Cicatrizes – Sobre tráfico, bebês e dores

Sem medo do vespeiro, cineasta sérvio Miroslav Terzic remexe o caso da mãe sérvia cujo bebê sumiu e ela se torna refém do tráfico de crianças.

Em princípio é difícil para o cidadão comum avaliar o recém-nascido com base no valor fixado pelo tráfico de crianças. Menos para os traficantes que agem no mercado de bebês em Belgrado, capital da Servia. Haverá a partir daí as dores da mãe natural e a “felicidade” da mulher que juntou dinheiro para “comprar um filho”. Tal é o caso verídico da costureira servia Drinka Rodon Jic, cuja história, ocorrida há vinte anos, ainda choca. Neste drama eivado de suspense, o cineasta sérvio Miroslav Terzic (1970) reconstitui não o caso em si, mas suas consequências na vida da família que ficou sem saber o que aconteceu.

O que vale neste “Cicatrizes” é Terzic desenvolver a narrativa sob o ponto de vista da mãe Ana (Snezana Bogdanovic). Mescla a um só tempo a realidade e a ficção para matizar o sofrimento dela. Há toda uma simbologia em seu comportamento cotidiano ao se aproximar de todo e qualquer grupo de estudantes a jogar bola, seja na rua ou na quadra de sua escola. Fica ali parada, extasiada e ao mesmo tempo sofre por não ver entre eles seu filho na pré-adolescência. A câmera de Terzic se mantém à distância a registrar suas dores e o vazio a lhe angustiar continuamente.

Terzic e seu diretor de fotografia Damyan Rodo trabalham com a câmera em grandes espaços. Ora é a avenida e as ruas, ora a linha férrea e o ônibus com poucos passageiros. Atesta o quanto a solidão tornou a vida de Ana, no filme, e Jic na realidade, uma busca sem rumo. O que vale nestas sequências é a interiorização das dores de uma mulher a envelhecer sem ter qualquer pista do que ocorreu com seu filho. Suas lembranças o congelaram no passado e ela não o imagina como um homem de vinte anos, nem seus traços fisionômicos em criança. Este é o grande achado de Terzic pois obriga o espectador a decifrar o que significa sua fixação nas crianças a brincar na rua ou numa quadra esportiva ou escolar.

É como se ela estivesse com o coronavírus

Nem com projeções de seu inconsciente, ela consegue dar rosto e voz ao seu bebê. Tampouco mantém algum som de choro em sua mente para facilitar qualquer identificação do ser sobre o qual não tem qualquer vestígio. Os fios dos fatos enovelados por todos que se negam a deixá-la ao menos tocar no assunto não são o bastante para fazê-la soterrar seu sonho de localizá-lo. Ana/Jic é a mulher cuja persistência irrita o comissário de polícia e funcionários do hospital, loucos para se verem livres do caso cuja vítima não é só o bebê, mas também a mãe. Todos só querem se livrar rapidamente.

A forma de tornar real esta manobra através de imagens é Terzic manter sua câmera a boa distância dos personagens. Estão todos apressados e procuram se livrar de Ana/Jic rápido como se ela estivesse com coronavirus. Uma enfermeira chega a exclamar: ”Já não aguento mais”. E o idoso comissário de polícia a alerta para sua insistência em reabrir um caso já investigado. Afirma inclusive que pista alguma da criança por ela mencionada foi sequer localizada. O clima, desta forma, se torna kafkiano, por ela persistir em reabrir um processo contra quem roubou seu bebê se “ambos nem existem mais”.

As informações desta trama bem articulada por Terzic reforçam tanto a desconfiança de Ana/Jic quanto daqueles que a temem por sua persistência. Algo de ruim aconteceu naquele dia na enfermaria do hospital e os suspeitos se negam a admitir que foi em seu horário. São nestas sequências que Terzic dá os fios dramáticos para o espectador puxar. Há coincidência demais nas declarações do velho comissário de polícia e dos funcionários do hospital. Surge daí o trançar de desmentidos que não se sustentam. Caso contrário teriam advindo do subconsciente de Ana/Jic.

Ela continua a se sentir vazia

Esta linha narrativa se contrapõe, no entanto, à centrada em suas boas relações com o companheiro Jovan (Marco Bacovi) e a frieza com que é tratada pela filha Ivana (Jovana Stojilkovic). As visões de cada um deles sobre o que ela faz torna angustiante o clima no apartamento. A ideia é de que falta o quarto membro da família para dividir com eles aqueles espaços. Isto acontece à mesa no café da manhã, no almoço e no jantar. Terzic estrutura estas sequências de modo a transferir para o espectador a visão das consequências do que ocorreu anos atrás, sendo difícil escapar do vazio.

