China observa Trump errar e aposta na paciência para tirar vantagem
The Economist analisa como Pequim vê na guerra com Irã oportunidade para enfraquecimento dos EUA sem precisar intervir diretamente. Revista aponta erros estratégicos e vê Xi Jinping capitalizando disputa global
Publicado 02/04/2026 14:56 | Editado 07/04/2026 08:27
A nova capa da The Economist, que será publicada nesta sexta-feira (3), sintetiza em linguagem visual um diagnóstico geopolítico: o presidente chinês Xi Jinping sorrindo atrás de Donald Trump, acompanhada da citação estratégica “Nunca interrompa seu inimigo quando ele está cometendo um erro”. A matéria principal já divulgada revela como a China está posicionando-se frente à ofensiva militar americana contra o Irã.
A escolha remete a uma máxima atribuída a Napoleão Bonaparte e indica o eixo central da análise: a China não precisa vencer diretamente os Estados Unidos — basta administrar o tempo enquanto Washington se desgasta.
A matéria principal explica que conversou com diplomatas, assessores, acadêmicos, especialistas e autoridades em exercício e outras que já deixaram os cargos na China, que consideram a guerra no Irã um grave erro norte-americano. “Muitos chineses dizem que a guerra acelerará o declínio dos Estados Unidos. Eles veem a agressão americana como uma validação do foco do presidente Xi Jinping na segurança em detrimento do crescimento econômico”, diz o texto.
Guerra do Irã como catalisador do declínio americano
“A guerra contra o Irã prometia mudar o Oriente Médio, enfraquecendo um regime perverso e frustrando suas ambições nucleares. Para seus defensores mais fervorosos, a guerra também mudaria o mundo, intimidando uma China em ascensão. Mostraria como o controle americano sobre o fluxo de petróleo torna a China vulnerável. E reforçaria a dissuasão, contrastando a supremacia militar americana com a relutância ou incapacidade da China em defender seus aliados”, diz o primeiro parágrafo, antecipando o amplo fracasso em todas as frentes.
Segundo a análise da publicação, a China avalia que a guerra contra o Irã prometia mudar o Oriente Médio, mas acabou se tornando um erro estratégico dos EUA. A revista nota que “a China está aproveitando os erros de Trump na guerra com o Irã”, aplicando literalmente o princípio de não interromper o adversário em seus equívocos.
Trump criticou muito os democratas durante a campanha eleitoral pelos conflitos em que os americanos se envolveram no Oriente Médio. “Tudo isso desviaria a atenção dos Estados Unidos da Ásia Oriental, onde, se a China conseguir o que quer, o século 21 será moldado”, escreveu a Economist.
A publicação destaca que a guerra no Irã está enfraquecendo Trump – e deixando-o mais furioso. Embora Trump afirme ter “destruído 100% da capacidade militar do Irã”, os remanescentes continuam causando caos, quebrando promessas de campanha de evitar guerras e reduzir preços.
A estratégia paciente de Pequim
Em contraste, Xi Jinping é retratado como adepto de uma abordagem de longo prazo, baseada em expansão econômica gradual, fortalecimento de cadeias produtivas próprias, ampliação de influência no Sul Global e evitação de confrontos diretos desnecessários.
A China, segundo a análise, aposta na erosão progressiva da hegemonia americana, em vez de uma ruptura abrupta. E o efeito colateral é o aumento do prestígio chinês entre aliados e adversários.
A revista argumenta que o cenário atual não é de guerra aberta, mas de competição sistêmica. Nesse contexto, decisões impulsivas — especialmente no campo comercial e diplomático — tendem a favorecer o rival mais disciplinado.
A frase da capa funciona, portanto, como advertência: ao agir de forma reativa, Donald Trump pode estar criando vantagens estratégicas para Pequim.
Erros autoinfligidos dos EUA
A reportagem sustenta que a principal vantagem chinesa hoje não decorre apenas de sua força econômica ou tecnológica, mas da sucessão de decisões erráticas dos EUA.
Entre os pontos destacados estão as oscilações estratégicas na política externa, o uso excessivo de sanções e tarifas, com efeito colateral sobre aliados, as dificuldade em construir coalizões estáveis e a polarização interna que fragiliza a previsibilidade americana.
