii a financiamentos e incentivos que permitem à indústria brasileira enfrentar a concorrência europeia em patamares mais equânimes.

Vigência sob Vigilância: o Cenário em Bruxelas

Mesmo diante da oposição contundente da França, que buscou obstruir o pacto em defesa de seu protecionismo agrícola, a União Europeia optou pela aplicação provisória por entender que a parceria consolida uma zona de livre comércio para 720 milhões de pessoas. A declaração de Ursula von der Leyen sobre a irreversibilidade do compromisso reforça o caráter estratégico da aliança. 

Para o Brasil, a sanção presidencial em março marcará o início de uma fase de vigilância ativa. O objetivo central é assegurar que o país utilize o tempo de desoneração escalonada para transformar o “respiro” tarifário em um salto qualitativo de competitividade, garantindo que o valor agregado e a inteligência produtiva permaneçam, de forma soberana, em solo brasileiro.