Sirat: o deserto como travessia de um mundo em colapso

Oliver Laxe captura o zeitgeist apocalíptico através de uma travessia sensorial e mítica, onde a guerra não se mostra, mas se sente em cada imagem árida e desencantada

Sirat expressa de forma literal o campo minado em que nunca se sabe quem será o próximo povo a ser atingido pelo terrorismo de estados imperialistas

Há filmes que contam histórias. Há filmes que provocam sensações. E há Sirat, de Oliver Laxe, que faz algo mais raro: transforma o espectador em testemunha de um mundo que já passou do ponto de retorno. Não se trata de um filme sobre o fim dos tempos, mas sobre o que vem depois — esse estado liminar em que seguimos caminhando mesmo quando tudo ao redor já desmoronou.

Sirat é mais um desses filmes contundentes da temporada do Oscar 2026, preterido em favor do norueguês Valor Sentimental, o filme íntimo e suave, que pouca sensação causou em meio à urgência do mundo mergulhado em guerras e governos fascistas em ascensão. Se o Agente Secreto tinha algo muito atual a dizer sobre nossos destinos, o tunisiano A voz de Hind Rajab e o iraniano Foi apenas um acidente, completam a lista de filmes que captam o espírito do tempo e serão lembrados no futuro, se sobrevivermos a 2026.

A travessia como alegoria do nosso tempo

O título evoca o conceito islâmico do Sirat: a ponte finíssima que separa o paraíso do inferno, um caminho estreito onde cada passo pode significar salvação ou queda. No filme de Laxe, essa ideia não é ilustrada, mas dissolvida em experiência. Acompanhamos um pai (Sergi López) e seu filho em busca da filha perdida, atravessando um deserto marroquino onde uma rave de música eletrônica parece oferecer um território livre. Ali se ensaia uma utopia mínima: corpos que dançam, comunidades provisórias, uma tentativa de suspender o mundo.

O que Laxe filma não é uma aventura, mas uma alegoria do nosso presente: um mundo onde conflitos se multiplicam sem nome, onde a escassez de combustível dita os movimentos, onde a solidariedade surge como frágil resistência contra a desconfiança estrutural. O filme opera com uma estratégia decisiva: a guerra nunca é mostrada diretamente. Ela existe como ruído, como informação fragmentária, como presença invisível — e, por isso mesmo, total. 

É nesse ponto que Sirat captura com precisão o espírito do tempo. Não se trata de uma guerra localizada, com fronteiras claras, mas de um estado de conflito permanente, globalizado, difuso. Um mundo onde a violência deixou de ser evento para se tornar ambiente. É essa naturalização da catástrofe que torna Sirat tão perturbadoramente contemporâneo. Quando o colapso se torna banal, ele já venceu.

Um cinema que sente, não que explica

Laxe recusa o didatismo. Em vez de verbalizar o comentário político, ele aposta na matéria bruta das imagens: planos longos que nos obrigam a contemplar o vazio, ângulos que escondem o horizonte, uma textura granulada de película 16mm que confere às imagens uma qualidade quase tátil. 

O som — a batida incessante da música eletrônica, o vento, o silêncio — não é trilha, é narração. Não funciona como fuga, mas como anestesia. Um ruído contínuo que tanto conecta quanto entorpece. Não há catarse, apenas repetição.

É um cinema sensorial no sentido mais radical: a imagem não explica, ela atinge. O espectador não apenas vê a exaustão dos personagens, mas a sente no próprio corpo. É um cinema que abandona a explicação e aposta na imersão sensorial como forma de pensamento.

Essa escolha estética é também política: num tempo em que o cinema muitas vezes se curva à literalidade, Sirat confia na potência do implícito, na capacidade da experiência audiovisual de comunicar o que palavras não conseguem capturar.

O zeitgeist do apocalipse difuso

Há algo de profundamente atual na atmosfera de Sirat: a sensação difusa de que o mundo entrou numa fase de deterioração contínua. Guerras que se estendem sem resolução, crises energéticas, deslocamentos forçados, colapsos ambientais — tudo isso não aparece como manchete, mas como paisagem.

Talvez o gesto mais perturbador do filme seja sugerir que o apocalipse não está por vir — ele já aconteceu, e seguimos vivendo dentro dele. Sirat não pergunta como evitar o fim. Pergunta como existir depois dele. E a resposta que oferece é incômoda: seguimos — não porque haja esperança, mas porque ainda não sabemos parar.

O filme captura o zeitgeist de uma era marcada por um apocalipse lento, fragmentado, cotidiano. A jornada de seus personagens não é heroica — é sobrevivente. Não há épica, apenas persistência. E é justamente essa recusa do heroísmo que torna o filme tão desencantador: não há redenção à espera, apenas a lucidez de seguir em frente mesmo quando o sentido se esvai.

Mito e matéria: a ponte sobre o abismo

A alegoria do Sirat se materializa em múltiplas camadas. Há a travessia física pelo deserto, árdua e imprevisível. Há a travessia simbólica entre conexão e isolamento, esperança e desespero. E há a travessia ética: a escolha entre desconfiança e solidariedade num mundo que nos ensina a esperar o pior do outro.

Laxe não ilustra o mito; ele o encarna. Poeira, vento, calor, corpos em exaustão — tudo compõe uma experiência quase ritualística. A rave no deserto não é festa, é cerimônia: um espaço onde pessoas buscam, através da música e do transe, uma conexão com algo que o mundo lá fora parece ter destruído. Mas mesmo esse território aparentemente livre já está minado — literal e simbolicamente.

O desencanto como diagnóstico

O que resta ao final de Sirat não é esperança, mas lucidez. O filme recusa qualquer consolo fácil, qualquer transcendência redentora. Sua força está justamente na recusa de oferecer saídas: o desencanto aqui não é apatia, mas diagnóstico. Esse desencanto é, paradoxalmente, a forma mais honesta de olhar para o presente. Um tempo em que guerras se expandem, governos autoritários avançam e o futuro se torna cada vez mais opaco.

Oliver Laxe constrói, assim, um cinema que não quer salvar o mundo — quer apenas mostrá-lo como ele é: exausto, fragmentado e perigosamente próximo do abismo. Sirat é menos um filme sobre o fim do mundo e mais sobre o que vem depois: esse estado indefinido em que seguimos vivendo, mesmo quando tudo ao redor já desmoronou.

E é justamente aí que reside sua potência incômoda: ao transformar o colapso em experiência sensorial e mítica, o filme nos obriga a encarar uma pergunta que preferiríamos não fazer — quanto desse apocalipse já é, silenciosamente, o nosso presente?

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