A leitura é que esses movimentos reduzem a capacidade dos EUA de liderar a ordem internacional que eles próprios estruturaram.
Impactos globais e reposicionamento de aliados
Outro ponto central da reportagem é o efeito dessas dinâmicas sobre o restante do mundo: países aliados dos EUA buscam maior autonomia, economias emergentes ampliam relações com a China e instituições multilaterais enfrentam crescente fragmentação
“Essa guerra também preocupará os países que dependem dos Estados Unidos. Não só seu aliado se tornou menos confiável, como eles estão pagando por sua impulsividade com energia e matérias-primas caras. Será que os países asiáticos, portanto, se tornarão mais cautelosos em ofender a China?”, diz o texto.
O resultado é um sistema internacional mais fluido, no qual a influência americana já não é automática.
Cegueira estratégica chinesa
A análise da The Economist aponta que, apesar de toda a análise cuidadosa, a China possui um “ponto cego estratégico”. Especialistas e autoridades chineses são unânimes em afirmar que os EUA estão atacando o Irã porque se sentem fracos, não fortes, e que a falta de estratégia de Trump condena a iniciativa ao fracasso.
Ao mesmo tempo, as fontes consultadas pela revista ponderam que, se a guerra se prolongar, os danos às exportações e à economia chinesa aumentarão. Além disso, “um planeta instável seria desconfortável para a China”.
A publicação sugere que a China pode estar subestimando como a guerra também afeta suas próprias vulnerabilidades estratégicas, particularmente no que diz respeito ao acesso a petróleo e rotas comerciais no Oriente Médio. Apesar deste ponto de vista da revista, mundo afora, analistas avaliam que adversários dos EUA como China e Rússia só colheram benefícios desta guerra até o momento. Enquanto aliados, como Europa, países do Golfo ou Japão, só contabilizam prejuízo, muitas vezes, permanente.
O esforço de Xi Jinping para “proteger a China do fechamento de pontos de estrangulamento”, com a criação de uma reserva estratégica de 1,3 bilhão de barris de petróleo bruto, seria suficiente para vários meses. Além disso, o governo chinês teria diversificado a geração de energia para fontes nucleares, solares e eólicas, mantendo o uso de carvão extraído internamente. Sua indústria baseada em energias renováveis tem sido extraordinariamente acessada por países interessados em reduzir sua dependência do petróleo.
Oportunidade sem intervenção direta
O cerne da estratégia chinesa, segundo a revista, é permitir que os EUA se desgastem militar, econômica e politicamente no conflito iraniano sem que a China precise tomar uma posição direta que a coloque em confronto com Washington. É a aplicação prática da paciência estratégica: deixar o adversário cometer erros por conta própria.
A China argumenta que seu foco inabalável no desenvolvimento econômico a torna um parceiro confiável, enquanto os EUA se envolvem em aventuras militares questionáveis. A revista sugere que a China deve colher vantagens econômicas inclusive nos EUA, inclusive era relação à diplomacia por Taiwan.
Um alerta estratégico disfarçado de capa
A matéria ocorre em um momento tenso das relações bilaterais. Trump quis adiar sua próxima cúpula com Xi Jinping, citando as demandas da guerra do Irã. Mesmo assim, analistas preveem que as relações EUA-China permanecerão amplamente estáveis durante grande parte de 2026, apesar das tensões subjacentes.
A cobertura da The Economist reflete uma compreensão de que a China vê na guerra do Irã não apenas um desafio, mas uma oportunidade geopolítica – desde que mantenha a disciplina estratégica de não intervir prematuramente. A revista pontua também que a guerra criará oportunidades para a China, pois os países impactados pelo conflito precisarão reconstruir sua infraestrutura atacada, inclusive os aliados de Trump no Golfo.
Mais do que uma crítica pontual, a análise da The Economist funciona como um alerta às elites ocidentais: a disputa com a China pode ser decidida menos pela força direta e mais pela capacidade de evitar erros estratégicos.
Na leitura da revista, enquanto Washington tropeça, Pequim observa — e avança.