Dois Dias, Uma Noite”, exploração de sempre

Em filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardene conflito capital/trabalho expõe as dificuldades da mulher para manter o emprego e a família

Na aparente simplicidade desteDois Dias, Uma Noite” emerge a complexa estrutura narrativa que leva o espectador a mergulhar no dilema da operária Sandra Billat (Marion Cotillard), no conflito capital/trabalho e na importância do coletivo para sua sobrevivência no emprego. A dupla de cineastas belgas, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardene, constrói a narrativa como um jogo em que ela deve convencer seus/suas companheiros/as para alcançar seu objetivo.

Em várias sequências, a luta supostamente individual de Sandra vai ligando-se ao fato-denotador da ação: a decisão do industrial Dumont (Baptiste Sorrin) demiti-la para reduzir seu custo com pessoal. E para fazê-lo entregou a seus 16 empregados/as, num dia em que ela faltou, a responsabilidade de votar pela permanência dela ou não. Em caso positivo, eles receberiam cada um o abono de £ 1.000 euros. Assim lhe cabe desmontar esta armadilha convencendo-os/as a apoiá-la.

A criatividade dos Dardene está em encadear a narrativa dotando-a de suspense que prende espectador e fuge à estruturação de entrechos, normais em sua filmografia (O Garoto da Bicicleta, 2011). O que os levam a concentrar toda a ação em Sandra, que surge fragilizada nas primeiras sequências, devido à forte depressão. E depende da ajuda do companheiro Manu (Fabrizio Rongione) e da colega de trabalho Juliette (Catherine Salée) para ir em frente, tendo dois dias e um noite para fazê-lo.

Capital é usado para manipular

Esta variação de "Corra, Lola, Corra", de Tom Tykwer (1998), é na verdade uma metáfora da luta da mulher para sobreviver no mercado do trabalho. Com dois filhos pequenos, Sandra e o cozinheiro Manu dividem as despesas da casa. Caso fracasse, o sustento da família estará ameaçado. Mas os obstáculos enfrentados por ela serão usados pelos Dardene para traçar um perfil da classe operária belga, e não só dela, e mostrar como o capital se vale de seu poder para manipulá-la, jogando-a contra si mesma.

Em elaborados planos-sequências, eles passeiam por variados estilos de moradias de tijolos de concreto, ruas e estradas, e detém-se em móveis, utensílios e veículos, que atestam o nível de vida dos operários como a justificar as atitudes deles contra ou a favor da demissão de Sandra. Alguns dizem que £ 1.000 euros é muito dinheiro, cerca de R$ 3.500,00, outros que precisam dele para a faculdade da filha, para terminar a casa, ou para mobiliá-la.

O caso mais emblemático é o de Ivon (Philippe Jousette), cujo filho o espanca dizendo que Sandra não deveria interferir:”(Você) não tem vergonha de vir aqui roubar nosso dinheiro?”. Nenhuma solidariedade emana destas recusas, tampouco a visão de que poderiam estar na mesma situação. A consciência de classe fica, deste modo, turvada pela premência que desconsidera o que está em jogo: o desemprego e a penúria da família Billat. Enquanto o dinheiro uma vez usado se esvai e a demissão dela fica.

A solidariedade é surpreendente

Para Sandra, que às vezes fraqueza, devido a seu estado depressivo, certas situações são surpreendentes. Numa delas, Kader (Timor Magomedgadizhieu) chora, envergonhado por ter votado contra ela. E promete reverter seu voto no próximo pleito. Noutro instante, já desanimada, vê a companheira Anne (Christelle Cornil) abandonar o marido, contrário ao apoio dela, para ajudá-la manter o emprego.

É desta forma que os Dardene configuram a imutável natureza do capital. Ele sempre encontra meios para lucrar mais. Da mais valia, obtida sobre as horas trabalhadas pelo operário, da tecnologia para, com máquinas novas, ampliar a produção, e das horas-extras como ganho de escala. O motivo, explica Dumont, “é a concorrência das empresas asiáticas”. As razões, porém, são outras, como Sandra descobriu.

Durante sua ausência para tratar a depressão, ele fez os 16 operários trabalharem três horas-extras a mais, percebendo que sem ela poderia produzir mais, gastando menos. Esta é, enfim, a razão de sua dispensa. Mas não é, porém, sua única artimanha. Em conversa com o imigrante africano Alphonse (Serge Koto) para obter seu voto, descobre ter ele contrato temporário e, por isto, receberá só 150 euros, cerca de quinhentos e trinta reais.

Sandra opta pela liberdade

Mas o filme não é árido, centrado só nos impasses de Sandra, tem seus instantes de lirismo, de intimismo. Entre um apoio e um não, Sandra e Manu encontram tempo para tomar sorvete, sentados no banco da praça. Eles se interrogam sobre a vida a dois, vendo os pássaros cantando, e reafirmam a paixão de um pelo outro. Então aflora o desejo de Sandra pela liberdade, numa antecipação do que virá no desfecho. Recurso metafórico hoje pouco usado no cinema.

Isto se evidencia quando ela, após a decisão dos companheiros, se vê diante de Dumont. Ele lhe faz uma proposta enviesada e ela demonstra todo seu caráter e independência. É uma forma de não se deixar escravizar pelo capital, embora o custo seja alto, a consciência da liberdade prevalece. Para o operariado ver e refletir.


Dois Dias, Uma Noite. (Deux Jours, Une Nuit). Drama. Bélgica/França. 2014. 95 minutos. Montagem: Marie-Héléne Dozo. Fotografia: Alain Marcoen. Roteiro/direção. Jean-Pierre Dardene/Luc Dardene. Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongionne, Catherine Salée, Christelle Cornil.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
Autor