Daí emerge o tema central deste “Cicatrizes”: a destruição da estrutura psicológica da mulher provocada pela perda do ansiado segundo filho. Mesmo que integre o grupo de mães que tiveram os filhos roubados, faça terapia de grupo e participe das reuniões da Associação de Crianças Desaparecidas ela continua a sentir-se vazia. Não há amizade, palavras e amor do companheiro Jovan que a levem a aceitar que seu bebê se foi. O que ela busca é fazer as autoridades encontrarem plausíveis justificativas para ela não o ter levado para casa. É a mais grata satisfação que poderiam lhe dar, mesmo que fosse negativa e ela chorasse.

É quando Ana/Jic surpreende o espectador por demonstrar garra, persistência e coragem a um só tempo. É a mulher a lutar pela verdade e a responsabilidade de ter filho e, principalmente, não temer as veladas ameaças de Nostic, cuja autoridade lhe é suspeita. Lhe cabe desvendar o que, de fato, ocorreu no quarto em que seu filho nasceu e ela jamais soube o que aconteceu com ele. As desculpas encontradas para o justificar escapam à realidade mais ficcional que for. E, além disso, é vista como quem busca forçar a reabertura do caso. E torna-se. assim, suspeita e louca quando busca não só os seus direitos, como encontrar o próprio filho.

Terzic desconstrói o interesse das autoridades servias

Terzic cria, a partir daí a atmosfera ao mesmo tempo de terror, mistério e suspense. De vítima ela passa a ser vista como quem busca algo mais do que explicação para o sumiço de seu filho. É ameaçada, sua vida torna-se então verdadeiro inferno. Não há como o espectador deixar de odiar quem bloqueia seus direitos. Ao se recusar reabrir as investigações, as autoridades superiores criam espaço para outro tipo de desconfiança. A própria Ana o percebe. Não encontra, mesmo no comissário Nostic, a resposta que anseia obter. Ele é enfático demais em seu ardil, ainda que denuncie a si próprio sem firula. Tudo se transformou numa farsa.

Na terceira parte de “Cicatrizes”, Terzic desconstrói o interesse das autoridades servias para reabrirem as investigações sobre o que aconteceu ao bebê de Ana/Jic. Sua construção dramática é sustentada pela subtrama em que mãe e filha preenchem o espaço deixado por Nostic. Sua narrativa passa do drama para o suspense e à tentativa de mãe e filha correrem o imaginável risco. Quando elas não mais acreditam nas autoridades constituídas decidem correr o próprio risco. Tudo porque os pilares de sustentação da sociedade foram destruídos pelo crime organizado com ajuda policial, ainda que Terzic não o explicite no filme.

Esta ousada abordagem num drama é tecida por Terzic, ao se valer de técnicas narrativas de filmes suspense para ressaltar o caso real vivido pela costureira Drinka Rodon Jic. O que os diferenciam é ser Ana/Jic a mulher a correr todos os riscos no lugar dos policiais subordinados ao Comissário de Polícia de Belgrado, capital da Servia. Sua eficiência está em ter usado equipamentos familiares aos usuários da alta tecnologia como os celulares conectados às redes sociais. Sua orientadora, a filha Ivana, vive conectada à rede para trocar mensagens com os de sua idade.

Centro da ação é deslocado para as duas mulheres

A frieza de ambas acaba levando-as a inverter a forma de investigar, usando apenas dados elementares para chegarem ao objetivo. Toda a rede é percorrida, com a câmera de Terzic em planos abertos. O centro da ação é deslocado para duas mulheres cuja experiência se restringe a serem ousadas e objetivas. Contudo, elas não são dadas a recuar, pelo contrário, quanto mais desafiadas mais elas avançam em direção ao objetivo. Assim, o espectador se vê diante da ação de duas mulheres que nada temem. O que elas buscam é checar o que ocorreu com o bebê para além do hospital.

São duas histórias paralelas: a da mãe cujo objetivo ao longo de vinte anos tem sido saber o que aconteceu ao seu filho, e o da filha é mapear cada espaço por onde seu irmão pode ter passado. Com esta mudança do centro de ação para outro cenário, Terzic desconstrói a imagem de eficiência dos policiais de combate ao tráfego de crianças de Belgrado. Na cabeça do espectador eles passam a ser os vilões com as enfermeiras e médicos do hospital onde Marko, o bebê de Ana/Jic, desapareceu sem deixar uma pista sequer. É o chamado mistério urdido para encobrir a realidade cotidiana do crime organizado seja lá aonde ele atue.

Ao transformar mãe e filha em destemidas mulheres, Terzic muda o enfoque de sua narrativa. Além de aumentar as suspeitas sobre os policiais, põe Ana/Jic e Ivana como seus contrapontos. É a criatividade de sua roteirista Elma Tataragic que permite o espectador comparar a má vontade dos policiais com a eficiência do método usado por elas para chegarem ao menos a alguma pista de Marko. As duas são, além disso, mais centradas no que pretendem desvendar. Para isto transitam em bairros e conjuntos habitacionais aonde mora tão só a classe média.

