Cúpula em Salvador reúne 21 nações por mundo multipolar e soberano

Encontro em Salvador reuniu representantes de 21 países e consolidou propostas em defesa da soberania, do multilateralismo e dos direitos dos trabalhadores

O presidente da CTB Adilson Araújo discursa durante a A Assembleia Mundial dos Povos. Foto: Manoel Porto. Foto: Manoel Porto

Salvador foi palco, nos dias 16 e 17 de junho de 2026, da Cúpula Pública Mundial: América Latina, organizada pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) em parceria com a Assembleia dos Povos do Mundo. Com o tema “Novo Mundo: A América Latina na Construção de um Futuro Comum”, o encontro reuniu lideranças sindicais, acadêmicas, políticas, culturais e representantes da sociedade civil de 21 países.

A realização da Assembleia foi avaliada pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) como um marco na articulação internacional de movimentos sociais, sindicais, acadêmicos e culturais em torno da construção de uma ordem internacional mais cooperativa e multipolar.

Na avaliação da CTB, o evento cumpriu um papel estratégico ao fortalecer o diálogo internacional e a diplomacia popular, reafirmando o compromisso da classe trabalhadora com a soberania das nações, o combate ao neocolonialismo e a promoção da justiça social em um cenário global de profundas transformações.

Cooperação internacional e diplomacia dos povos

Assembleia dos Povos reuniu delegações de 21 países. Foto: Manoel Porto

Para a CTB, um dos principais legados do encontro foi o fortalecimento da chamada diplomacia popular — a construção de relações internacionais a partir da aproximação entre movimentos sociais, organizações civis, entidades sindicais e comunidades de diferentes países.

A presença de delegações da América Latina, Europa, Ásia e África, bem como a formalização de acordos de cooperação em áreas como educação, agricultura e formação profissional, foi apontada como demonstração concreta dessa estratégia.

A repercussão internacional do evento, incluindo sua cobertura pela televisão estatal russa, também foi destacada pelos organizadores como sinal do crescente interesse por iniciativas voltadas à cooperação entre os povos.

Unidade da classe trabalhadora e diplomacia popular

Adilson Araújo, durante discurso na Assembleia dos Povos. Foto: Manoel Porto

A abertura do evento foi marcada por um forte chamado à união internacional dos trabalhadores diante das transformações econômicas e tecnológicas em curso. Durante a abertura da Cúpula Pública Mundial, o presidente da CTB, Adilson Araújo, defendeu a construção de uma ampla articulação entre os povos para combater desigualdades e garantir direitos.

Araújo destacou que a integração entre os povos é a principal ferramenta para enfrentar as desigualdades e reverter o que a central sindical classifica como um “processo agudo de involução civilizatória” no Brasil, iniciado com o impeachment de 2016.

“Trabalhadores e trabalhadoras, uni-vos em respeito à diversidade. Uni-vos pelo direito ao trabalho digno, contra a violência destinada às mulheres e por um mundo mais humano e menos desigual”, clamou Araújo, que citou Paulo Freire para enfatizar que “a esperança é revolucionária”.

A preocupação com o futuro do trabalho esteve presente em diversos painéis. Sindicalistas e especialistas discutiram os impactos das novas tecnologias, da digitalização da economia e das mudanças no mercado de trabalho, apontando a necessidade de garantir proteção social e empregos dignos em um cenário de rápidas transformações.

A defesa de um mundo multipolar também ecoou nas falas internacionais. Andrey Belyaninov, secretário-geral da Assembleia dos Povos do Mundo, enviou uma mensagem reforçando que a América Latina não aceita a repetição do neocolonialismo. “A diplomacia popular e da amizade demonstra claramente que as pessoas querem viver sem conflitos e sem decisões equivocadas de políticos que priorizam seus próprios interesses em detrimento dos povos”, afirmou.

Belyaninov destacou que a região possui trajetória histórica marcada pela resistência à opressão e pode contribuir para a construção de uma nova arquitetura internacional baseada na paz e no diálogo.

A avaliação compartilhada por diversos participantes foi a de que a América Latina possui condições de atuar como protagonista de iniciativas voltadas ao fortalecimento do multilateralismo e da cooperação entre os povos do Sul Global.

Interseccionalidade: antirracismo, feminismo e juventude

Lideranças feministas e sindicais discutiram os temas que afetam as trabalhadoras de todo o mundo. Foto: Manoel Porto

Para a CTB, a construção de um “Novo Mundo” exige o enfrentamento das estruturas de opressão históricas. Os painéis dedicados às mulheres, à luta antirracista e à juventude demonstraram que as pautas identitárias e sociais são indissociáveis da luta de classes.

O painel dedicado ao papel das mulheres na formação de uma agenda de valores reuniu lideranças de vários países e destacou desafios comuns, como a desigualdade salarial, a violência de gênero e a baixa representação feminina nos espaços de poder.

A presidenta da CTB Bahia, Rosa de Souza, denunciou a desigualdade salarial e a sobrecarga feminina, exigindo o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho, assim como a ampliação da participação das mulheres na política e no movimento sindical. “Somos sindicalistas e feministas para construir, junto com os homens, uma sociedade mais justa”, declarou.

O combate ao racismo estrutural foi elevado à categoria de eixo central para a democracia. A escritora Bárbara Carine e a presidenta da UNEGRO, Marina Duarte, ressaltaram que Salvador se consolidou como “centro do pensamento crítico mundial”. “Reafirmamos que o nosso território é lugar de produção de saber e estratégias políticas potentes. Discutir o futuro é oxigenar a luta”, pontuou Duarte.

A juventude também marcou posição. Henrique Domingues, secretário da Juventude Trabalhadora da CTB, alertou para a precarização do trabalho jovem e defendeu a cooperação internacional como caminho para garantir direitos e dignidade às novas gerações.

Declaração de Salvador e rumo a Moscou

O balanço da CTB sobre a cúpula é de êxito na articulação política e cultural. Ao final dos dois dias de debates intensos sobre economia, soberania cultural, patrimônio linguístico indígena e o futuro do trabalho, foi aprovada a Declaração de Salvador. O documento sintetiza os consensos do encontro, reafirmando princípios de solidariedade, confiança e responsabilidade compartilhada.

O evento em Salvador também cumpriu sua função como etapa preparatória para a Segunda Assembleia Pública Mundial, prevista para setembro de 2026, em Moscou. Segundo a CTB, a declaração servirá de contribuição para a Segunda Assembleia e representa um compromisso coletivo com a construção de alternativas ao aumento das desigualdades, aos conflitos internacionais e às ameaças aos direitos sociais.

Na avaliação da central sindical, a Assembleia dos Povos do Mundo consolidou Salvador como um importante espaço de articulação internacional e demonstrou que a cooperação entre os povos, a valorização da diversidade cultural e a defesa dos direitos da classe trabalhadora permanecem elementos centrais para a construção de um futuro mais justo e compartilhado.

Como resumiu Svetlana Smirnova, presidente do Conselho Geral da Assembleia, a confiança entre os Estados começa entre as pessoas e as culturas. Para a CTB, a América Latina sai do encontro não apenas como objeto de debates, mas como protagonista ativa na cocriação de uma nova ordem mundial, baseada na dignidade humana e nos valores que unem os povos.

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