Memória coletiva e romance da ditadura brasileira

A memória da gente é memória coletiva. Tanto no que nos forma desde a
infância, quanto na idade madura, quando a memória individual se forma
com a memória dos amigos

Foto das capas de livro A Mais Longa Duração da Juventude

A memória da gente é memória coletiva. Tanto no que nos forma desde a
infância, quanto na idade madura, quando a memória individual se forma
com a memória dos amigos, como se fosse um só universo de nossas vidas.

Assim foi nesta semana, quando li um comentário no Facebook do
professor Francisco Ilo sobre “A mais longa duração da juventude”. Copio
um trecho:

“Neste livro eu vi e revi um período do Movimento Estudantil e outras
atividades políticas no Recife. Reuni amigos na esquina da ponte Duarte
Coelho, ou na frente do cinema São Luiz. E lá, em “A mais longa duração
da JUVENTUDE “, estão para mim identificados na minha mente: Mário
Sapo, Givaldo (o livreiro) e Marco Albertim, este, confirmado por Urariano
Mota. E como o livro tem tradução para a língua inglesa, já é roteiro para
filme (assim, falou Celso Marconi). Bora moer, ver esses personagens na
tela grande?”

Então, a partir dessa boa lembrança, que estava perdida em mim, fui buscar
o que o maior crítico de cinema da nossa geração escreveu sobre o
romance. Eu tenho uma gratidão imensa, Celso Marconi, por estas suas
palavras:

“O romance da ditadura brasileira

Terminei minha tarefa de carnaval agora às 23 horas da segunda-feira e
estou encantado. Li todo, li as 318 páginas do livro de Urariano Mota, “A
mais longa duração da juventude”. A primeira coisa que quero dizer é que

Abdias Moura tem que ampliar o seu livro sobre livros que falam do Recife
e deverá fazer um novo capítulo inclusive porque – quero dizer – eu que já
não gostava mais do Recife voltei a admirá-lo intensamente.

Eu fiquei sabendo com profundidade que durante os anos da ditadura havia
organizações bem junto d’agente lutando contra a ditadura. Eu então
pensava numa esquerda muito menos ativa e mais burocrática. E mesmo
quando aconteceu a traição de Cabo Anselmo e a morte de Soledad Barrett
e outros companheiros, mesmo assim senti como se fosse algo no interior
de Pernambuco.

Urariano não nos contou simplesmente uma estória, mas montou um
grande painel – e jogou com duas épocas indo dos anos 1970 até 2016 –
que mostrou toda a força de um Recife revolucionário. Embora tudo
aconteça de maneira bem alegre. Inclusive naquela época a gente que fazia
parte do Tropicalismo tínhamos a ideia de que éramos considerados
alienados e com a discussão que está no livro vemos como um dos
participantes – Vargas – comenta de forma corretíssima a música e poesia
de Caetano.

Esse painel que temos – concordo totalmente – daria um grande filme num
estilo como o do italiano Luchino Visconti e o Recife tem vários cineastas
que poderiam fazê-lo, mas eu sugeria Camilo Cavalcante e sugiro a ele que
procure Urariano e busque adquirir os direitos autorais, antes de outros.

Embora não conte uma estória, conta várias estórias e várias sequências
fortíssimas como a de Vargas desesperado quando sabe da traição de Daniel
e a de Joana indo a pé do bar Pérola até um espaço na Imbiribeira com o
base e lá se juntarem amasiarem. Pra mim foi uma leitura de certa forma
muito íntima, pois minha vida profissional é praticamente toda nesse
espaço central e lugares do Recife. Certamente eu convivi com essas
pessoas mesmo anonimamente e até tive uma vez na casa do Daniel Cabo
Anselmo. Eu trabalhava na Guararapes no INPS de manhã e de tarde no
Jornal do Commércio e ia muito no bairro do Recife marcar filmes para o

Teatro do Parque e ia a bares como a Portuguesa, embora raramente ficava
em bar até de manhã.

“A mais longa duração da juventude” além de tudo não é só um romance
político, mas um romance muito bem realizado tecnicamente e uma leitura
fundamental mesmo para quem gosta de literatura com profundidade”

O texto do imortal crítico de cinema Celso Marconi aqui
O romance da ditadura brasileira – Vermelho

Então aconteceu mais uma vez, de outra forma, a luz da memória coletiva.
Acompanhem, por favor. Quando procurei o texto de Celso Marconi sobre
o romance “A mais longa duração da juventude” no Facebook, eis que
reencontrei este comentário de Luzia Amélia Jakomeit, conhecida pelo
nome de Memélia Moreira, dignidade e honra do jornalismo brasileiro:

“Luzia Amélia Jakomeit

Celso Marconi Lins, Urariano Mota, quando eu estava lendo o livro, apelei
para o Google Mapas e tive uma ideia que está valendo. Se eu morasse no
Brasil, talvez pudesse pôr em prática. A ideia é criar um roteiro turístico-
amoroso da resistência do Recife. E, quem sabe, fazer pacotes para os
turistas. E se os bares citados ainda existem, o roteiro programaria o final
do tour num desses bares. Eu realmente gostaria de fazer isso”.

Do comentário de Luzia Amélia Jakomeit, fui para um dos seus textos
sobre o romance, e redescobri estas suas palavras:

“Conversei com o autor algumas vezes e lhe disse que se tivesse capital
criaria um roteiro turístico no Recife percorrendo as ruas, restaurantes,
bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e outros

logradouros que em vários momentos foram cenários daqueles meninos que
carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles pós-adolescentes que
eram feridos de morte quando cada companheiro caía nas mãos dos nossos
implacáveis inimigos, entre eles Cabo Anselmo e o delegado Sérgio Fleury.
E mais, que produziria um filme com inspirações de Jean-Luc Godard dos
anos 60/70 e Fellini. A viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é
felliniana. Mais especificamente, uma ‘Dolce Vita’ de uma juventude que
criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social vigente e
cujas armas eram o sonho, a palavra, uma arma talvez enferrujada e um
simples mimeógrafo guardado sob cuidados. Um dos mais revolucionários
instrumentos da nossa geração”.

O texto flamante, alto e belo de Memélia Moreira (Luzia Amélia Jakomeit)
aqui
Quanta paixão existe na alma revolucionária  – Vermelho

Quando fui lançar o romance em São Paulo, lembro que falei para o
público: “Quem somos nós sem os amigos? Quem somos nós sem os
companheiros? Nada. Ou menos que nada!”. Ali, eu não mencionei que a
memória é sempre memória coletiva. Mas penso que falei de outra maneira.
Nestes dias ficou claro para mim. Hoje espero que a nossa memória fale
sempre um abraço fraterno.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
Autor