Idosos são cada vez mais decisivos nas urnas brasileiras
Pesquisa da Nexus revela crescimento de 74% no eleitorado 60+ desde 2010; abstenção desse grupo caiu nas três últimas eleições
Publicado 15/04/2026 12:25 | Editado 16/04/2026 18:17
O Brasil chega às eleições de 2026 com uma transformação silenciosa, mas profunda: o envelhecimento do eleitorado. Levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, com base em dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que o número de eleitores com 60 anos ou mais cresceu 74% entre 2010 e 2026 — cinco vezes mais que o crescimento do eleitorado total no mesmo período, que foi de 15%. Em números absolutos, o grupo saltou de 20,8 milhões para 36,2 milhões de pessoas aptas a votar.
Esse avanço reposiciona completamente o peso político dessa parcela da população. Em 2026, os eleitores 60+ representam 23,2% do total — quase o dobro da participação dos jovens de 16 a 24 anos, que somam 11,9%. Na prática, isso significa que quase um em cada quatro votos no país virá de pessoas idosas.
Segundo o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, o cenário impõe uma mudança estratégica nas disputas eleitorais. “Não se ganha mais eleição negligenciando as demandas desse grupo”, afirma.
Mais presença nas urnas e menos abstenção
Além de crescer em número, o eleitorado idoso também tem aumentado sua participação efetiva nas eleições. Dados do levantamento mostram que a taxa de abstenção entre pessoas com mais de 60 anos caiu de 37,1% em 2014 para 34,5% em 2022, enquanto a abstenção geral subiu de 19,4% para 20,9% no mesmo período.
O engajamento é ainda mais evidente entre os eleitores de 60 a 69 anos, cujo voto é obrigatório: o comparecimento chegou a 85,7% em 2022, acima da média nacional de 79,1%. Mesmo entre os maiores de 70 anos, para quem o voto é facultativo, houve aumento da participação: a abstenção caiu de 63,6% para 58,9%, e o comparecimento subiu para 41,1%.
Os dados indicam que esse eleitorado não apenas cresce, mas se mantém politicamente ativo — seja por dever cívico ou por identificação política.
Nova geografia eleitoral
O envelhecimento do eleitorado também redesenha o mapa político do país. Sul e Sudeste concentram as maiores proporções de eleitores 60+. O Rio Grande do Sul lidera com 29,3%, seguido por Rio de Janeiro (28%) e Minas Gerais (26%).
Nos três maiores colégios eleitorais — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — estão concentrados cerca de 16 milhões de eleitores com 60 anos ou mais. Esse dado é estratégico: são justamente esses estados que costumam definir o resultado das eleições nacionais.
Em contraste, a região Norte apresenta perfil mais jovem, com percentuais em torno de 16,5%, evidenciando desigualdades regionais no processo de envelhecimento eleitoral.
Peso decisivo em eleições apertadas
O crescimento desse grupo ganha ainda mais relevância quando analisado à luz de disputas recentes. Nas eleições presidenciais de 2022, a diferença entre os dois principais candidatos foi inferior a 2 milhões de votos. Diante disso, um contingente de 36,2 milhões de eleitores 60+ se torna potencialmente decisivo para o resultado eleitoral.
Em um cenário de polarização, conquistar esse eleitorado deixa de ser apenas uma estratégia e passa a ser condição para vitória.
Envelhecimento da população e desafios sociais
O aumento de eleitores idosos reflete uma transformação mais ampla da sociedade brasileira. Dados do IBGE mostram que a população com mais de 60 anos saltou de 7% para 16% em três décadas. Há ainda uma tendência de “feminização” da velhice, com as mulheres representando 56% desse grupo.
Esse processo traz desafios estruturais. Segundo o IPEA, o país pode chegar a 2060 com menos de um trabalhador ativo para cada aposentado, pressionando todo sistema previdenciário.
Diante desse cenário, pautas como a defesa da previdência pública, o fortalecimento do SUS, o combate à pobreza na terceira idade e a valorização do salário mínimo ganham centralidade. Ignorar essas demandas não é apenas erro político — é também negligência social diante de uma parcela crescente da população.
Idosos também avançam como candidatos
O protagonismo da população idosa não se limita ao voto. O número de candidatos com 60 anos ou mais também cresce. Em 2022, foram 4.873 candidaturas (17% do total), e nas eleições municipais de 2024 esse número ultrapassou 70 mil, equivalendo 15% das candidaturas.
Esse movimento reforça que os idosos não são apenas eleitores, mas sujeitos políticos ativos, que disputam espaços de poder e representação.
O avanço da geração 60+ nas eleições brasileiras revela uma mudança estrutural no país. Mais numeroso, mais presente nas urnas e mais organizado politicamente, esse grupo passa a influenciar diretamente os rumos do debate público.
Para além da disputa eleitoral, o crescimento desse eleitorado impõe uma agenda: garantir direitos, dignidade e qualidade de vida para quem trabalhou a vida inteira. Em 2026, mais do que nunca, envelhecer no Brasil será também uma questão central da política nacional.
Para ver a íntegra da pesquisa, clique aqui.