Privatizada por Tarcísio, Sabesp vira máquina de tragédias
Explosão causada pela empresa tem vítima fatal e já são três mortos em menos de um ano. Presidente do Sintaema pede saneamento à frente do lucro para evitar novos acidentes
Publicado 12/05/2026 17:39 | Editado 14/05/2026 10:45
Uma nova tragédia protagonizada pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) matou uma pessoa, deixou feridos, desabrigados e causou danos a inúmeras propriedades na segunda-feira (11), no Jaguaré, zona oeste de São Paulo (SP).
O caso aconteceu após uma tubulação de gás explodir ao ser atingida durante uma obra de remanejamento de tubulação de água feita pela Sabesp. A situação é mais um episódio desastroso dos rumos que a empresa tomou após ser privatizada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Prestes a completar 2 anos desde a sua venda, os níveis de sucateamento da companhia vêm numa crescente, ocasionando acidentes e deixando um rastro de morte.
Estima-se que a explosão no Jaguaré tenha deixado 73 famílias desalojadas. Porém, o mais grave é a morte de Alex Sandro Fernandes Nunes, de 49 anos, que dormia em sua casa.
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Longe de ser um caso isolado, confira outras negligências recentes da empresa — em acentuado grau de descaso ao registrar três mortes em acidentes em menos de um ano:
- Em maio de 2025, uma intervenção da Sabesp na Marginal Tietê, na cidade de São Paulo (SP), abriu uma cratera, por duas vezes em menos de um mês, nas pistas da avenida;
- Em Mauá (SP), em setembro do mesmo ano, uma tubulação da empresa se desprendeu enquanto era içada, invadiu uma casa e matou Clelia dos Santos Pimentel, de 79 anos;
- Em março de 2026, o rompimento de uma caixa d’água em Mairiporã (SP) matou um funcionário terceirizado da Sabesp, Francisco Vieira, de 45 anos. Além da vítima, outras nove pessoas ficaram feridas;
- Já em abril, uma adutora da companhia rompeu em Osasco (SP), desabasteceu 30 mil imóveis e causou alagamentos, com a água invadindo casas e arrastando carros.
Sintaema denuncia privatização
O Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo) esteve na linha de frente contra a privatização da Sabesp. Os sindicalistas alertaram a sociedade sobre os riscos que a venda da companhia iria trazer: sucateamento; piores serviços oferecidos à população; e aumento da conta de água.
Ao Portal Vermelho, o presidente do Sintaema, José Faggian, observa que desde a privatização, a Sabesp passa por um desmonte e um total descarte da mão de obra qualificada formada ao longo dos últimos 50 anos, a qual garantia a expertise e a qualidade dos serviços prestados.
“Quando se desmonta a empresa, quando se demite e dispensa 50% do quadro remanescente, com isso vai embora também a qualidade e o conhecimento que esses trabalhadores imprimiam aqui nos serviços prestados pela Sabesp”, aponta.
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O sindicalista entende que é fundamental contextualizar todos os episódios de acidentes da Sabesp, incluindo as mortes e a piora na qualidade dos serviços, no ensejo da privatização.
“É importante contextualizar a privatização, que foi promovida pelo governador [Tarcísio], foi inclusive uma das bandeiras dele desde o primeiro momento em que pisou em São Paulo para fazer a campanha, dizendo que o serviço ia melhorar quando se privatizasse. Nós do Sintaema, com muitos dados e muitos elementos, dizíamos o contrário. Infelizmente estávamos certos, e mais rápido do que a gente imaginava”, lamenta.
Para Faggian, a lógica do lucro no saneamento precisa ser deixada de lado, pois o aumento de reclamações passou de 3,7 mil em 2023 para quase 10 mil em 2024, um aumento de 162%, segundo a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp). Nesse período em que o serviço piorou e as mortes estão se acumulando, o Sindicato indica que no primeiro trimestre de 2026, a Sabesp teve R$ 1,5 bilhão de lucro líquido, um crescimento superior a 32% em relação ao ano anterior.
“Ou se dá um cavalo de pau no que vem acontecendo com a empresa e se retoma um processo de valorização dos trabalhadores e se coloca o saneamento à frente da lógica do lucro, ou eventos dessa natureza [acidentes fatais] vão continuar se repetindo e se amplificando, infelizmente”, entende.
Entrega do patrimônio paulista
Outro ponto em que Faggian chama a atenção é o programa UniversalizaSP do governo estadual. A iniciativa lançada como apoio aos municípios paulistas para alcançarem as metas de universalização do saneamento básico, na verdade, tem forçado a privatização de sistemas municipais de saneamento.
De acordo com o dirigente sindical, o programa UniversalizaSP (lançado em paralelo à privatização da Sabesp) impôs uma série de exigências para as prefeituras onde o serviço de saneamento não era operado pela companhia. Enfim, a medida funcionou como assessoria para modelar a privatização desses sistemas municipais que, em grande parte, eram eficientes.
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“E agora começou o processo de privatização desses sistemas municipais. Estamos vendo isso em São Caetano, em Araraquara e em outros grandes municípios. O governo estadual patrocina e força a privatização desses sistemas de saneamento como tem feito em outras áreas, saúde, educação”, alerta.
Na avaliação de Faggian, é preciso estancar esse processo de entrega do patrimônio do povo paulista para a iniciativa privada sob o risco de acontecer com a saúde e a educação (vide as recentes greves nessas áreas) o mesmo que tem acontecido com a Sabesp e todo o saneamento do estado e que já aconteceu também com o setor energético. A privatização da Eletropaulo resultou na Enel São Paulo, que acumula milhares de problemas a cada chuva que acontece, principalmente, na Região Metropolitana de São Paulo.
“A iniciativa privada vem para ter lucro e não para prestar serviço para o povo de São Paulo. Então a gente precisa unificar a luta com os outros setores e tentar estancar esse processo que é lamentável e já está trazendo um grande prejuízo para o povo paulista”, afirma o presidente do Sintaema.