Bloqueio dos EUA ameaça a vida de 3 mil cubanos em hemodiálise
Falta de energia e combustível, agravadas por sanções americanas, põem em risco tratamento de pacientes renais que dependem de máquinas e transporte regular
Publicado 10/03/2026 14:57 | Editado 10/03/2026 15:32
“Estou em tratamento desde 2020, na pandemia. Chega um momento em que você fica deprimido, chora porque é uma mudança de vida. Mas com o tempo você aprende a amar a máquina. Dependo dela, e se não houver combustível, ninguém aqui poderá fazer hemodiálise”. O desabafo de Zurama, paciente do Instituto de Nefrologia Dr. Abelardo Buch López, em Havana, sintetiza o drama vivido por mais de 3 mil cubanos que dependem de terapia renal substitutiva — e cujas vidas estão sendo ameaçadas pelo endurecimento do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.
A hemodiálise é um tratamento vital que substitui a função dos rins, filtrando o sangue para remover resíduos, toxinas, excesso de sal e líquidos em casos de insuficiência renal aguda ou crônica grave. Utiliza uma máquina (dialisador) que filtra o sangue retirado por um acesso vascular (fístula ou cateter), devolvendo-o limpo. As sessões duram cerca de 3-4 horas, geralmente 3 vezes por semana.
Para Julio César Candelaria Brito, chefe do serviço, o funcionamento adequado exige encarar o tratamento como um sistema complexo: transporte, saúde — “que não se resume à diálise, mas inclui medicamentos e suprimentos” — e apoio espiritual. “É preciso ter muita empatia. É um tratamento que luta constantemente contra a morte”, afirma
Combustível escasso, vidas em suspenso
Cuba possui 57 unidades de hemodiálise, com mais de 3 mil pacientes. Somente no instituto de Havana, 45 pessoas dependem do tratamento. Teoricamente, todos deveriam ser buscados diariamente em casa por táxis agendados com o Ministério dos Transportes. Na prática, a escassez de combustível transforma esse processo aparentemente simples em um desafio logístico diário.
“Estamos esperando o caminhão chegar hoje para garantir que possamos começar a sessão de hemodiálise de amanhã”, explica Julio César. As entregas de suprimentos, que antes eram quase diárias, agora chegam em pequenos lotes. Cada gota de diesel conta.
A empresa de táxi tentou adaptar-se, combinando pacientes de áreas adjacentes em um único turno. Mas há um custo humano: muitos pacientes renais precisam de acompanhantes porque o tratamento os debilita. “Esse acompanhante não pode mais vir no carro”, lamenta o enfermeiro José Carlos Castillo Curbeco. “Na verdade, há pacientes que não conseguem chegar aqui, e muitas vezes os recebemos no pronto-socorro, porque se não vierem por um único dia, suas vidas correm risco”.
Não realizar a hemodiálise quando indicada é uma situação grave e fatal, pois leva ao acúmulo de toxinas (como ureia e potássio) e líquidos no organismo. As consequências imediatas incluem edema pulmonar (água no pulmão), arritmias cardíacas, falta de ar, hipertensão e complicações sistêmicas que podem causar morte em poucos dias.
Eletricidade: o fio que sustenta a vida
As máquinas de diálise exigem fornecimento constante de eletricidade. Sem energia estável, não há tratamento. Dairy Rodríguez Barreto, enfermeira-chefe, é categórica: “Essas máquinas têm baterias, mas são antigas, não duram muito. Seria muito difícil trabalhar sem eletricidade. Sem hemodiálise, os pacientes poderiam morrer”.
O processo é complexo: a água precisa ser desionizada para remover elementos que possam causar infecção, e as fábricas que realizam esse processo também dependem de energia constante. A máquina monitora parâmetros vitais — condutividade, fluxo sanguíneo, taxa de filtração — enquanto um filtro cilíndrico com membrana semipermeável facilita a troca: o sangue flui para baixo, o fluido de diálise sobe, circulando em direções opostas.
Yamilé García Villar, diretora do instituto, tem um olhar que dispensa explicações. “Tivemos períodos de avarias no sistema de tratamento de água, o que levou a atrasos. Nessas circunstâncias, a equipe técnica foi mobilizada e a diálise recomeçou mais tarde, terminando às 4 da manhã”. Apesar das tensões, ela garante: “O programa não foi interrompido em nenhum momento”.
Equipamentos envelhecidos, manutenção impossível
Os rins artificiais são projetados para funcionar por cerca de cinco anos e precisam de manutenção anual. Mas as limitações econômicas e financeiras impostas pelos Estados Unidos impedem que essa operação seja realizada de forma eficaz. Resultado: as máquinas de hemodiálise sofrem avarias com mais frequência.
