Elena Ferrante, Wright Mills e gatos sem rabo

“Não por acaso existe uma relação positiva entre escolaridade e renda, a pobreza monetária é geralmente acompanhada da impossibilidade ou dificuldade de acesso a recursos educacionais e culturais.”

No segundo volume da Tetralogia Napolitana, da escritora Elena Ferrante, temos uma cena bastante significativa sobre um dos temas transversais da obra: a relação entre classe e intelectualidade. Quando Elena Greco, a narradora-personagem, apresenta ao orientador os avanços na elaboração de sua monografia, recebe elogios; porém, quando sugere interesse em dar continuidade aos estudos e seguir carreira acadêmica, ouve do professor que deveria dedicar-se ao magistério, afinal, ela já chegara longe para o lugar de onde veio.

Do outro lado, Wright Mills, sociólogo norte-americano e expoente da Teoria das Elites, ao analisar as classes dirigentes de seu país identifica um padrão endógeno, pois é da própria elite que nascem as novas elites. Um dos aspectos apontados é que a socialização dessas pessoas engendra um sistema que se retroalimenta, elas têm relações de parentesco, estudam juntas, casam-se entre si, formam unidades psicológicas. E são essas as pessoas que decidem pela sociedade como um todo.

E o que conecta Elena Ferrante a Wright Mills? Penso que Greco é um exemplo na literatura de um fenômeno da vida real: os limites impostos àqueles nascidos nas classes trabalhadoras que ousam adentrar os terrenos da intelectualidade, historicamente dominada pelas elites. Não por acaso existe uma relação positiva entre escolaridade e renda, a pobreza monetária é geralmente acompanhada da impossibilidade ou dificuldade de acesso a recursos educacionais e culturais. É justamente nessa relação que se funda o mito da meritocracia, como se dependesse somente do indivíduo transformar as adversidades em “sucesso”.

Além disso, no capitalismo que lucra com a exploração dos corpos, é preciso manter aqueles que são tratados como descartáveis alheios à própria realidade. É mais difícil e improvável dedicar tempo às reflexões sobre a vida quando a manutenção da materialidade dessa mesma vida está ameaçada. E mesmo quem teima em existir com o corpo e com a mente, apesar das origens, encontra diante de si inúmeras portas, muros e olhares.

Novamente vejo que Ferrante exemplifica na literatura o que Mills teorizou na sociologia. Na verdade, os grandes autores fazem isso, alguns por genialidade pura, outros por uma leitura aguçada da realidade, e outros por esmero com a articulação entre teoria e prática. Ao longo da obra da escritora napolitana, testemunhamos a disciplina de Elena Greco mostrar-se insuficiente para alterar seu status, ela é sempre uma estrangeira no mundo acadêmico. O casamento com um membro da elite intelectual apenas lhe concede um visto que garante passagem, com o divórcio é lembrada pela então sogra que já não estava sob proteção da família.

Este é outro aspecto importante na análise sobre as altas rodas de poder, os filhos da elite são socializados para comandar; os filhos das classes trabalhadoras, supostamente para acatar este comando. Garantir capital educacional e cultural aos primeiros e negar aos últimos é uma das formas de manter as estruturas de desigualdade vigentes. E no Brasil, a análise demanda o reconhecimento de outros marcadores, para além da classe, como, raça, gênero e região.

O Brasil não é como Pisa (cidade italiana) no final dos anos 1960, não é sequer como o próprio Brasil nesse mesmo período. Somos um país em retrocesso após alguns anos de avanço. A ampliação do acesso ao ensino superior e a política de cotas promoveram transformações significativas para uma maior pluralidade intelectual. Porém, este um ano de pandemia expôs desigualdades que ainda persistem. A suspensão das aulas afetou de diferentes formas os estudantes das redes pública e privada, pois o acesso aos meios tecnológicos para continuidade das aulas online é desigual. Da mesma forma, a realização do ENEM em meio a esse contexto, prejudicou justamente aqueles que têm maiores dificuldades para ingressar nas universidades. 

Na teoria das elites, Mills critica os efeitos negativos da concentração e retroalimentação do poder para a democracia. Nos livros de Ferrante, Elena Greco se torna uma escritora renomada, mas chega à velhice ainda assombrada por não pertencer a lugar algum, nem à elite intelectual – devido a suas origens, nem à classe trabalhadora – devido à própria escolaridade. E ao recorte de classe, acrescenta-se o gênero, ela é uma mulher que escreve.

E como Virginia Woolf muito bem formulou, a mulher que escreve é como um gato sem rabo, que causa estranhamento pelo que supostamente lhe falta. Eu digo que aqueles que ocupam lugares nunca ocupados são todos gatos sem rabo, em especial as mulheres, mais ainda as mulheres negras, a quem foi negado com a escravização e racismo o próprio status de feminino.

O não-lugar de quem ocupa novos espaços, se reflete no estranhamento do meio e nas dúvidas que podemos ter sobre realmente pertencer. Não são poucos os que atuam como o professor de Greco, desestimulando quem busca abrir caminhos nunca trilhados pelos seus.

Porém, esse deslocamento, característico da sociedade ocidental, não é natural como muitos podem crer. E a chave para entender sua construção como social vem com a explicação que Mills oferece sobre a gênese das elites: são círculos herméticos, masculinos, excludentes. Apesar de ter sido assim há tanto tempo, os gatos sem rabo são mais comuns hoje do que em 1928, quando Woolf escreveu Um Teto Todo Seu. Quem sabe o futuro não seja repleto de gatos sem rabo? Cabe a nós escrevê-lo.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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