Dúvidas sobre sanidade de Trump e ataques ao papa ampliam crise política nos EUA
Relatos do The New York Times e reações de aliados e críticos elevam pressão sobre Donald Trump, com menções à 25ª Emenda em meio à guerra com o Irã
Publicado 14/04/2026 15:41 | Editado 15/04/2026 14:10
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta pressão crescente sobre sua capacidade mental para exercer o cargo, após uma série de declarações consideradas erráticas por críticos e até por antigos aliados. Uma reportagem do The New York Times descreveu Trump como “menos contido e mais incoerente”, citando repetidos erros factuais e afirmações fantasiosas. Horas depois, o deputado Jamie Raskin defendeu uma avaliação de saúde cognitiva com base na 25ª Emenda, apontando para declarações voláteis do presidente sobre o Irã e dificuldades físicas visíveis.
Leia também: Pressão para afastamento de Trump cresce com oscilações da guerra
Ataques ao papa e reação do Vaticano
A controvérsia se intensificou quando Trump publicou em sua plataforma Truth Social um texto atacando pessoalmente o papa Leão 14, classificando-o como “FRACO no combate ao crime e péssimo em política externa”. O presidente ainda alegou que o pontífice só teria ascendido ao Vaticano por sua influência e criticou suas posições sobre armas nucleares e política externa.
A diatribe provocou reação imediata. O papa Leão 14, sem mencionar Trump diretamente, condenou “ameaças contra todo o povo do Irã” e classificou retórica belicista como “verdadeiramente inaceitável”. Em voo à Argélia, o pontífice afirmou: “Não tenho medo nem do governo Trump nem de falar abertamente sobre a mensagem do Evangelho”.
As declarações provocaram forte reação política e religiosa nos Estados Unidos. O episódio foi interpretado por analistas como uma ruptura incomum nas relações entre Washington e o Vaticano. O ataque ao líder religioso ganhou peso adicional por ocorrer em meio à escalada militar envolvendo os EUA e o Irã, ampliando o alcance diplomático da controvérsia.
O Vaticano funciona como autoridade religiosa global e entidade soberana; disputas públicas entre presidentes norte-americanos e papas são raras. Embora a Santa Sé tenha evitado confronto aberto, a escalada verbal corrói canais de diálogo em momento de crise internacional.
No plano interno, o episódio polariza ainda mais um eleitorado já dividido. Líderes religiosos nos EUA instaram figuras políticas a manter discurso respeitoso, alertando que retórica inflamatória pode corroer confiança pública. Apoiadores de Trump, por sua vez, rejeitam críticas como politicamente motivadas, classificando-as como esforço para minar sua presidência.
Relatório do New York Times intensifica questionamentos
Uma análise publicada pelo The New York Times consolidou percepções já presentes em setores políticos e midiáticos sobre mudanças no padrão discursivo do presidente. A repercussão foi imediata no Congresso. O deputado democrata Jamie Raskin defendeu a realização de uma avaliação da capacidade cognitiva do presidente com base na 25ª Emenda da Constituição, que prevê mecanismos para afastamento em caso de incapacidade.
As críticas não se limitaram à oposição. Em movimento inédito, a ex-deputada republicana Marjorie Taylor Greene, anteriormente aliada de Trump, , publicou no X um apelo para que o Gabinete invoque a 25ª Emenda. Ela afirmou que declarações sobre o Irã — como a ameaça de que “uma civilização inteira morrerá” — configurariam “loucura” e justificariam debate sobre a 25ª Emenda.
No campo da segurança nacional, o ex-diretor da CIA John Brennan também defendeu a aplicação da emenda, afirmando à MSNBC: “Essa pessoa está claramente desequilibrada. Acho que a 25ª Emenda foi escrita pensando em Donald Trump”. Brennan alertou para os riscos de Trump controlar poderes militares e nucleares em estado de suposta instabilidade.
Outras vozes conservadoras, como Tucker Carlson e Candace Owens, também criticaram a retórica beligerante, enquanto democratas como Chris Murphy reforçaram preocupações com possíveis impactos humanitários. Alguns republicanos, como o senador Ron Johnson, sugeriram que as declarações poderiam ser tática de negociação, mas a maioria evitou comentar publicamente.
Guerra com o Irã agrava ambiente político
A ofensiva militar contra o Irã, conduzida sem aprovação prévia do Congresso, tornou-se elemento central da crise. Críticos apontam falhas de planejamento, isolamento diplomático e incapacidade de antecipar respostas estratégicas de Teerã, como tensões no Estreito de Ormuz.
Uma pesquisa Ipsos divulgada nesta semana mostra que 66% dos norte-americanos querem que os EUA encerrem rapidamente o envolvimento no conflito com o Irã, mesmo que metas não sejam atingidas. Apenas 27% apoiam a continuidade das operações. O sentimento alimenta ansiedade no Partido Republicano sobre perspectivas para eleições futuras, à medida que postagens raivosas de Trump amplificam preocupações sobre suas decisões.
25ª Emenda volta ao centro do debate
A 25ª Emenda da Constituição dos EUA estabelece que o vice-presidente — atualmente JD Vance — e a maioria do gabinete podem declarar o presidente incapaz de exercer suas funções. O mecanismo, porém, nunca foi utilizado contra um presidente em exercício.
Especialistas apontam que, apesar da intensificação do debate público e político, a aplicação da medida enfrenta barreiras institucionais elevadas, sobretudo pela necessidade de apoio interno no próprio governo.
Apesar do aumento de apelos, especialistas em direito constitucional alertam que invocar a 25ª Emenda permanece extraordinariamente difícil. A Seção 4 da emenda exige que o vice-presidente e a maioria do Gabinete declarem por escrito ao Congresso que o presidente está “incapaz de exercer os poderes e deveres de seu cargo”.
O vice-presidente JD Vance alinhou-se publicamente à posição de Trump sobre o Irã e é considerado improvável que tome iniciativa. Sem apoio do Gabinete e com legisladores republicanos majoritariamente leais ao presidente, a medida enfrenta barreiras processuais e políticas elevadas. O termo “incapacidade”, deliberadamente indefinido na Constituição, deixa sua interpretação a cargo de atores políticos — não de opinião pública ou análise midiática.
Pressão crescente e incerteza institucional
A convergência de questionamentos sobre saúde cognitiva, conduta em tempos de guerra e ataques a instituições religiosas marca momento potencialmente crucial na presidência de Trump. Historicamente, conflitos externos tendem a consolidar autoridade presidencial; contudo, a conduta errática do atual ocupante da Casa Branca e alianças frágeis tiveram efeito oposto, enfraquecendo capital político.
Embora a invocação da 25ª Emenda permaneça improvável no curto prazo, o simples fato de voltar ao debate público sinaliza um momento atípico na política norte-americana, em que a capacidade presidencial se torna tema explícito de disputa institucional.