“Existe o receio de que não haja continuidade no tratamento, mesmo sabendo da vontade política, do comprometimento da equipe”, reconhece Yamilé. “Todas as doenças têm um componente psicológico, e a certeza de que o tratamento está garantido proporciona bem-estar. Quando existem ameaças reais e palpáveis, o paciente sente medo”.
Armando, motorista que também é paciente há quatro anos, personifica essa dedicação: “Para mim, é só isso, não importa a que horas eu vá embora”. Ele foi colocado em uma “função de batalhão de emergência”: se um veículo avaria, ele é chamado. “Até recentemente, eu levava um paciente para o Hospital Militar, mas com todos os problemas com a gasolina, não faço mais isso. É muito longe”.
“Crise humanitária catastrófica”
O ministro da Saúde de Cuba, José Ángel Portal Miranda, foi direto em entrevista à Associated Press: as sanções dos EUA já não estão apenas prejudicando a economia da ilha, estão ameaçando a “segurança humana básica”. “Não se pode prejudicar a economia de um Estado sem afetar seus habitantes. Esta situação pode pôr vidas em risco”, alertou.
Segundo a agência de notícias, 5 milhões de pessoas em Cuba que vivem com doenças crônicas verão seus medicamentos ou tratamentos afetados. Entre eles, 16.000 doentes com câncer que necessitam de radioterapia e outros 12.400 que fazem quimioterapia. Os cuidados cardiovasculares, a ortopedia, a oncologia e o tratamento de pacientes em estado crítico que necessitam de apoio elétrico estão entre as áreas mais afetadas.
A crise energética atingiu novos extremos depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva impondo tarifas a qualquer país que venda ou forneça petróleo a Cuba. A medida veio poucas semanas após Trump ter deposto o presidente venezuelano Nicolás Maduro numa intervenção militar e anunciado que o petróleo venezuelano deixaria de ir para Cuba.
Cuba produz apenas 40% de seu próprio combustível e depende de aliados como Venezuela, México e Rússia para colmatar seu déficit energético. Mas esses fornecimentos estão acabando.
Gestantes e crianças na linha de fogo
Quase 33 mil mulheres grávidas enfrentam riscos desnecessários devido ao endurecimento do bloqueio energético, informou o Ministério da Saúde Pública (Minsap). As restrições afetam principalmente o Programa de Assistência Materno-Infantil, com limitações no acesso a ultrassonografias obstétricas e estudos genéticos essenciais para diagnóstico precoce de malformações.
O bloqueio também dificulta a mobilização das comissões médicas encarregadas de avaliar casos de morbidade materna extremamente grave e recém-nascidos em estado crítico, além de causar atrasos nos calendários de vacinação infantil. “Essas interrupções podem impactar significativamente os 61.830 bebês com menos de um ano de idade que necessitam de cuidados especiais”, alertaram as autoridades.
O atendimento a crianças com necessidades específicas — ventilação domiciliar, aspiração mecânica, ar-condicionado — está comprometido devido ao fornecimento instável de energia e à disponibilidade limitada de transporte médico de emergência.
Resposta cubana: priorizar o essencial
Diante do cenário, o sistema de saúde cubano adotou medidas estratégicas: consolidação dos serviços essenciais, fortalecimento do programa médico e de enfermagem de família, priorização da saúde materno-infantil e redução das internações hospitalares quando clinicamente viável. O nível de atividade cirúrgica também será reduzido, priorizando apenas intervenções de emergência, enquanto se garante o atendimento a pacientes com doenças crônicas, incluindo os que necessitam de hemodiálise.
“Os profissionais de saúde mantêm seu compromisso de garantir o atendimento à população, priorizando os casos mais vulneráveis e reorganizando os recursos”, assegurou o Minsap.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, descreveu as ações do governo Trump como uma “tentativa brutal de estrangular energeticamente a ilha” e afirmou que só negociará com Washington em pé de igualdade, com base no respeito, recusando-se a aceitar acordos que ponham em causa a soberania do país.
Quando a política vira sentença de morte
No Instituto de Nefrologia de Havana, Zurama aprendeu a “amar a máquina” que a mantém viva. Julio César luta contra a morte com empatia e recursos escassos. Armando dirige até tarde, mesmo sendo paciente. Yamilé supervisiona corredores com olhar cansado mas determinado.
São rostos de uma estatística: 3 mil vidas em hemodiálise. Mas também são símbolos de uma realidade mais ampla: quando sanções econômicas são usadas como arma geopolítica, quem paga o preço mais alto são os civis — os doentes, os vulneráveis, os que só querem sobreviver.
Com informações do Granma