Terzic desconstrói os clichês dos filmes de ação

O mais inusitado é encontrar quem as trate como meras intrusas, temerosas de elas avançarem para as zonas perigosas. É o que ocorre com a já idosa loira surpreendida com indagações que supostamente ferem seu senso de honestidade. Pouco importa se a dupla Ana/Jic/Ivana se pôs a esquadrinhar quarteirão por quarteirão. Mesmo o jovem se retrai quando se vê enredado por elas em questões fora de suas preocupações. Percebe-se então a coragem e a eficiência de mãe e filha ao valer-se de um caso real para desmontar a tentativa de ocultação feita pelos Comissários de Polícia envolvidos com o tráfico de bebês sérvios.

Deste modo, Terzic desconstrói os clichês dos filmes de ação, policial e suspense nos quais predominam a violência, o sangue e a perseguição de automóveis intercalada com troca de tiros. Sua narrativa é mais calma, cerebral, centrada no dilema e dor da mulher no instante maior de sua existência: o parto que a torna mãe. Ana/Jic não pôde sequer ouvir o choro do filho ao qual deu o nome de Marko. Por mais que ela interiorize seu sofrimento, seu subconsciente não deixa de lembrar-lhe da criança.

Neste drama centrado em família classe média, Terzic não negligencia o papel crucial representado por Jovan. É o personagem masculino que além de equilibrar as relações familiares sabe como tratar a irritadiça filha Ivana. E sem deixar de criticar a obsessão de Ana/Jic pelo filho Marko. Não é, por fim, nem o machão ou o ausente cuja contribuição é moral e solidária. O que de certo modo tranquiliza a própria companheira. São detalhes trabalhados por Terzic com a roteirista Tataragic sem isolá-lo na narrativa. Os dois o constroem como personagem, ainda que ele seja real e o modelo certo para lhe dar consistência dramática. E isto acontece.

Terzic opta por metáfora, anticlimax e silêncio

Não só os dois contribuem para o realismo e o encadeado com os quais as imagens se sucedem na tela. Se pode dizer que o toque feminino vem de Tataragic, da montagem de Milena Z. Petrovic e da trilha sonora de Aleksandra Kouval. Isto sem esquecer a direção de fotografia de Damyan Rodo. É toda uma equipe, incluindo os atores, cuja criatividade termina por sustentar o tema, a estética e a proposta dramática do diretor Miroslav Terzic. O que conta, em si, é o tema que estruturado em imagens termina por justificar os noventa e sete minutos de história, ideias, concentração e, por que não, de diversão, prazer e sobretudo reflexão

Há em toda narrativa a sequência e a cena do filme em que a história delineia seu desfecho. Não é diferente neste “Cicatrizes”. Acontece em três emblemáticas sequências, a confirmar a primeira e a segunda parte da história onde o espectador se vê enredado em situações para além de sua própria antecipação. Tudo leva à terceira e última parte do filme, onde o desfecho expõe a solução do impasse ou a abertura do caminho a ser percorrido pelos personagens centrais ou não. Não é diferente do fim criado pela dupla Terzic/Tataragic para sua narrativa em imagens.

Em vez de estruturar um desfecho edificante ou que configure o inesperado para o espectador, os dois optam pelo anticlímax, a metáfora e o silêncio. Vê-se o personagem percorrer longo trajeto, usar o elevador e finalmente vagar pelo apartamento. Predomina o silêncio e ele (Paule Cemeritic) apreende o que se passa em outros cômodos. Aos poucos a câmera dele se aproxima e ele permanece estacado. Terzic prefere encerrar sua narrativa pelo outro lado da história. Haverá quem entenda sua intenção, outros irão lamentar a ausência da alegria, da ebulição da vida e a certeza da eternidade. Porém cada um irá criar seu próprio final.

Cicatrizes (Savovi). Drama, suspense. 2020.Produção: Sérvia, Slovênia, Croácia. 97 minutos. Trilha sonora: Aleksandra Kouval. Montagem: Milena Z. Petrovic. Fotografia: Damyan Rodo-vanovic. Roteiro: Elma Tataragic. Direção: Miroslav Terzic. Elenco: Snezana Bogdanovic, Jovana Stojjljkovic, Vesna Trivali, Paule Cemeritic, Marco Bacovi.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
Autor

Um comentario para "Cicatrizes – Sobre tráfico, bebês e dores"

  1. dirceu disse:

    Adorei seu site. Muito conteudo de qualidade.
    Obrigado por compartilhar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *