Lula detona grande mídia e diz que aconselhou Moraes sobre Caso Master

Presidente critica manipulação contra ele, sobretudo por parte da Globo, e conta ter dito a Moraes que não permitisse que o caso Master jogasse fora biografia do ministro

Foto: Ricardo Stuckert

Em entrevista contundente nesta quarta-feira (8), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poupou a grande mídia e a extrema direita em relação ao banco Master. Criticou o “Power Point” manipulado da GloboNews que o colocava como figura central do esquema, lembrou que foi no governo de Jair Bolsonaro que o Master foi autorizado a operar e revelou ter aconselhado o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre como se portar frente ao caso. 


A entrevista foi concedida ao jornalista Leandro Demori e ao economista Eduardo Moreira, do ICL Notícias, no Palácio do Planalto.

Sobre a apresentação manipulada de Power Point que o programa Estúdio i, da GloboNews, exibiu recentemente — colocando Lula como personagem central da trama envolvendo o Master e omitindo nomes da direita apontados nas investigações — o presidente Lula salientou: “Fiquei indignado com aquele Power Point que a GloboNews fez. Aquilo é anti-jornalismo e aconteceu o que se previa: jogaram a culpa no coitado, pegaram o que fosse o mais coitado, e disseram ‘foi ele que fez’. Eu queria ter uma conversa muito séria para perguntar para o cara qual a conexão do Lula com o Master”.

Lula falou, na sequência, sobre reunião que teve com o banqueiro Daniel Vorcaro, no final de 2024: “O cidadão pediu conversa comigo, e eu atendo muita gente aqui. E eu disse a ele, textualmente, o seguinte: ‘você está sendo acusado, você diz que é inocente. O que posso garantir é que a apuração será 100% técnica, não haverá política neste meio’. E é assim que está acontecendo. Aí, colocam uma bandeira do PT (no Power Point, para indicar suposta ligação do partido com o banqueiro)”.

Nesse momento, o presidente recordou de dois episódios emblemáticos envolvendo manipulação engendrada pela grande mídia, em especial a Globo, nas eleições de 1989 para que Lula não vencesse Fernando Collor de Mello. “Eu me lembrei do sequestro do Abílio Diniz em 1989”, comparou.

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O crime ocorreu às vésperas do segundo turno da eleição presidencial daquele ano. Na ocasião, os sequestradores do empresário foram apresentados pela polícia vestindo camisetas do PT. Além disso, a Polícia Civil de São Paulo afirmou ter encontrado material de campanha do presidente na casa utilizada pelos criminosos. “Quer dizer, depois de tantos anos, isso continua?”, questionou.

Lula também recordou a edição criminosa do último debate da Globo naquela mesma eleição, feita para beneficiar o então “caçador de marajás” e prejudicar o candidato petista. “Pensa que eu não sei o que o Alberico (de Souza Cruz, então diretor de jornalismo da emissora) fez comigo em 1989, naquela montagem do debate?”, declarou.

E prosseguiu: “Pensa que eu não sei que não teve debate em 1994 e 1998 porque era o Fernando Henrique Cardoso o candidato e não podiam ‘expor’ o Fernando Henrique Cardoso? Agora, quando o Lula não foi ao debate, colocaram a cadeira vazia”.

O presidente também classificou como “podridão” as sucessivas tentativas da revista Veja de desqualificá-lo ao longo dos anos e narrou um encontro que teve com o então dono da Editora Abril, responsável pela publicação, Roberto Civita.

“Fui visitar o Civita no Hospital Sírio-Libanês (onde Lula fazia exames). Dona Marisa ficou na porta (do quarto). E ele falou: ‘eu sei que sua esposa não quer entrar porque ela tem raiva de mim porque eu menti sobre o filho dela e não pedi desculpas”, disse Lula em alusão a uma das capas que trazia insinuações contra o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva. “Querem fazer isso outra vez agora, tentando envolvê-lo no caso do INSS”, completou o presidente.

