Violência contra mulheres ganha centralidade, mas desafios persistem

Segundo o Datafolha, 61% dos brasileiros consideram a violência de gênero o crime mais grave do país. Para 71%, as mulheres correm mais riscos dentro de casa.

A violência contra a mulher passou a ser apontada pelos brasileiros como o crime mais grave do país. O dado revela uma mudança importante na forma como a sociedade enxerga um problema historicamente tratado como assunto privado. Ao mesmo tempo, expõe uma contradição: comportamentos que frequentemente antecedem agressões mais graves continuam sendo relativizados por uma parcela significativa da população.

A conclusão é de uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (1º) pelo Movimento Mulher 360 em parceria com o Datafolha. Segundo o levantamento, 61% dos entrevistados consideram a violência contra a mulher o crime mais grave do país, à frente do tráfico de drogas, citado por 16% dos participantes. O percentual chega a 73% entre as mulheres e alcança 77% entre jovens de 16 a 24 anos.

A percepção de agravamento também é quase consensual. Nove em cada dez brasileiros afirmam que os casos de violência contra mulheres aumentaram nos últimos 12 meses. Para 71% dos entrevistados, elas correm mais riscos dentro de casa do que nos espaços públicos.

Os resultados dialogam com um cenário apontado recentemente pelo Atlas da Violência 2026. Embora o Brasil tenha registrado a menor taxa de homicídios dos últimos 11 anos, os assassinatos de mulheres dentro das residências permaneceram praticamente estáveis ao longo da última década. Em 2024, mais de um terço das mulheres assassinadas no país morreu dentro da própria casa.

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A permanência desse padrão ajuda a explicar por que a violência contra as mulheres passou a ser percebida como uma preocupação central. Diferentemente de outros indicadores criminais que apresentaram redução nos últimos anos, a violência de gênero continua encontrando espaço para se reproduzir, especialmente no ambiente doméstico.

O que ainda não é visto como violência

Se a gravidade do problema é amplamente reconhecida, o mesmo não acontece com formas de violência que costumam anteceder agressões físicas e feminicídios.

A pesquisa mostra que apenas 55% dos entrevistados consideram violência impedir que a companheira saia sozinha para uma comemoração. O controle das amizades ou do dinheiro da mulher é reconhecido como violência por 58% da população.

O cenário é diferente quando se trata das agressões físicas e sexuais. Mais de 90% dos entrevistados classificam como violência situações como humilhação pública, empurrões e relações sexuais forçadas.

Os resultados indicam que formas de violência psicológica e patrimonial ainda encontram maior tolerância social, apesar de serem reconhecidas pela legislação brasileira como violações dos direitos das mulheres. O dado chama atenção porque essas práticas frequentemente integram o ciclo da violência doméstica. Antes que a agressão se manifeste fisicamente, muitas mulheres enfrentam situações de isolamento, intimidação e controle que limitam sua autonomia e dificultam a ruptura com o agressor.

Violência recorrente

Os relatos das próprias entrevistadas ajudam a dimensionar o problema. Entre as mulheres que responderam ao módulo confidencial da pesquisa, 74% afirmaram já ter vivido ao menos uma situação de violência ao longo da vida. Xingamentos, ameaças de agressão física e perseguições aparecem entre as experiências mais frequentes.

Os relatos revelam diferentes formas de violência. Entre as entrevistadas, 38% afirmaram já ter sofrido violência sexual sem consentimento, enquanto uma em cada quatro relatou ter sido espancada ou ter sofrido tentativa de enforcamento.

Outro dado preocupante é que 37% das mulheres que sofreram a agressão mais impactante dos últimos 12 meses não tomaram nenhuma providência após o episódio. Ao mesmo tempo, apenas 19% afirmam confiar muito na polícia para protegê-las.

Os números ajudam a explicar por que a violência de gênero continua se reproduzindo mesmo diante da ampliação do debate público e da existência de mecanismos legais de proteção. O silêncio após a agressão e a baixa confiança nas instituições revelam obstáculos que ainda dificultam a denúncia e o rompimento dos ciclos de violência.

Entre o reconhecimento e a mudança

Embora a violência contra a mulher tenha alcançado um nível inédito de preocupação social, a pesquisa mostra que a compreensão sobre o fenômeno ainda encontra limites. Isso aparece, por exemplo, na persistência da culpabilização das vítimas. Segundo o levantamento, 61% dos entrevistados concordam que muitos casos de violência seriam consequência de escolhas equivocadas feitas pelas mulheres ao escolher seus parceiros.

O resultado sugere que o reconhecimento da gravidade da violência de gênero não significa necessariamente a superação das visões que ajudam a sustentá-la. Enquanto agressões físicas e feminicídios são amplamente condenados, formas cotidianas de controle e desigualdade continuam sendo relativizadas.

Mais do que um problema de segurança pública, os dados apresentados pelo Datafolha e pelo Atlas da Violência apontam para um fenômeno social que atravessa relações afetivas, estruturas familiares e padrões culturais profundamente enraizados. O desafio não está apenas em combater a violência quando ela se torna visível, mas em reconhecer e enfrentar os mecanismos que permitem sua reprodução cotidiana.