O Master e o governo Bolsonaro

Ainda sobre o caso Master, Lula declarou: “em nosso governo, o meu diretor-geral da polícia Federal, Andrei Rodrigues e meus ministros (da Justiça) — tanto ao Flávio Dino, quanto ao (Ricardo) Lewandowski e ao Wellington (Lima e Silva) — eu falei o seguinte: não tem limite para apurar a corrupção. Seja quem for, envolva gente do governo ou não, tem que apurar porque a sociedade tem de saber quem é o sacana que está tentando ganhar dinheiro às custas do povo brasileiro”.

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Lula também lembrou que os esquemas do Master tiveram início no governo de Jair Bolsonaro (PL). “O Ilan (Goldfajn), ex-presidente do BC, recusou autorizar o Banco Master — isso foi em fevereiro de 2019. Em setembro, o Roberto Campos Neto (que assumiu como presidente do BC) o legalizou. E todas as falcatruas que tem na árvore genealógica do Master tem o que? O governo Bolsonaro, o (Paulo) Guedes e os ministros dele”.

Lula também afirmou que “em quatro anos, no governo Bolsonaro, a Polícia Federal fez 6,5 mil operações. No nosso governo, até agora, foram feitas 10 mil operações. Porque agora é palavra-de-ordem: a PF tem independência na sua ação. E a gente não se mete na apuração. O que eu digo para os delegados é: não mintam, não façam pirotecnia, porque quando você acusa publicamente uma pessoa sem prova, você destrói a vida dela. É preciso ter respeito pelo ser humano”.

STF

Questionado sobre se relações entre ministros do STF e Daniel Vorcaro apontadas nas investigações — como o uso de jatinho do banqueiro e o trabalho do escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, para o Master — ferem a imagem do Supremo, Lula respondeu: “Prejudica. Obviamente, o companheiro Alexandre de Moraes sabe que prejudica a imagem. Você pode ter uma coisa que é legal, mas nas circunstâncias em que acontecem, aos olhos do povo, o povo trata como se fosse algo imoral”.

Lula contou, na sequência, ter dito “ao companheiro Alexandre de Moraes: você construiu uma biografia histórica neste país com o julgamento do 8 de Janeiro. Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a tua biografia. Primeiro porque você não estava advogando no seu escritório há quase 15 anos, porque você foi secretário de Justiça, ministro do (Michel) Temer…Mas, se a sua mulher estava advogando, diga textualmente: ‘a minha mulher estava advogando; e aqui na Suprema Corte, casos relacionados à minha mulher, eu me sentirei impedido de julgar’ — ou alguma coisa que passe para a sociedade a firmeza que ele tem”.

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Ao mesmo tempo, Lula salientou: “também tento sempre separar o caso da Suprema Corte do Vocaro. Primeiro, temos de pegar a bandidagem do Vorcaro — ele está preso, mas ainda há muita coisa a ser descoberta, o dinheiro dos estados, do BRB… É importante dizer quem estava envolvido nisso. Depois que resolver este caso, aí vai discutir a questão da Suprema Corte”.

Lula também falou sobre o uso que a extrema direita fará do caso. “Todo mundo tem de ter clareza de que a extrema direita vai usar, na campanha, o caso do Master e o envolvimento da Suprema Corte. E vai fazer isso pedindo voto: ‘quem quiser cassar a Suprema Corte, vote em tal deputado ou tal senador’. Vai ser assim a campanha, isso já está explicitado”.

Nesse sentido, agregou: “Agora eu, como democrata, não deixarei de defender a democracia em hipótese alguma. A Suprema Corte é uma instituição importante para qualquer país do mundo e se tem algum membro da Suprema Corte que tenha cometido um desvio, esse cidadão que pague o preço do desvio, mas a Suprema Corte não pode pagar. Mas é isso que eles estão tentando fazer. E eles estão carimbando o Alexandre de Moraes por causa do papel dele, que foi muito digno, no 8 de Janeiro. Eu confio nas pessoas até que se prove o contrário; eu nunca acho que alguém é culpado antes de ter provas concretas”.

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